Alberto Hércules
04 setembro 2026
LIVROS
28 agosto 2026
Dori Caymmi e esperança
“Olha, quando chegar ‘Porto’ e ‘Alegre menina’, você
já considerem que é o bis porque minha capacidade de locomoção está um pouco prejudicada”,
ele disse no meio do show, bem ao estilo direto e objetivo da família. Família,
aliás, está no título da série de quatro shows que Dori Caymmi e seu histórico
bigode fizeram no projeto Terças no Ipanema.
“Por causa desses shows aqui no Rio estou me sentindo
um ‘star’”, disse ele ao teatro lotado. Lotado de gente que, como ouvi na fila,
estava indo ver um mito. Um mito de 82 anos, quase 83, cuja mão esquerda estava
“gelada”, como definiu, que não tocou violão durante a execução de “Desenredo” “para
não fazer merda”, como sinceramente admitiu. Um mito sobreposto ao palco com
toda a força de sua história.
E foi de lá, do palco e da história, que Dori Caymmi
mostrou mesmo que estava “Em Família”. Contou histórias do pai, Dorival, da
mãe, Stella, e dos irmãos, Nada e Danilo. Encarnou o espírito sincero e à
vontade que é marca da família Caymmi e divertiu a todos com a verborragia tão
potente quanto sua voz. (Em tempo: se você nunca ouviu nenhum Caymmi, comece
por alguma gravação de show da família, feche os olhos e ouça as vozes).
Eu precisei fechar os olhos várias vezes. Uma para
ouvir com mais apuro o bigodão cantar “Velho piano”, outras porque eles estavam
molhados e ardendo enquanto ouvia “Resposta ao tempo” e “Andança”, clássicos
máximos dos irmãos. Difícil mesmo foi “João Valentão” e a letra que Dori mudou
para “E assim adormece meu velho / Que nunca precisa dormir pra sonhar”. Não
sei se foi a lembrança do meu velho, que também adormece, ou a voz, ou o
violão, ou qualquer outra coisa inexplicável da arte: o fato é que saí desidratado.
Isso não se deve, claro, a pouca coisa: naquele palco
foram executadas canções como “Desenredo”, “Porto”, “Alegre menina”, “Delicadeza”
e “Rio amazonas”. As lágrimas, no entanto, também foram de rir nas partes em
que Dori fez comentários sobre certos políticos com palavrões tão imponentes
como seu bigode. “Estou falando essas coisas, com essa liberdade, porque amanhã
faço 83 anos”. E antes do número final, o clássico parabéns, as palmas, o bolo
simbólico. E de repente, quase sem sentir o tempo passar, aquelas quase duas
horas foram encerradas com a “Canção da partida”, do Caymmi pai, e Dori, com
ajuda, levantou-se para se despedir do público e do show, último da série.
Na porta do teatro, enquanto esperava o carro de
aplicativo, um velhinho chorava, acompanhado da esposa. Trocamos um olhar, um
sorriso e eu compreendi: só a música e a só a música de um mito pode unir
pessoas de gerações e classes sociais tão diferentes. Eu entrei no carro e
voltei para tão, tão distante pensando nisso: o show de Dori, de Dori e sua
família, de Dori e sua história, são como aquele verso de uma canção sua: “O
bem que uma esperança traz”. Eu vivenciei – e por isso chorei – quase duas
horas de bem e de esperança.
22 agosto 2026
Apologia do botequim
Engana-se quem pensa que não existe diferença entre
bar e botequim. As diferenças já começam etimologicamente: enquanto “bar” vem
do inglês bar, que significa “barra” ou “obstáculo”, o termo “botequim” vem
do grego apothéke, que quer dizer “depósito”, meio aparentada da palavra
“botica”, nome antigo de farmácia. Há uma diferença fundamental entre obstáculo
e farmácia, não?
Mas não acaba aí. O que distingue um botequim de um
bar é sobretudo a originalidade: enquanto o bar busca atender as demandas da
moda e da indústria, buscando cada vez mais ser “moderninho”, o botequim
conserva a aparência e o ritmo lento, profundo e necessário de tempos
imemoriais.
E há mais. É só no botequim que as mesas são do
tamanho de mesas e congregam em torno de si pessoas sentadas – a única posição
possível para quem quer, por algum tempo, esquecer que existem relógio,
trânsito e extrema direita; para quem quer conversar com o outro como nos
tempos imemoriais, sem a mediação do celular. Para essas pessoas, só uma
cadeira e uma mesa tradicionais, de ferro ou de plástico, restando a abominação
para as mesas altas que nos fazem ficar de pé, torres de ignorância e de
separação.
A conversa, aliás, é o cerne, a razão de ser do botequim.
É para a conversa e em tono da conversa que o botequim existe. Por isso esse quase
templo realiza um feito que nenhuma revolução conseguiu: é o único lugar em que
as classes sociais não entram, em que as armas são depostas, em que só há uma
única e encardida bandeira: a da igualdade.
Por se constituir em torno do diálogo – ainda que
molhado e embargado –, o botequim é o único lugar do mundo em que a boa música
pode não ser ouvida, pode servir de pano de fundo para a verdadeira celebração
que acontece ali: a arte do encontro em meio a tanto desencontro pela vida,
como diria o Vinicius, autor em estado de botequim.
Entretanto, como é fácil concluir, ninguém vai ao
botequim apenas para conversar, mas também para comer e beber, ou mais
precisamente para beber e comer, porque até a sintaxe do botequim é única.
Considerando esse fato, a temperatura é sempre mais importante que a estética –
o gelado ao que é de gelado, o quente ao que é de quente – e as opções
limitadas liberam mais tempo para o ato de parlar, além de nomes genuinamente
brasileiros, de preferência no diminutivo – longa vida aos nossos caldos de
quenga e bolinhos.
Mais não é necessário dizer. Só a etimologia bastava.
O botequim é cura. O botequim é o microcosmo de um mundo que é forçado a deixar
de existir, mas que resiste nesse espaço que nos faz mais brasileiros.
14 agosto 2026
Uma pergunta
Escrever é diferente de escrever. E espanta o fato de
que no maravilhoso e distópico século XXI, em que máquinas já pensam e
enfileiram palavras por nós, um ser humano ainda sente numa cadeira – ou que
fique em pé mesmo, como Hemingway – e escreva, enfileire palavras num papel
físico ou virtual, se disponha a organizar pensamentos, disciplinar ideias,
compor distopias ainda mais absurdas que as nossas.
Ferreira Gullar disse que o Eliot disse que escrever
é fugir da emoção. Considerando que não é por profissão, por dinheiro ou
imposição, se um ser humano desse planetinha tão simpático senta para escrever
– ou o faz em pé mesmo – pode estar fugindo ou domesticando sua emoção para
melhor conviver com ela.
Fernando Sabino define como um ato extremamente
solitário. E escritor, sozinho, é feito um demônio: ama apenas a si mesmo.
Gosto da metáfora, embora eu ache que seja o contrário: o dilema do escritor é
querer sair de si mesmo, ser outro(s), em outras terras, outros tempos, outros
outros. A alteridade é o paradoxo do ser que, sozinho, escreve: só é possível
alcançar o outro por meio de papel e palavras.
Eu me pus a pensar sobre essas platitudes quando,
hoje, me perguntaram se eu escrevia poemas. E gostei de lembrar do tempo em que
os escrevia e, pior, acreditava neles. Acreditava tanto que os dividia em
livros, cujos títulos eu muito elaborava, e quando alcançavam várias folhas
manuscritas, o suficiente para um magro volume, eu me sentia Vinicius de
Moraes.
Muitos anos depois, lendo a biografia de Vinicius,
descobri que ele também tinha esses arroubos, escrevia poemas aos quais
atribuía enorme importância e chegou a organizar um volume com as suas poesias
completas. Embora houvesse nessa descoberta um pequeno e humorístico lastro de
semelhança, há só uma e colossal diferença: ele era Vinicius de Moraes.
Como eu não sou, a poesia abriu as portas do mundo da
escrita para mim, mas logo foi embora, me inundando, mansamente, com a certeza de
que poetas não são ordinários.
Mas eu sou. Tanto que sigo à risca o estereótipo:
escrevo em minha mesa, à mão, no silêncio das oito horas da noite, numa cidade
desimportante de um país tropical da América Latina, depois de um dia de
trabalho, de pagar contas, de agendar com a oficina o reparo do carro, depois
de evitar discutir política, depois de domesticar e subjugar a paixão.
Num mundo em que tudo passou a ser “hiperfoco”, eu
escrevo por isso, pelo vocabulário que está deixando de existir, mas que só ele
consegue dar conta de justificar esse feito: interesse, curiosidade,
necessidade, paixão.
23 julho 2026
O tempo das palavras
As palavras têm um tempo. Como no Eclesiastes: tempo
de nascer e tempo de morrer, tempo de calar e tempo de falar, tempo de guerra e
tempo de paz. Em tempos de tantos juízes e tribunais autoproclamados, perdeu-se
o direito de dizer bobagens: dependendo de quem se é, essas bobagens são
amplificadas, jogadas aos quatro cantos do algoritmo e as sentenças se sucedem,
implacáveis, sem retorno, sem desculpas.
João Bosco é o mais novo exemplo. Falou o que não
devia ou falou da forma que não devia, e suas palavras reverberaram nos
tribunais mais exaltados dos mais impolutos juízes, detentores da moral e da
virtude mais inefáveis. Gol anulado, samba dele e de Aldir Blanc, fez o artista
conhecer o cancelamento que seu filho, Francisco Bosco, conhece bem.
Em termos de música popular dos nossos octogenários a polêmica não é nova. O outro Francisco, o Buarque, já havia sido bastante cancelado nos dois lados: pelo romantismo “antiquado” de Tua cantiga e mais ainda quando declarou que não cantaria mais Com açúcar, com afeto – canção que retrata a submissão da mulher, feita a pedido de uma outra mulher nada submissa: Nara Leão.
As palavras têm um tempo. E Bosco pai parece ter
esquecido disso e ficou à vontade demais em frente às câmeras. Ele tem razão,
em parte. As canções simplesmente não deixam de existir e podem, sim, ser
crônicas de um tempo que felizmente, hoje, pode ser debatido, questionado e
criticado. Aliás, uma boa canção é isso: provocadora de debates, retrato de um
tempo. E é possível defender um ponto de vista sem ofender a sensibilidade de ninguém,
sem patologizar o oponente de ideias.
Acredito, sinceramente, que ainda que João tivesse usado
palavras mais conciliadoras, cairia nos tribunais da internet. E o meu ponto é
justamente esse: é possível discordar e criticar, por mais idiota que se ache o
outro lado, sem chamar de idiota (a palavra ainda flutua na minha cabeça por
culpa do Dostoievski que acabei de ler hoje).
As palavras têm um tempo. Quando perdem a validade,
se tornam crônica. Quando bem utilizadas, se tornam argumento. Quando revestidas
de ódio e bílis, se tornam nada.
03 julho 2026
A festa e o casmurro
Há festa na cidade. Me disseram que a gente devia
ficar feliz: a maior de todos os tempos e etc. Eu tentei ficar feliz, mas
infelizmente tive um acesso de tosse devido à poeira, além de os artistas contratados
para os shows não terem sido escolhidos com base na diversidade da música
brasileira, mas apenas a modinha promovida pela indústria.
Me disseram que a gente devia ficar feliz: são cinco
dias de diversão. Mas o trânsito não deixa: os dois minutos que levo, de carro,
da minha casa ao centro, viraram vinte, as ruas são fechadas ou assaltadas
pelos coletes verdes que cobram vinte, trinta reais para deixar estacionar na
via pública, isso sem falar nos pobres portões de garagem obstruídos por gente
que tem o próprio umbigo como centro do universo.
Me disseram que a gente devia ficar feliz: ano
passado não teve festa, então é pra comemorar. Acontece que ano passado também
não teve teatro, não teve um grande evento dedicado à literatura, não teve show
de artista não industrial, não teve um documentário no nosso cinema. (Esse ano
e antes do ano passado, e antes de antes do ano passado também não teve teatro).
Me disseram que a gente devia ter um olhar otimista:
eleições cheias de fake News se aproximam, o super el niño se aproxima, o
laranjão quer subjugar a América Latina, mas temos festa na cidade. Eu tento,
juro que tento: penso nas exposições e no que de cultural pode ter na festa. O
problema é a poeira até chegar lá: o pó não faz feliz a minha rinite alérgica e
meu tênis preto.
Me deram motivos pelos quais a gente devia ficar
feliz. E eu tentei. Mas tenho amigos cujas vidas profissionais estão sendo
terrivelmente prejudicadas pela alegre festa que segue madrugada adentro
projetando as vozes dos cantores industriais.
Tudo somado, me sinto um casmurro: há festa na
cidade, mas é uma festa que não me faz feliz. Há festa na cidade, mas vejo
poucos motivos pra cidade festejar. Há festa na cidade, mas que serve de
anestesia.
Foi mal aí pela “bad vibes”, por “pesar o clima”,
pelo pessimismo da casmurrice. Ao fim e ao cabo desejo que a terra lhes seja
leve. Vamos à história triste dos subúrbios.
25 junho 2026
O ET e o idiota
Desde o ET de Varginha que acho o brasileiro com um
certo fetiche por seres extraterrestres. No ano em que se completam trinta anos
do suposto encontro com o ET mineiro – que, como bom mineiro, evitou aparecer,
desconversou e sumiu – um outro caso agora toma conta do noticiário
tradicional, saindo do mundo etéreo das redes sociais: um influenciador (?) do
Paraná supostamente filmou um OVNI (O fláVio bolsoNaro Interditou-se) ou algo
parecido.
Fetiche. E como o do brasileiro também se estende às
questões inúteis, pelo que andei vendo aqui e ali, agora há uma verdadeira
cruzada sobre o caso do objeto não identificado – no caso o OVNI, não os outros
70 milhões que o Vorcaro prometeu ao Flávio. Tentam provar que ele mentiu – o influenciador,
o Flávio já é certeza – ele tenta provar que não mentiu, vídeos e mais vídeos
inundam a internet e a inutilidade toma conta de tudo.
“O brasileiro é um feriado”, já disse o Nelson
Rodrigues. Eu acho que o brasileiro é também um fetichista. Tanto, tanto que vai
além do OVNI: perpassa um talento nato que temos para alçar aos holofotes
qualquer um que filme luzes, faça cara de medo e divulgue no mundo etéreo das
redes sociais. O brasileiro, nesse sentido, é feriado, fetichista e cansativo
(não achei outra palavra com f).
Estamos num ano muito atribulado, gente. É Copa, é
Rock in Rio, é eleição, é vazamento do celular do Vorcaro. Não precisamos de OVNIS,
precisamos de idiotas.
Explico: estou lendo, pela primeira vez, “O idiota”,
de Dostoiévski. É um romance que conta uma história antiga e sempre inédita: a
de um homem puro num mundo corrompido. E fatalmente a pergunta surge, impávida
colosso: vale a pena ser puro e honesto num mundo de OVNIS sob suspeita e de
134 milhões para financiar um filme que é propaganda política?
Como ainda não cheguei ao final do romance, não sei a
resposta. A única coisa a fazer, então, é terminar de ler o romance. E enquanto
isso não acontece, há, eventualmente, outra coisa a se fazer: venha, me olhe
nos olhos, me dê sua mão, sente aqui comigo. Estamos numa América Latina ameaçada
e coagida pelo amigo do Epstein, estamos na República cuja elite estava na
carteira de um banqueiro, estamos sendo controlados e manipulados por empresas
de celerados – um deles, inclusive, que pensou que poderia ir para Marte, veja
só...
Sentou? Está confortável? Agora olhe pro céu: vê
algum OVNI? Eu não. Mas vejo uma epifania, uma revelação, uma imagem difusa que
coloca Dostoievski numa nave brilhando e emitindo um sinal que apenas comecei a
decifrar: somos todos idiotas.
24 abril 2026
Notícia de inventário
Me dou conta – sim, com pronome oblíquo no início da
frase, mesmo – de que posso dizer que tenho um livro publicado. Se intitula Em
boa companhia, reúne poemas meus e de dois queridos amigos, saiu numa
tiragem considerável de quinze ou vinte exemplares e foi sequestrado na Bienal
do Livro de 2003.
A história desse sequestro fica para outro texto. Me
dou conta disso porque aproveito o feriado para remexer em papéis guardados,
inventário de mim mesmo, e acho um exemplar do livro que, além de atacar a
rinite, me fez ver que sou desobediente: não obedeci ao conselho de que se deve
rasgar os versos de juventude. Sobretudo de uma juventude tão tenra, como a dos
doze, treze anos. Pelo inventário também me dou conta de que não rasguei nem os
versos, nem o romance.
Desde que me entendo por gente sou um arquivista. E
esse hábito de tudo guardar é que me faz encontrar o menino de quatorze anos
que escreveu, à mão, duzentas e três páginas de um romance policial que imitava
Fernando Sabino e Agatha Christie (a tal da angústia da influência, leiam
sobre). Assim, no feriado de 23 de abril, dia do livro, do choro, de São Jorge
e de São Pixinguinha, confirmo que o inventário permanecerá para sempre na
gaveta – se não rasguei, pelo menos jamais trarei a público esses escritos de
formação.
Eles já cumpriram seu papel. Formaram e deram lugar
aos textos acadêmicos: das tentativas literárias da juventude passei aos
artigos, dissertação e tese do mestrado e do doutorado, e desde então
literatura foi só leitura, não mais produção.
Essas crônicas têm sido um ensaio de retorno, uma
retomada tímida, um teste pra ver se ainda tenho mão. E ao que parece – se é
que algum dia tive alguma –, perdi a mão para poesia, mas a prosa ainda é
tateada. O inventário me mostra isso, me dá sede e vontade de ir além do gênero
curto.
Guardo meus escritos na gaveta que é destino final.
No entanto, como disse o Drummond acerca de seu verso, meus escritos estão “cá
dentro”, inquietos, vivos. Cumpriram sua função de formação e de preparação
para o que viria depois. Um depois que, tardando a chegar, parece que deu seus
primeiros sinais de vida a partir dessa visita de feriado.
16 abril 2026
Pai, moça, feijão
Chego mais cedo do trabalho, vou cozinhar. Como de
costume, Alice lança mão de sua cadeirinha, anuncia que vai me “ajudar” e pega
seus copos de plástico e suas duas colheres para cozinhar algo que até hoje ela
não me disse o que é. Cenário pronto, só falta a trilha sonora, que hoje é o
disco Poeta, moça e violão, registro do show de Clara Nunes, Toquinho e
Vinicius de Moraes no Teatro Castro Alves, na Bahia, em 1973.
A primeira faixa é o poema Pátria Minha,
recitado pela voz quase rouca do poeta. Enquanto Vinicius fala de sua pátria,
Alice esquece dos copos e das colheres para brincar com a seringa do
antibiótico ministrado de doze em doze horas. Alice, que saiu ontem do hospital
depois de longos cinco dias em virtude de um pulmão que ainda está se acertando
com o outono, ignora o poema porque encher e esvaziar a seringa parece bem mais
interessante.
Tão interessante que me desligo do feijão que tempero
para observar seus movimentos, que agora imitam o de uma exigente médica que
aplica injeções na minha mão, barriga e batata da perna. Se eu não finjo dor,
ela briga, então eu finjo – finjo mesmo, porque a alegria daquela mocinha na
cozinha, bem, sorrindo, transborda tal qual a panela tampada do arroz. É uma
alegria tão sincera que nem me desespera o fato de ela estar molhando tudo –
isso sem contar o quarto, que já parece cenário de guerra.
O disco mistura gêneros e compositores, mescla
poemas, poemas musicados, e as três vozes ecoam enquanto o alho dourando do
feijão estala e cheira, enquanto o frango também cheira fritando, enquanto seco
o chão que Alice pretende transformar numa espécie de piscinão de Ramos.
E aí eu entendo. Não é necessário muita coisa. Tenho
pensado muito sobre as coisas e de repente enxergo o sublime na minha cozinha,
com cheiro de alho dourando e uma criança que, liberta da prisão de um
hospital, volta a demonstrar sua urgência de vida com água, grito e sorriso.
Tudo isso, claro, ao som do poeta, da moça e do violão. E eu me sinto
privilegiado nessa quarta-feira à noite, nessa cena improvisada de pai, moça e
feijão.
06 abril 2026
Em torno de Águas de Março
Já é abril, mas é sempre tempo de falar de Águas
de Março, uma das dez melhores canções do século XX segundo o crítico
americano Leonard Feather; o samba mais bonito do mundo, segundo Arthur Nestrovski.
Não me lembro de um março em que a canção não seja citada em meio a uma chuva –
ou, como é mais comum no Rio de Janeiro, tempestade.
Leio por aí que acaba de sair pela Editora 34 um
livro com três ensaios sobre a canção, um deles assinado pelo já citado
Nestrovski. Leio e penso no quanto essa canção, composta em 1971, ainda provoca
reflexões ou inflexões. Não à toa: é uma canção de ruptura, de guinada, de
fratura.
Leio na biografia de Tom, escrita por sua irmã,
Helena Jobim, que a canção nasceu no sítio da família, em Poço Fundo, numa
madrugada, num gesto, com a letra escrita em papel de pão. Tom estava
trabalhando em outra música, Matita Perê, e, cansado do trabalho em
andamento, sentiu “brotar” as águas. Tal como Ari Barroso ao compor Aquarela
do Brasil, foi correndo à família mostrar: “Olha o que eu fiz!”.
Talvez pressentisse que as águas inundariam tudo, que
ficariam mais famosas que sua companheira Matita, que percorreria o
mundo em gravações e idiomas impossíveis de contar – já a ouvi até em hebraico.
Embora a versão clássica seja de 1974, do disco Elis
& Tom, Águas de Março começou sua carreira bem modestamente: Tom
a gravou em 1972 num compacto de duas músicas intitulado Um tom de Tom Jobim
e um tal de João Bosco, no qual o já consagrado Jobim apresentava o
iniciante Bosco, que gravou Agnus Dei em sua faixa. Depois apareceu em
novo arranjo como a segunda faixa do LP Matita Perê, de 1973, até
alcançar o sublime no badalado e documento disco com Elis Regina – com direito
ao pio do Matita Perê na introdução.
Mas eu falava do livro Águas de Março – sobre a
canção de Tom Jobim. Como reúne gente da pesada, não tenho dúvida sobre a qualidade
e com certeza vou lê-lo. Queria só registrar que o livro é só mais um pau ou
pedra que marca um caminho ainda muito, muito longe do fim.
Acho que Tom ficaria feliz de saber que muitos,
muitos brasileiros lembram de seu refrão quando veem a natureza em plena
potência. E quando uma canção se faz lembrar assim, na memória afetiva de um
povo, é porque repete o que seu próprio refrão diz: é promessa de vida em cada
coração.
14 março 2026
Gosto de sonho
Você tem um sonho. Você acorda, mas ainda dentro do
sonho. E eu digo dentro não de maneira metafísica, mas psicossomática: o sonho
deixa gosto, enche o quarto de cheiro. Você já acordou com gosto de sonho?
Assim que acordei hoje. Fazia tempo já.
Aí você faz o café, lava o rosto. Abre a janela e,
como ainda são cinco da manhã, não sente ou vê o sol, mas pelo menos parou de
chover. Aí você pega a xícara de café, senta no sofá, acende a luz, tenta ler,
mas os olhos ainda estão pesados. Então você toma o café e, contrário à sua
expectativa, ele realça o sabor do sonho. Os olhos, assim, despertam: você
lembra do sonho, agora com a boca quente e o estímulo da cafeína.
Agora, talvez, você já esteja preparado para o livro.
É do Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas. Você e ele – o livro, não o
Rubem – ainda estão sem intimidade, é o segundo dia de vocês dois juntos. (Aqui
caberia um interlúdio sobre como o livro físico é importante para esse
relacionamento de toque com o leitor, lembrando um namoro, com certa timidez no
início e a intimidade crescente com o tempo, mas deixa pra lá).
Não, você não está preparado para o livro. As
palavras dançam um pouco, as frases não formam sinapses. Você pode pensar,
então, que talvez seja o sono antes das seis da manhã, pode sorver mais dois ou
três goles de café e ainda que tome um banho frio é possível que não ajude
muito: o problema não é o sono, o Rubem ou o livro, é o gosto.
O paladar humano é limitado a doce, salgado, azedo,
amargo e umami. Assim aprendemos na escola. Mas é só depois de uma noite
agitada, de “sonhos intranquilos”, como definiria o Kafka, é que você aprende
que o paladar de sonho também marca sensações.
Aí, então, você desiste do livro. Levanta, come pão,
tem vontade de beber vinho, mas como é inapropriado para as seis da manhã, toma
banho e vai cuidar da vida. E como Guimarães Rosa está certo, “o correr da vida
embrulha tudo”. E ao cuidar da vida você percebe que a vida não é sonho, mas
que pode ter seu gosto.
LIVROS
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