12 fevereiro 2026

“Do que eu falo quando eu falo de corrida”, de Haruki Murakami: a arte de não dar conselhos

 

Sim, eu queria ler um livro sobre exercícios físicos – esse vitupério a que todos nós estamos condenados se quisermos ter uma vida minimamente ativa e saudável. Mas não queria ler um livro de coach, livro de gente que legisla em causa própria, de vendedores de passos ou métodos. Nem mesmo um livro científico sobre os benefícios porque, como é óbvio, todo mundo sabe os benefícios – inclusive aqueles que, como eu, não são fãs desse tipo de atividade.

Sim, como vi o Cortella dizer uma vez sobre exercícios físicos, não gosto, não aprecio, não admiro. Por isso que ao me deparar com o livro de Murakami, logo nos capítulos um e dois me dei conta de que era o que eu precisava: não era um livro de nenhum tipo descrito no parágrafo anterior, o que me animou a concluir a leitura.

E assim ele se tornou o primeiro lido de 2026: um livro que fala sobre exercícios físicos sem dar conselhos. Murakami deve saber que seus leitores, inclusive os sedentários como eu, não precisam de mais um coach dando conselhos ou vendendo métodos milagrosos, mas se sentem satisfeitos ao ler um relato sincero de alguém que conseguiu incluir esse método moderno de tortura em sua rotina.

Aqui precisamente está o primeiro aspecto do livro: não sei se é preciso classificá-lo apenas como relato. A leitura dá um tom de ensaio/relato à medida que Murakami, ao longo de nove partes/capítulos, todos datados, à moda de um diário, disserta sobre sua relação com a corrida sem deixar de fazer um paralelo e justificar as duas atividades. Há um trecho interessante em que essa relação fica explicada de maneira curiosa:

“Basicamente eu concordo com a opinião de escrever romances seja um estilo de vida pouco saudável. Quando paramos para escrever um romance, quando usamos a escrita para criar uma história, queiramos ou não, um tipo de toxina que jaz nas profundezas de toda a humanidade sobe à superfície. Todo escritor precisa ficar cara a cara com essa toxina e, consciente do perigo envolvido, descobrir um jeito de lidar com ela, pois de outro modo nenhuma atividade criativa no sentido real pode ter lugar.” (Capítulo 5). Logo no capítulo seguinte há o complemento: “Para lidar com algo insalubre, a pessoa tem de ser o mais saudável possível.”

Murakami se denomina “escritor profissional” e deixa transparecer uma disciplina de escrita profissional mesmo, quase burocrática. Nesse sentido, não deixa de ser curioso notar como associa essa atividade a algo tão metafísico como um encontro com a “toxina nas profundezas da humanidade”, tudo para justificar a escrita como algo não saudável. Seu colega brasileiro, Fernando Sabino, afirmou que a tragédia do ato de escrever é que é um ato solitário. Além de tudo é sedentário, já que se faz sentado, curvado – embora já tenha visto por aí que algum escritor, se não me engano Hemingway, escrevia em pé.

Enfim, o texto não é sobre escrita, mas o texto de Murakami. Um texto que afirma a corrida como solução para sua atividade insalubre de escrever romances. Uma solução que se revelou algo que passou a integrar sua vida, a ponto de ser, paradoxalmente, motivo de uma atividade insalubre: um livro sobre corrida.

Um livro bom, afinal. Primeiramente porque, conforme já afirmei, não é autoajuda. Segundo porque revela, de modo metalinguístico, o processo mesmo da criação do hábito da corrida.

Explico. A escrita de Murakami – neste livro, pelo menos, não li os outros dele – repete o processo de uma atividade física: é circular, repetitiva, consistente, pessoal e universal ao mesmo tempo. Não faço essas afirmações como crítica negativa necessariamente, mas como consequência mesma do tema. Você há de concordar comigo que escrever um livro inteiro sobre sua vivência com um esporte como esse não é tarefa fácil, assim, ao fazer de um livro algo que caberia num artigo, Murakami conseguiu, sem “encher linguiça”, como se diz, um resultado positivo.

Positivo por fazer o leitor correr com ele. A metalinguagem de leitura proporciona esse prazer: ao tomar conhecimento das vivências do autor, escritas de forma não linear, descritas detalhadamente, em uma linguagem quase referencial, ensaística mesmo, faz com que o leitor participe do início, da criação do hábito, da maratona corrida no berço da maratona, do cansaço recorrentemente narrado, dos desafios autoimpostos cada vez maiores, do triatlo que foi a etapa seguinte a uma vida esportiva bem sucedida e, sobretudo, dos fracassos, do que não conseguiu, do que falhou. O que faz do livro de Murakami um livro que não pretende dar conselhos é que, colocando o leitor no esforço da leitura, normaliza a falha, o não conseguir, o tentar novamente como modus operandi – da corrida, da leitura e, por que não, da escrita.

Ao longo do livro eu achei que ia falhar em concluí-lo. E Murakami me compreenderia por isso. Precisei retomar algumas vezes e cheguei ao final. Para alguém como eu, que precisa retomar uma vida saudável e a toxina de escrever romances, valeu a pena.

Leia Murakami. É uma maratona que vale a pena.


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