Há uma fotografia minha – uma das poucas, bem verdade
– de que gosto muito: estou parado, a seriedade disfarçando o orgulho do objeto
que eu ostentava: o livro Antonio Carlos Jobim – Um homem iluminado, biografia
do maestro escrita por sua irmã, Helena Jobim. Era minha primeira Bienal do Livro,
estava num passeio da escola e tinha vendido, no ônibus, salgadinhos que minha
fizera para eu poder comprar aquele livro.
Se a memória não falha, o ano era 2003. E esse foi o
livro zero da modesta biblioteca que comecei a formar desde então. Eu me
lembrei dessa fotografia pelo livro mesmo: num tempo em que celulares só faziam
ligações, fiz questão de gastar uma das fotos contadas que podíamos tirar para
registrar aquele momento porque eu tinha mais ou menos noção de que seria
importante pra mim.
E não estava errado. Aquela fotografia registra
dois elementos que são basilares da minha formação humana e, mais tarde, profissional.
O primeiro, não precisa dizer, são os livros. Estão no meu quarto e na minha
vida desde que aprendi a fazer escolhas. O segundo é a música – e nesse caso
específico, a música de Tom Jobim.
E é isso. O texto podia acabar aqui porque está tudo
dito e resumido: a música de Antonio Carlos Jobim me acompanha desde os onze, doze
anos de idade, pesou na minha decisão de fazer Letras, não cansa de aparecer
nas minhas aulas e avaliações. E embora não seja da conta e do interesse de
quase ninguém, a informação tem razão de ser: estamos a poucos meses de comemorar
o centenário do maestro.
A biografia que Helena escreveu foi relembrada pela data próxima e ficou, então, desde
sua primeira leitura ávida, em permanente estado de leitura. Tornou-se um livro
importante não só pelo tom íntimo e afetuoso da escrita, mas por ser símbolo de
um mundo que há muito começou a ruir. Acredito firmemente que, dentre os vários
elementos que ajudam a conter essa erosão, está a música de Tom.
Por isso estou entre aqueles que concordam com o que
Ruy Castro escreveu no livro A onda que se ergueu no mar: “Todas as vezes que
Tom abriu o piano, o mundo melhorou.”. Aquela fotografia, pra mim, é isso: o
registro de um mundo que começava a ficar melhor.











