Escrever é diferente de escrever. E espanta o fato de
que no maravilhoso e distópico século XXI, em que máquinas já pensam e
enfileiram palavras por nós, um ser humano ainda sente numa cadeira – ou que
fique em pé mesmo, como Hemingway – e escreva, enfileire palavras num papel
físico ou virtual, se disponha a organizar pensamentos, disciplinar ideias,
compor distopias ainda mais absurdas que as nossas.
Ferreira Gullar disse que o Eliot disse que escrever
é fugir da emoção. Considerando que não é por profissão, por dinheiro ou
imposição, se um ser humano desse planetinha tão simpático senta para escrever
– ou o faz em pé mesmo – pode estar fugindo ou domesticando sua emoção para
melhor conviver com ela.
Fernando Sabino define como um ato extremamente
solitário. E escritor, sozinho, é feito um demônio: ama apenas a si mesmo.
Gosto da metáfora, embora eu ache que seja o contrário: o dilema do escritor é
querer sair de si mesmo, ser outro(s), em outras terras, outros tempos, outros
outros. A alteridade é o paradoxo do ser que, sozinho, escreve: só é possível
alcançar o outro por meio de papel e palavras.
Eu me pus a pensar sobre essas platitudes quando,
hoje, me perguntaram se eu escrevia poemas. E gostei de lembrar do tempo em que
os escrevia e, pior, acreditava neles. Acreditava tanto que os dividia em
livros, cujos títulos eu muito elaborava, e quando alcançavam várias folhas
manuscritas, o suficiente para um magro volume, eu me sentia Vinicius de
Moraes.
Muitos anos depois, lendo a biografia de Vinicius,
descobri que ele também tinha esses arroubos, escrevia poemas aos quais
atribuía enorme importância e chegou a organizar um volume com as suas poesias
completas. Embora houvesse nessa descoberta um pequeno e humorístico lastro de
semelhança, há só uma e colossal diferença: ele era Vinicius de Moraes.
Como eu não sou, a poesia abriu as portas do mundo da
escrita para mim, mas logo foi embora, me inundando, mansamente, com a certeza de
que poetas não são ordinários.
Mas eu sou. Tanto que sigo à risca o estereótipo:
escrevo em minha mesa, à mão, no silêncio das oito horas da noite, numa cidade
desimportante de um país tropical da América Latina, depois de um dia de
trabalho, de pagar contas, de agendar com a oficina o reparo do carro, depois
de evitar discutir política, depois de domesticar e subjugar a paixão.
Num mundo em que tudo passou a ser “hiperfoco”, eu
escrevo por isso, pelo vocabulário que está deixando de existir, mas que só ele
consegue dar conta de justificar esse feito: interesse, curiosidade,
necessidade, paixão.










