10 janeiro 2026

“Os miseráveis”, de Victor Hugo: o Romantismo em choque

 

Quem lembra das aulas sobre Romantismo no ensino médio, possivelmente deve, vagamente, pensar na Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, e em alguma descrição exagerada e açucarada de José de Alencar. Nada que falte à montanha que escalei há pouco tempo: Os miseráveis, do francês Victor Hugo, em edição da Penguin Companhia das Letras, com suas 1.890 páginas divididas em dois volumes.

O romance, publicado pela primeira vez em 1862, narra a história de Jean Valjean, de Fantine, de Cosette, de Marius, de Javert, de uma verdadeira compilação de tipos franceses do século XIX, de suas classes sociais, de seus conflitos morais, de suas misérias e exageros econômicos. Os miseráveis, que levou dezessete anos para ser escrito, já foi chamado de “obra mundo” por abarcar o universo francês de sua época sem, claro, perder sua reverberação universal.

Considerando um livro de mais de cem anos, não há “spoiler” de nenhuma natureza. Ainda assim, leia sem medo: vou te poupar das surpresas e reviravoltas do enredo, te contando apenas a espinha dorsal da história, com alguns poucos comentários para justificar o gênero resenha que geralmente se atribui a um texto como esse.

Jean Valjean, condenado por roubar pão para alimentar os sobrinhos famintos, é liberto da prisão depois de 19 anos. Marcado como um “ex-grilheta”, um ex condenado a trabalhos forçados, não consegue abrigo em nenhum lugar, mesmo pagando. É acolhido por Dom Bienvenu, um bispo católico piedoso, que embora roubado pelo recém liberto, o inocenta para a polícia. Essa atitude de desapego e renúncia muda Jean Valjean para sempre, e o protagonista reconstrói sua vida tornando-se um homem rico e influente que muda de nome e esconde seu passado.

O destino dele cruza com o de outra miserável: Fantine, grávida e abandonada pelo namorado, precisa deixar a filha com o casal Thernádier e suas filhas, uma família que cada vez mais explora a mãe em nome do conforto e da saúde da pequena Cosette, na verdade maltratada e explorada pela família adotiva.

Fantine vai trabalhar na fábrica de Jean Valjean e, como se torna comum no romance (veja que não há nada de novo debaixo do céu), quando a vida da personagem principia a melhorar, a marreta do destino entra em ação: uma funcionária da fábrica, ao descobrir o passado de Fantine, consegue sua demissão. Tem início, então, sua degradação física e econômica, a ponto de precisar cortar e vender seus cabelos (e outras partes de seu corpo) para mandar dinheiro para a filha – dinheiro que cada vez mais se torna urgente e em maior quantidade.

Mais não digo porque suprimiria parte das surpresas e reviravoltas da história. Só registro que vale a pena porque Jena Valjean vai tentar corrigir a injustiça contra Fantine, Cosette vai crescer e seus caminhos vão se cruzar com os do ex condenado, vai ter romance, aventura, morte e suspense, todas fórmulas de uma boa história. Assim, vale a pena ainda comentar dois aspectos do romance: seu vínculo com o real a partir de uma profunda contextualização histórica e sua técnica narrativa intrigante.

“História” é uma palavra fundamental para Os miseráveis. O enredo é datado, começa em 1815, percorre fatos históricos importantes, cita figuras reais da época. É digno de nota, por exemplo, a descrição excessivamente detalhada da famosa batalha de Waterloo, de 1815, e o modo como esse fato histórico está atrelado a personagens, constituindo um ponto chave do enredo.

Além disso, acontecimentos determinantes da narrativa se dão numa barricada montada durante a Rebelião de junho de 1832, em Paris. É realmente interessante o modo como a ficção se ancora na realidade ao longo da leitura, e isso é muito mais fácil de acompanhar na edição da Penguin, recheada de notas explicativas.

Nesse primeiro aspecto é que reside um dos choques do Romantismo: há um compromisso explícito com a realidade histórica, que é romanceada no sentindo invulgar do termo, com uma precisão que, pretendendo se fazer registro histórico, alcança a mais alta condição literária/ficcional. Tudo que se passa na barricada é um exemplo disso: Gavroche parece não um personagem, mas um ente plenamente possível num livro de ciência histórica. Tudo que se fala sobre o catolicismo também: há uma discussão memorável entre o bispo e um revolucionário à beira da morte.

O segundo choque do Romantismo se dá numa narração que, por óbvio, idealiza o amor e a relação amorosa, descreve personalidades quase deificadas de tão heróicas, mas também descreve com chocante realidade situações humilhantes e abjetas a que alguns personagens são sujeitos.

A narração, que se pretende “imparcial”, é por vezes invadida não por um narrador personagem, mas pelo próprio Victor Hugo – acabando com os alicerces do que você também aprendeu na escola sobre a diferença entre narrador e autor. Ele declara ter visitado o lugar da batalha de Waterloo e em alguns trechos registra que “o autor deste livro” viu, ouviu, não queria dizer... É uma narração que mescla aspectos românticos e realistas na técnica e no enredo, muito também pelo compromisso parcial com a história com H maiúsculo.

O romance é atravessado por trechos que poderiam ser classificados como registros históricos e ensaísticos. Há uma longa digressão sobre os esgotos de Paris, por exemplo, desde  a sua construção até suas características, antes de uma cena crucial que se passa ali. Outro exemplo é uma longa análise dos conventos antes de um ser cenário importante do enredo.

Por tudo isso, não é um monte, é uma montanha: a escalada é difícil, leva tempo, é um desafio físico e intelectual, mas é preciso, porque a vista de cima vale a pena. Então, para encerrar, nada melhor que citar o próprio Victor Hugo: “... enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis.”.


30 dezembro 2025

No dia de ano bom

 


Confesso que sempre tive um pouquinho de aversão à palavra “réveillon”, principalmente depois que ouvi a primeira vez sua equivalente e tão brasileira “dia de ano bom”. Em que pese a infame rima, a segunda expressão é muito melhor que a primeira em prosa e prosódia.

Preferências linguísticas à parte, este texto é só para encerrar 2025 e iniciar 2026 sem essa coisa de pé direito, mas de forma inteira, sem estilhaços. Assim, como não sou uma pessoa apta a dar conselhos para ninguém, limito-me a desejar.

E o meu primeiro desejo é que você seja. Seja mesmo, por inteiro, em tudo que viver. E que esse tudo não seja “instagramável” nem tenha como principal finalidade um desejo burro de fotografar, editar e postar. Esses verbos, nesse tempo, têm sido contra a vida e contra os vínculos, desejo que você os abandone se hoje te controlam.

Desejo também que você (re)encontre graça em ler. Para além de todo aquele blábláblá do quanto faz bem, ler é uma oportunidade cada vez mais rara de estar sozinho, em silêncio, desconectado, em rebelião contra o grande controle que as empresas têm do nosso tempo, da nossa atenção, dos nossos desejos. Para isso é fundamental que você leia livros físicos, que você sinta o cheiro do papel, o peso do livro, o virar e o rabiscar de páginas de verdade.

E, claro, atrelado ao que acabei de dizer, desejo que você escreva à mão, em papel, estudando ou registrando o caos da sua cabeça, mas escreva. Recomendo caneta tinteiro – ganhei uma de presente de uma querida colega e ela, a caneta tinteiro, que passa a dar forma a essas palavras, tem um outro toque, um outro visual, um outro compasso de espera.

Desejo também muito: Chico Buarque, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Teresa Cristina, Roberta Sá, Djavan, Nilze Carvalho, Carminho, Mônica Salmaso, Francis Hime, Ivan Lins, Milton Nascimento. Só para falar dos vivos. Se eu for falar dos mortos, precisaríamos de uma infinidade de anos novos.

Desejo, como não podia deixar de ser, que em 2026 você não vote em golpistas, fascistas, autoritários, truculentos e combinadores de política e religião. Só com isso já se inclui uma sociedade e um país melhor na lista de desejos.

E para que esses desejos não se acumulem demais – afinal, você também precisa desejar – desejo, nesse dia de ano bom, que a vida seja leve, que o clima nos ajude, que não falte o pão, a prosa, a poesia, o abraço e o afeto.


09 novembro 2025

Escrever à mão

 


Falei outro dia sobre retornos e citei o escrever à mão como um deles. Recebi alguns “poréms” no sentido de “Como assim? Escrevo à mão na escola, no trabalho...”. Há controvérsias. Escreve-se à mão na escola quase sempre apenas como exercício de cópia ou nas avaliações, quase nunca para sistematizar, por conta própria, informações enquanto se assiste a uma aula ou para resumir um conteúdo, ou para acompanhar a leitura de um texto.

José Miguel Wisnik sintetiza bem essa impressão ao comentar, num programa no Youtube, que há muito tempo não escrevia à mão e acha meio absurdo alguém fazer isso, escrever um livro ou um ensaio à mão quando a tela do computador é um recurso que mantém um texto sempre limpo e editável, sempre em sua melhor versão.

Acho que abandonar o hábito de escrever à mão tem muito a ver com essa disposição sempre limpa e editável que o digital exige de nós: precisamos estar sempre prontos a refazer e esconder os riscados, os erros, a letra feia, a frase torta, a palavra ou parágrafo abandonados.

Tudo que se revela quando escrevemos à mão. E essas revelações dão a noção de uma espécie de “laboratório” da escrita, uma ideia de bastidores que a mim, pelo menos, agrada muito: tenho sempre muita curiosidade em ver, na intimidade de um escritor, a primeira opção por uma palavra que foi abandonada; um parágrafo inteiro que, em formação, se mostrava promissor e que foi riscado; os esboços que prepararam a versão final, esses esboços que são a gênese de uma criação imaginativa ou técnica.

Parte disso o digital nos tomou. Escrever à mão é como assistir a um DVD, ouvir um CD, memorizar números de telefone: uma necessidade até bem pouco tempo atrás, hoje atitude saudosista, uma vez que os substitutos digitais são mais ágeis, limpos, editáveis – dando uma ideia de incrível eficiência.

Não meu caso, pelo menos, que agora, depois de anos dedicado à vida acadêmica em mestrado e doutorado repletos dessa escrita limpa e editável, resolvi ocupar o glorioso cargo de escritor não lido. Quando ressuscitei esse blog para publicar esses textos – todos escritos à mão –, me veio a vontade de voltar a escrever ficção. Sim, um dia já escrevi ficção e poesia, até os vinte e dois anos, mais ou menos, tudo devidamente enterrado numa gaveta trancada à chave – arquivista que sou, tenho pena de queimar.

Mas voltando ao ponto: ressuscitada a vontade de escrever literatura e não sobre literatura, mais velho e mais sem vergonha, me veio a necessidade de voltar a escrever à mão. Comprei cadernos, cadernetas, canetas azul, preta e vermelha, e comecei por aqui, escrevendo crônicas numa plataforma morta. Já rascunhei o esqueleto da narrativa numa caderneta e já separei o caderno.

Agora só me falta o tempo. Ou a coragem. Como todo trabalho manual, escrever à mão e escrever ficção, depois de muito tempo sem prática, enferruja. É nesse ponto em que estou: tirando a ferrugem. Até agora tem sido bom, tem sido curioso quando um ou outro comenta sobre um texto que saiu de um esforço físico, não só cognitivo.

Fernando Sabino dizia que o mais trágico no trabalho do escritor é que escrever é um ato solitário. Impossível discordar dele. Mas a solidão, acompanhada de uma técnica, no meu caso, imemorial, dói mais devagar.


26 outubro 2025

Estranho

 

N’A Metamorfose, Kafka descreve um sujeito que acorda transformado num inseto “monstruoso”, segundo algumas traduções. O personagem não vive, no choque da constatação, a experiência do estranhamento; pensa que está atrasado para o trabalho, pensa em pragmatismos que no início do século XX já eram imperativos categóricos de uma vida vivida em dias úteis e horário comercial.

Kafka, ele mesmo, um estranho. Um estranho que noivava e desnoivava por cartas, que criava mundos sem saída e sem solução no escuro de seu quarto, entre suas confissões: Kafka produzia ficção no meio de seus diários. Deixou poucos livros concluídos, mandou queimar tudo que escreveu antes de morrer.

Sei que é arriscado trabalhar com o “Se” (só Djavan fez isso muito bem), mas hoje, no intervalo entre as aulas do dia, fiquei pensando em Kafka no nosso mundinho desumanizante, em como descreveria máquinas que pensam e escrevem por nós; em como julgaria nossa necessidade estranha de nos expor, nos mostrar, exibir desde comida a lugares, de uma selfie sem sentido a festas sem sentido.

Tenho a impressão de que Kafka, como seu personagem, não viveria a experiência do estranhamento como choque: perscrutaria as redes sociais com um olhar quase científico, abriria sorrisos irônicos face a nossos textões cheios de certezas absolutas e monopólios da virtude.

Tenho a impressão também de que nós, desumanizados, como que inconscientemente abrimos mão da experiência do choque para normalizar o absurdo sem traumas, para nos adequarmos ao “todo mundo faz” sem nos sentirmos ridículos, para anestesiar o vazio preenchendo-o com time lines infinitas e repletas de falsificações. Ultimamente ando escrevendo muito sobre minhas impressões. Isso é um pouco clichê e desnecessário, eu sei, mas os tempos são tão estranhos que em nossa marcha para o progresso, muitos de nós estão desesperadamente buscando o retorno.

O retorno em experiências. Leio por aí que estamos voltando aos discos de vinil, às máquinas fotográficas analógicas, à escrita à mão. Soa estranho pensar que estamos voltando ao mundo de Kafka porque, tal como Gregor Samsa (o inseto gigante), fomos metamorfoseados em amontoados de dados utilizados por grandes corporações que nos manipulam e vendem. O retorno é uma forma de salvação.

E – ironia das ironias – o saudável é o antigo, o trabalhoso, o analógico: o (im)possível retorno a um tempo em que não éramos obrigados a saber e opinar sobre tudo e que, tornando-nos estranhos, alienados, o saudável é sermos limitados a uma quantidade de canções específicas e prestarmos atenção a todas elas, por exemplo.

Há um trecho n’A Metamorfose que é digno de nota: o grande inseto, ouvindo sua irmã tocar violino, fala por meio do discurso indireto livre algo assim: “Seria ele um animal, já que a música o emocionava tanto?”. Sensação de estranhamento. Fico muito feliz quando consigo questionar se sou mesmo esse consumidor de time line infinita enquanto há música, literatura e tanta coisa, tanta gente pronta a emocionar tanto.

E é uma vitória satisfatória: sou um estranho. Um pouco mais que o normal, talvez. Mas de um estranhamento salpicado de liberdade.

19 outubro 2025

Professorado e quarta de cinzas

 


Sem romantismos para quarta-feira: no dia quinze de outubro o Brasil comemora o dia dos professores, e nos dá até um ponto facultativo de presente. Entretanto, sem romantismos, é preciso dizer, ainda que apontando um sujeito gramatical genérico:  o Brasil torna cada vez mais difícil comemorar o dia dos professores.

Os motivos são múltiplos e conhecidos. Podemos falar de salários, condições de trabalho, adoecimento mental e físico e mais uma miríade de causas. Todas importantes, todas dignas de um debate profundo e sério. Mas o que destaco é outra coisa.

O professorado trabalha com conhecimento. E o conhecimento, como a autoajuda já popularizou, não é a mesma coisa que informação. Então, voltando ao ponto: o professorado trabalha com conhecimento, que diferente da informação, é constituído por meio da reflexão, do diálogo, da pesquisa e da comparação. O conhecimento, na lógica capitalista, é a mercadoria que o professorado tenta vender em sala de aula e falha miseravelmente.

As razões do fracasso são quase sempre atribuídas a nós, o professorado. E como uma boa dose de autocrítica é sempre bem vinda, em parte é nossa culpa, mesmo. Mas uma parte ínfima, muito pequena, e em muitos casos uma culpa que se origina na necessidade de pagar contas cada vez mais caras e que exigem mil escolas e mil aulas por semana.

A principal razão é outra, mais grave, porque genérica; mais preocupante, porque nos damos conta e nada parecemos fazer: nós, como sociedade, estamos cada vez mais refratários ao conhecimento como prática de informação aliada ao diálogo, à reflexão e à pesquisa. E generalizo mais: me refiro à humanidade, bem generalizado mesmo. Eu sei, muitos dirão que uma impressão pessoal não é um argumento válido – e é verdade, digo isso sempre aos meus alunos. No entanto, como este texto não é uma reação do ENEM nem um artigo científico, me dou a licença de registrar aquilo que vejo todos os dias, no cotidiano mais habitual e nas salas de aula: cada vez menos queremos ler, refletir, produzir.

E se nos tornarmos caçadores de culpa, podemos pulverizá-la em celulares, redes sociais, na inteligência artificial, na informação cada vez mais fácil – e por isso mesmo – mais falseada. Estaremos certos se fizermos isso, mas trago mais um todavia: o problema está em nós mesmos.

No anestesiamento a que nos permitimos por causa de tudo que foi mencionado, na promoção dessa paralisação e das facilidades desumanizantes, no cada vez mais comum construir de opiniões abdicando dos fatos. Nesse sentido, os fatos, o observar e analisar dos fatos, o formular de abstrações e teorias, passos iniciais e básicos do conhecimento, são cada vez mais ignorados e delegados a algoritmos.

Sim, há pouco o que comemorar. “E no entanto é preciso cantar”, disse o Vinicius na Marcha da quarta-feira de cinzas. Esse ano o dia dos professores é uma quarta, ponto facultativo no meio da semana, uma quarta de cinzas que se segue ao esgotamento, não à festa.

“Há tão grandes promessas de luz”, diz a mesma canção. É preciso acreditar nisso. É preciso alegrar a cidade. Conhecimento é gerado por dor, mas depois traz alegria. Na quarta de cinzas do professorado, em meio a tantos todavias, penso sempre nos porquês. Os porquês fazem cantar.

10 outubro 2025

Milton e memória

 


Leio nos jornais que Milton Nascimento foi diagnosticado com um tipo de demência de nome complicado que o choque e a tristeza da notícia não deixaram memorizar. Leio também, nas redes sociais do filho, o relato preciso e dolorido de que ele está nos deixando aos poucos, de suas dificuldades para comer e se comunicar.

Leio, leio, leio sobre o assunto até sentir algo que não sei definir bem, mas tem a ver com um certo inconformismo junto a uma tristeza e um adiantado e indevido pesar. Às perguntas que sucedem um diagnóstico trágico, não respondi nada; pensei em enunciá-las aqui, mas não combina com Milton essas indagações filosóficas de tristeza e revolta.

Então troquei o verbo. No lugar de ler, ouvir. Uma das minhas primeiras memórias musicais é de minha mãe cantarolando e me dizendo que amava Travessia. E foi justamente a essa canção que recorri para reafirmar quem é Milton Nascimento e tudo que aquele sorriso de oitenta e dois anos parece querer dizer, mesmo em meio a um diagnóstico cruel: soltar a voz nas estradas, não querer parar, ter muito o que viver.

A limitação física e cognitiva torna-se muito pequena diante de uma boa obra. E isso talvez seja um consolo: por tudo que vai nos legar, o Milton Nascimento que se perpetuará na memória coletiva de seu país e de seu povo é aquele da voz que leva à transcendência, das palavras que levam a um lugar que só se pode acessar por meio do que não é comezinho, não é ordinário, não é cotidiano.

A memória de Milton Nascimento, no fim das contas, talvez tenha de mais valioso exatamente isto: a capacidade de utilizar nosso cotidiano para nos levar além dele mesmo, abrir nossos olhos para enxergar Marias que têm fé na vida, ver o valor de forjar no trigo o milagre do pão.

Em meio ao caos de tudo o que de ruim traz uma notícia como essa, a voz de Milton continua sendo o nosso alento, nossa esperança, nossa dose certa de afeto em meio a máquinas, juros e diagnósticos ruins.

Há muito mais o eu escrever, mas além de eu não conseguir, não é necessário. É preciso, mais do que escrever, viver nossa consternação e lembrar que um grande artista está na sua limitação física e cognitiva mas, paradoxalmente, mais do que nunca na plenitude de sua memória: de tudo fazendo canção, faz resistir na boca da noite um gosto de sol.


03 outubro 2025

O sono e o tempo

 


Em semiótica, a teoria das representações, que estuda os signos em todas as suas formas e manifestações, um símbolo é um signo que se refere ao seu objeto, dentre outras coisas, por meio de uma relação culturalmente estabelecida. Ver um berço virar cama é, independente da relação culturalmente estabelecida, algo que irrompe em símbolo do tempo.

Aprendi que o tempo se mede mais ternamente nos filhos. Ver a minha engatinhar, andar, correr, falar, já era, intrinsecamente, uma sonante medida de tempo, melodiosa mesmo em seus ruídos conhecidos e inusitados, não contabilizados, mas sentidos – de uma forma quase medrosa sentidos.

Pensei muito sobre isso quando vi outra medida de tempo se formar pelas mãos do marceneiro: o berço sobre o qual me debrucei algumas noites para ver se ela respirava, se estava acordando, o quão profundamente dormia, reparar nos traços em que me reconhecia, estranhar aquele fruto da natureza humana a suspender o tempo e criar silêncio enquanto dormia. De repente, esse mesmo berço se transmutou em cama.

A metamorfose, acompanhada discretamente por mim na soleira da porta, revela muito sobre o tempo e sobre o quão desigualmente passa. O tempo, vale lembrar, nas palavras de Caetano, “um senhor tão bonito / como a cara do meu filho”, por meio daquelas madeiras em curiosa combinação me informava que não só a cara da minha filha, bonita sempre, havia mudado, mas também seu sono.

Alguém já havia me falado sobre os discretos abandonos – sim, não há outra palavra – que pais e mães são obrigados a fazer ao longo da vida: o desmame, o primeiro dia de aula, a primeira coleta de sangue para exames... tudo com muito choro. A primeira noite sozinha no quarto, já numa cama, é mais um abandono que se impõe: eu pensava nisso enquanto via aquela cama tomar forma, a empolgação de Alice, os últimos traços de bebê guardados para sempre junto àquelas peças do berço, já não mais necessárias para a cama.

E aí compreendi o gênesis, como tudo tomou forma, como uma nova realidade se fez pelo poder da chave de fenda, do martelo e da palavra. E aí o quarto já não mais o mesmo, a vida se metamorfoseia junto: há um novo símbolo pulsando na casa.

O símbolo do berço transformado em cama: o sono, o tempo e o afeto.


26 setembro 2025

Domingo em Copacabana

 

Não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos. Por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores vãos é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte.

Quero lhe contar como eu vivi e tudo que aconteceu comigo. Atenção, precisa ter olhos pra este sol, para esta escuridão. Tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim um grande amor: mentira. Por isso, cuidado, meu bem, há perigo na esquina. Atenção para as janelas no alto, atenção ao pisar o asfalto, o mangue, atenção para o sangue sobre o chão.

O sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia? Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos... ainda somos os mesmos. Gente jovem reunida na parede da memória: divino maravilhoso.

Enquanto todo mundo espera a cura do mal e a loucura finge que isso é normal, eu finjo ter paciência. Se você vier até onde a gente chegar, numa praça, na beira do mar, o Rio de Janeiro continua lindo, sem fome, sem telefone, no coração do Brasil. O sol é tão bonito, eu vou, nada no bolso ou nas mãos, eu quero seguir vivendo...

Como beber dessa bebida amarga? Quero lançar um grito desumano, que é uma maneira de ser escutado. Por que não? Você me pergunta pela minha paixão, digo que estou encantado como uma nova invenção. Eu vou ficar nesta cidade: cheiro de nova estação.

Já faz tempo, eu vi você na rua: num pedaço de qualquer lugar. E nesse dia branco não apareceu mais ninguém. Ah, coração leviano, não sabe o que fez do meu: este pobre navegante enfrentou a tempestade, foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar.

Se um dia meu coração for consultado, eu quero seguir vivendo, amor. Amanhã vai ser outro dia, eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia. Esse silêncio todo me atordoa, atordoado eu permaneço atento. Se você vier, pro que der e vier: na arquibancada, pra qualquer momento, ver emergir o monstro da lagoa.

Em caras de presidentes, e buzinando a moça e comandando a massa: meu caminho pelo mundo eu mesmo faço. Todo o povo brasileiro, aquele abraço. Pra você que me esqueceu, aquele abraço: apesar de você amanhã há de ser outro dia.

Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. Mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados do centro da cidade. Quando o grito do prazer açoitar o ar, réveillon, até gerar o som como querer Caetanear: o que há de bom. Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos, estamos na luta pra sobreviver.

Um novo tempo. Quiçá, um dia, a fúria desse front. Talvez o mundo não seja pequeno, nem seja a vida um fato consumado: sempre um caminho que se deixa herança. O samba não vai morrer, veja, o dia ainda não raiou. Alô, moça da favela, todo mundo da Portela: quero sua risada mais gostosa, se você vier, eu lhe prometo o sol.

Nossos ídolos ainda são os mesmos, o novo sempre vem. Eu vou. Por que não? Atenção para o samba exaltação, pro palavrão, para a palavra de ordem: anistia é o caralho.


19 setembro 2025

A morte, as datas e a tangerina

 


Há um poema de Ferreira Gullar, O cheiro da tangerina, em que uns versos sempre me inquietaram um pouco: “coisas de bicho / não de plantas / (onde a morte não fede)”. Desde a primeira vez que li, achei assombrosa – e talvez tenha ficado com uma certa inveja – a ideia meio óbvia, meio nova, algo bonita, de que nas plantas a morte não fede.

Até isso, nas plantas, é poético, é bonito, totalmente o contrário de nós. A morte humana fede, entristece, revolta, causa outras mortes, evidencia ou dá origem a um fato histórico. A morte humana, mesmo aquelas anônimas, não passa despercebida nunca: anônimo pode ser o nome, mas não o corpo, não a putrefação, não a necessidade de dar destino à matéria. Nesse sentido, o dessa triste necessidade, é bom a morte humana feder: a despedida do corpo fecha um ciclo, encerra uma história, permite viver um luto que um dia vai acabar.

O problema é uma morte que não fede, uma morte sem corpo, um nome que paira no ar sem um chão ou cinzas em que se apoiar. E nisso a ditadura militar do Brasil (1964 – 1985) e suas irmãs da Argentina e do Chile têm um triste histórico: para ficar apenas em dois exemplos, é preciso sempre lembrar que Zuzu Angel não pôde enterrar seu filho e Eunice Paiva não pôde enterrar seu marido, ambos presos e “desaparecidos” em 1971.

No último sábado, 13/09, os jornais estamparam uma notícia a um só tempo relevante e revoltante: o corpo de Francisco Tenório Jr. foi identificado quase cinquenta anos depois de seu desaparecimento. Ele era pianista e acompanhava Toquinho e Vinicius de Moraes em uma turnê pela Argentina em 1976. Depois de se apresentar no Teatro Gran Rex, em Buenos Aires, saiu do hotel Normandie para comprar cigarros e desapareceu. Segundo o G1, seu corpo foi encontrado em 20 de março de 1976 em um terreno baldio e enterrado como indigente, permanecendo desaparecido e não identificado por quarenta e nove anos.

No livro Vinicius de Moraes: o poeta da paixão – uma biografia, José Castello narra esse desaparecimento e o quanto Vinicius e Toquinho foram em busca de respostas em hospitais, delegacias, embaixadas; o quanto, com o auxílio do próprio Ferreira Gullar, inclusive, àquela época exilado na Argentina, buscaram ajuda até do sobrenatural por meio de uma cartomante quando os meios naturais não deram as respostas devidas.

É notável que essa notícia e esse ato de justiça aconteçam dois dias depois que no Brasil o dia 11 de setembro ganhou um novo fato histórico. É realmente notável que a família de Tenório Jr. possa, enfim, fechar um ciclo e pousar seu nome depois que finalmente sua morte deixou de ser anônima. É mais do que notável, é digno de registro que nosso acerto de contas com um triste passado se dê ao mesmo tempo em que o Brasil faz justiça no presente: na quinta-feira, 11 de setembro, pela primeira vez um ex-presidente da república – e ex-capitão do exército –, três generais e um almirante foram condenados por tentativa de golpe de estado e outros crimes. Criminosos condenados, não cito seus nomes porque já não importam mais para a história do Brasil.

O de Francisco Tenório Jr., sim.

12 setembro 2025

Padeiros, faraós e memórias

 



       

Todos nós gostamos de ver laboratórios, bastidores. Em tempos de redes sociais, gostamos também de acompanhar, curtir, compartilhar, invejar intimidades. O que está submerso numa imagem ou objeto público é sempre razão de interesse em todas as áreas da vida.

Embora também goste dos bastidores, tenho os procurado fora das redes, e dia desses, assistindo a um desses programas do tempo em que nem se sonhava com Instagram e seus filtros, encontrei Fernando Sabino, suando em bicas, falando sobre pães e pirâmides.

Explico: no Roda Viva de 1989, disponível no YouTube, assisti ao escritor relatando um conselho que recebeu de Guimarães Rosa: “Não faça pães, faça pirâmides”, referindo-se à produção de crônicas como gênero menor – ao rés-do-chão, diria Antonio Candido. Sabino não se queixava do conselho do amigo, mas advogou a crônica como gênero literário importante e com lugar cativo nos grandes da literatura brasileira, inclusive – argumento irrefutável – no maior: Machado de Assis.

Eu cá não tenho condições de advogar muita coisa, mas algumas observações sobre a fala de Rosa me parecem um pouquinho necessárias. A primeira diz respeito à importância dos gêneros menores para o trabalho de tentativa – e é bom ressaltar, sempre tentativa – de formação de leitores. E digo isso do ponto de vista profissional e pessoal.

Principio pelo confessional. As minhas primeiras memórias de leitura são as crônicas de Fernando Sabino. Ainda adolescente comprei diversos livros seus em sebos e feiras porque o tom íntimo de conversa me tragou para aquele universo que ele descrevia, tanto os de personagens inventados quanto aquele em que o personagem era o próprio autor: para além do tom de bastidores, a crônica desnuda uma certa maneira de fazer literatura que quase abraça o leitor e facilita sua permanência no terreno da leitura.

Sabino fez isso comigo: adolescente ainda, comprei uma máquina de escrever, já naquele tempo um objeto “vintage”, como agora se chama algo de velho de maneira educada, apenas para emular o jeito Sabino nas minhas primeiras tentativas literárias. Hoje essa máquina enfeita minha estante de livros ao lado da obra reunida do escritor mineiro como memória desse tempo de conquista.

Creio que a palavra é bem essa: conquista. Vejo a crônica conquistar primeiro sorrisos, sobrancelhas franzidas de reflexão, depois uma pergunta, um comentário: todos indícios de um leitor. Minha prática de professor de literatura abraça os textos de Sabino, Vinicius, Drummond, de muitos cronistas que me abraçaram. Algumas vezes, quando a angústia de abstinência do celular não atrapalha, vejo outros abraços acontecerem.

A segunda observação diz respeito à conexão entre padeiros e faraós: a crônica é uma porta, uma ponte, um elo e quantas mais metáforas de ligação se queira para os edifícios dos gêneros maiores. Volto à confissão: foram as crônicas de Sabino que me levaram aos seus dois romances que permanecem em constante estado de leitura pela vida afora: “O grande mentecapto” e “O encontro marcado”, nessa ordem. Ambos têm tantas referências, de tantas outras pirâmides, que o leitor se sente quase obrigado, intimidado a encará-las – no meu caso, com o “preparo físico” que as crônicas me deram.

Acredito que no caso de alguns alunos também. Não é raro vê-los caminhar de Veríssimo e sua crônica sobre a Metamorfose até a novela de Kafka sem grandes reclamações e sempre com os mesmo indícios: sorriso, sobrancelha, pergunta.

Talvez seja um ciclo, uma conexão misteriosa entre padeiros e faraós. Sonho com uma conexão perfeita entre os dois: mesmo na educação básica ir de Sabino a Rosa, de O estranho ofício de escrever a Grande sertão: veredas. Já ouvi de colegas que é um caminho longo demais para a educação básica. Sempre que ouço isso, penso na famosa frase do faraó: “Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”.

10 setembro 2025

Publicações acadêmicas

 

2022 - A abordagem do aspecto da tradução na leitura de clássicos no ensino médio: reflexões e propostas


Capítulo do livro Literatura e Movimento: Pesquisa e Investigação - Volume 6, publicado em 2022, o texto aborda uma proposta de trabalho com o aspecto da tradução de uma obra clássica da literatura no ensino médio. O capítulo é parte de minha tese de doutorado.
Leia aqui: Literatura e Movimento: Pesquisa e Investigação - Volume 6


2021 - Um coro de vozes do subúrbio: polifonia em Boca de ouro, de Nelson Rodrigues


Artigo publicado na Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades, em 2021, o trabalho discute a definição de polifonia, proposta por Bakhtin, aliada às concepções sobre o texto teatral de Ubersfeld na análise do texto dramático Boca de ouro, de Nelson Rodrigues, destacando os seguintes traços polifônicos: a estrutura composicional da peça, seu enredo; e as personagens. Os dois aspectos, ao se entrecruzarem, constituem a face polifônica do texto de Nelson Rodrigues e um traço fundamental do dramaturgo: o quanto suas personagens são lugares de mediação e exprimem consciências autônomas à voz do autor.


2019 - Dialogismo e interação no ensino de gêneros textuais para o ensino fundamental


Capítulo do livro As práticas de linguagem em sala de aula: a pesquisa no Profletras, publicado em 2019, o texto é parte de minha dissertação de mestrado, orientada por Gerson Rodrigues da Silva, e discute formas de aplicação do conceito de dialogismo, proposto por Bakthin, no ensino de gêneros textuais no ensino fundamental.


2019 - O texto em cena: dialogismo e interação no ensino do gênero textual conto de fadas no 6º ano do ensino fundamental


Publicado na revista Confluência em 2019, o texto é um artigo-síntese de minha dissertação de mestrado e identifica nas teorias do dialogismo, a partir de Bakthin e de pesquisadores de suas ideias, estratégias de ensino do gênero textual conto para o desenvolvimento de habilidades de leitura a ele associadas. Temos como hipótese que implementar o dialogismo através da leitura de textos que se relacionam, num processo de intertextualidade explícita ou implícita, comparando-os em perspectivas textuais e contextuais, pode contribuir para uma compreensão leitora mais eficiente dos alunos do 6o ano do Ensino Fundamental.

2017 - O ensino de literatura e o uso de recursos tecnológicos no Ensino Médio


Artigo publicado na Revista Educação Pública, da Fundação CECIERJ, em 2017, o texto discute e propõe práticas do ensino de literatura com recursos tecnológicos. É um artigo-síntese de minha monografia de pós-graduação em Educação Tecnológica - CEFET/RJ.


2017 - Práticas de Alfabetização e Letramento Fundamentadas na Verificação de Conhecimentos Prévios do Aluno da EJA


Artigo publicado na revista Democratizar, em 2017, o texto, escrito com colegas do mestrado, propõe atividades de letramento fundamentadas nos conhecimentos prévios dos alunos da educação de jovens e adultos.

E-book sobre literatura brasileira produzido para a Rede Internacional de Universidades Laureate, publicado em 2017.


2016 - Orientações pedagógicas via mídia impressa na EaD: em direçãoà autonomia e criatividade


Artigo-síntese de minha monografia de pós-graduação em Educação a Distância (UFF), o texto busca traçar algumas características que compõe um material didático impresso para educação a distância, destacando requisitos necessários para essa modalidade de educação e as possibilidades que esse tipo de mídia oferece para a realização de uma aprendizagem autônoma e crítica. Foi publicado nos anais do Simpósio Internacional de Educação a Distância - UFSCAR, em 2016.


2014 - Entre a historiografia e a intertextualidade na abordagem da Literatura no EM: o Currículo Mínimo do Estado do Rio de Janeiro


Publicado na Revista Educação Pública, da Fundação CECIERJ, em 2014, o texto é um artigo produzido como trabalho final de minha pós-graduação em Ensino de Leitura e Produção Textual (UFRRJ) e busca analisar o ensino de literatura no ensino médio sob a perspectiva do Currículo Mínimo da rede estadual do Rio de Janeiro, tomado em sua articulação com Orientações Curriculares para o Ensino Médio (2006) e referencial teórico sobre o ensino de literatura.

“Os miseráveis”, de Victor Hugo: o Romantismo em choque

  Quem lembra das aulas sobre Romantismo no ensino médio, possivelmente deve, vagamente, pensar na Canção do Exílio , de Gonçalves Dias, e e...