Quem lembra das aulas sobre Romantismo no ensino
médio, possivelmente deve, vagamente, pensar na Canção do Exílio, de
Gonçalves Dias, e em alguma descrição exagerada e açucarada de José de Alencar.
Nada que falte à montanha que escalei há pouco tempo: Os miseráveis, do
francês Victor Hugo, em edição da Penguin Companhia das Letras, com suas 1.890
páginas divididas em dois volumes.
O romance, publicado pela primeira vez em 1862, narra
a história de Jean Valjean, de Fantine, de Cosette, de Marius, de Javert, de
uma verdadeira compilação de tipos franceses do século XIX, de suas classes
sociais, de seus conflitos morais, de suas misérias e exageros econômicos. Os
miseráveis, que levou dezessete anos para ser escrito, já foi chamado de
“obra mundo” por abarcar o universo francês de sua época sem, claro, perder sua
reverberação universal.
Considerando um livro de mais de cem anos, não há
“spoiler” de nenhuma natureza. Ainda assim, leia sem medo: vou te poupar das
surpresas e reviravoltas do enredo, te contando apenas a espinha dorsal da
história, com alguns poucos comentários para justificar o gênero resenha que
geralmente se atribui a um texto como esse.
Jean Valjean, condenado por roubar pão para alimentar
os sobrinhos famintos, é liberto da prisão depois de 19 anos. Marcado como um
“ex-grilheta”, um ex condenado a trabalhos forçados, não consegue abrigo em
nenhum lugar, mesmo pagando. É acolhido por Dom Bienvenu, um bispo católico
piedoso, que embora roubado pelo recém liberto, o inocenta para a polícia. Essa
atitude de desapego e renúncia muda Jean Valjean para sempre, e o protagonista
reconstrói sua vida tornando-se um homem rico e influente que muda de nome e
esconde seu passado.
O destino dele cruza com o de outra miserável:
Fantine, grávida e abandonada pelo namorado, precisa deixar a filha com o casal
Thernádier e suas filhas, uma família que cada vez mais explora a mãe em nome
do conforto e da saúde da pequena Cosette, na verdade maltratada e explorada
pela família adotiva.
Fantine vai trabalhar na fábrica de Jean Valjean e,
como se torna comum no romance (veja que não há nada de novo debaixo do céu),
quando a vida da personagem principia a melhorar, a marreta do destino entra em
ação: uma funcionária da fábrica, ao descobrir o passado de Fantine, consegue
sua demissão. Tem início, então, sua degradação física e econômica, a ponto de
precisar cortar e vender seus cabelos (e outras partes de seu corpo) para
mandar dinheiro para a filha – dinheiro que cada vez mais se torna urgente e em
maior quantidade.
Mais não digo porque suprimiria parte das surpresas e
reviravoltas da história. Só registro que vale a pena porque Jena Valjean vai
tentar corrigir a injustiça contra Fantine, Cosette vai crescer e seus caminhos
vão se cruzar com os do ex condenado, vai ter romance, aventura, morte e
suspense, todas fórmulas de uma boa história. Assim, vale a pena ainda comentar
dois aspectos do romance: seu vínculo com o real a partir de uma profunda
contextualização histórica e sua técnica narrativa intrigante.
“História” é uma palavra fundamental para Os
miseráveis. O enredo é datado, começa em 1815, percorre fatos históricos
importantes, cita figuras reais da época. É digno de nota, por exemplo, a
descrição excessivamente detalhada da famosa batalha de Waterloo, de 1815, e o
modo como esse fato histórico está atrelado a personagens, constituindo um
ponto chave do enredo.
Além disso, acontecimentos determinantes da narrativa
se dão numa barricada montada durante a Rebelião de junho de 1832, em Paris. É
realmente interessante o modo como a ficção se ancora na realidade ao longo da
leitura, e isso é muito mais fácil de acompanhar na edição da Penguin, recheada
de notas explicativas.
Nesse primeiro aspecto é que reside um dos choques do
Romantismo: há um compromisso explícito com a realidade histórica, que é
romanceada no sentindo invulgar do termo, com uma precisão que, pretendendo se
fazer registro histórico, alcança a mais alta condição literária/ficcional.
Tudo que se passa na barricada é um exemplo disso: Gavroche parece não um
personagem, mas um ente plenamente possível num livro de ciência histórica.
Tudo que se fala sobre o catolicismo também: há uma discussão memorável entre o
bispo e um revolucionário à beira da morte.
O segundo choque do Romantismo se dá numa narração
que, por óbvio, idealiza o amor e a relação amorosa, descreve personalidades
quase deificadas de tão heróicas, mas também descreve com chocante realidade
situações humilhantes e abjetas a que alguns personagens são sujeitos.
A narração, que se pretende “imparcial”, é por vezes
invadida não por um narrador personagem, mas pelo próprio Victor Hugo –
acabando com os alicerces do que você também aprendeu na escola sobre a
diferença entre narrador e autor. Ele declara ter visitado o lugar da batalha
de Waterloo e em alguns trechos registra que “o autor deste livro” viu, ouviu,
não queria dizer... É uma narração que mescla aspectos românticos e realistas
na técnica e no enredo, muito também pelo compromisso parcial com a história
com H maiúsculo.
O romance é atravessado por trechos que poderiam ser
classificados como registros históricos e ensaísticos. Há uma longa digressão
sobre os esgotos de Paris, por exemplo, desde
a sua construção até suas características, antes de uma cena crucial que
se passa ali. Outro exemplo é uma longa análise dos conventos antes de um ser
cenário importante do enredo.
Por tudo isso, não é um monte, é uma montanha: a
escalada é difícil, leva tempo, é um desafio físico e intelectual, mas é
preciso, porque a vista de cima vale a pena. Então, para encerrar, nada melhor
que citar o próprio Victor Hugo: “... enquanto sobre a terra houver ignorância
e miséria, livros como este não serão inúteis.”.









