Dirijo numa terça-feira em direção ao trabalho quando
o rádio do carro me relembra a novidade das coisas velhas. A velha introdução,
sobressaindo o som do piano, anuncia “Futuros amantes”, do Chico Buarque. E uma
canção de amor não me faz pensar em amor, me faz pensar no tempo.
“Não se afobe não, que nada é pra já”, aconselham os
dois primeiros versos. Já é um primeiro conselho de difícil adesão: tudo agora
deve ser pra já, esperar já nos é algo distante e frustrante, a ansiedade o café da manhã e o chá antes de
dormir. Difícil não se afobar, Chico. Difícil até de ouvir isso: a buzina do
carro de trás me impulsiona a ver que o sinal abriu e minha filosofia de boteco
não pode continuar a ser feita no meio da avenida.
Logo depois os versos sobre como o amor pode esperar
em silêncio, num fundo de armário, por milênios. A imagem do fundo de armário
me chama a atenção: ela ainda existe? Se sim, para que? Com certeza não para o
que eu-lírico aponta escondido não apenas no fundo de armário, mas no fundo do
mar: fragmentos de cartas, poemas, retratos. E a ironia da canção de fato se
materializa: hoje, mesmo sem o decorrer de milênios, já são vestígio de estranha civilização, afinal, quem ainda guarda fragmentos de
cartas? Alguém ainda escreve cartas? Alguém ainda lê poemas? Alguém ainda tem
fotografias impressas? Óbvio que sim. E claro que não. Essas são linguagens que
se perderam num passado que, pela voragem do advérbio “já”, foram moídas pelo
que não tolera a ideia de ficar “milênios, milênios no ar”.
Aliás, é curioso como a ideia de milênios hoje parece
tão absurda, tão inóspita, tão irreal para um tempo que tem por modus operandi
tirar a materialidade das coisas – o que, de alguma forma, acaba tirando a
realidade delas.
No carro penso
nas coisas, meio automático, submerso como o Rio na canção, literalmente
ouvindo o eco de antigas palavras no rádio e no tempo. Por meio de “Futuros
amantes” penso em Futuros distantes, e a perspectiva não parece muito boa.
Como na canção, a única alternativa talvez pareça contribuir
para esse futuro em que sejam encontrados fragmentos de cartas, poemas,
retratos e mentiras. A mentira ficcional é charmosa e necessária, não como esse
modo de tirar a realidade das coisas. Assim, para um futuro distante, materialidade. E uma canção
em que um compositor consegue encaixar “escafandrista” em uma letra:
materialidade de um passado distante e amante.

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