24 abril 2026

Notícia de inventário

 


Me dou conta – sim, com pronome oblíquo no início da frase, mesmo – de que posso dizer que tenho um livro publicado. Se intitula Em boa companhia, reúne poemas meus e de dois queridos amigos, saiu numa tiragem considerável de quinze ou vinte exemplares e foi sequestrado na Bienal do Livro de 2003.

A história desse sequestro fica para outro texto. Me dou conta disso porque aproveito o feriado para remexer em papéis guardados, inventário de mim mesmo, e acho um exemplar do livro que, além de atacar a rinite, me fez ver que sou desobediente: não obedeci ao conselho de que se deve rasgar os versos de juventude. Sobretudo de uma juventude tão tenra, como a dos doze, treze anos. Pelo inventário também me dou conta de que não rasguei nem os versos, nem o romance.

Desde que me entendo por gente sou um arquivista. E esse hábito de tudo guardar é que me faz encontrar o menino de quatorze anos que escreveu, à mão, duzentas e três páginas de um romance policial que imitava Fernando Sabino e Agatha Christie (a tal da angústia da influência, leiam sobre). Assim, no feriado de 23 de abril, dia do livro, do choro, de São Jorge e de São Pixinguinha, confirmo que o inventário permanecerá para sempre na gaveta – se não rasguei, pelo menos jamais trarei a público esses escritos de formação.

Eles já cumpriram seu papel. Formaram e deram lugar aos textos acadêmicos: das tentativas literárias da juventude passei aos artigos, dissertação e tese do mestrado e do doutorado, e desde então literatura foi só leitura, não mais produção.

Essas crônicas têm sido um ensaio de retorno, uma retomada tímida, um teste pra ver se ainda tenho mão. E ao que parece – se é que algum dia tive alguma –, perdi a mão para poesia, mas a prosa ainda é tateada. O inventário me mostra isso, me dá sede e vontade de ir além do gênero curto.

Guardo meus escritos na gaveta que é destino final. No entanto, como disse o Drummond acerca de seu verso, meus escritos estão “cá dentro”, inquietos, vivos. Cumpriram sua função de formação e de preparação para o que viria depois. Um depois que, tardando a chegar, parece que deu seus primeiros sinais de vida a partir dessa visita de feriado.

16 abril 2026

Pai, moça, feijão

 


Chego mais cedo do trabalho, vou cozinhar. Como de costume, Alice lança mão de sua cadeirinha, anuncia que vai me “ajudar” e pega seus copos de plástico e suas duas colheres para cozinhar algo que até hoje ela não me disse o que é. Cenário pronto, só falta a trilha sonora, que hoje é o disco Poeta, moça e violão, registro do show de Clara Nunes, Toquinho e Vinicius de Moraes no Teatro Castro Alves, na Bahia, em 1973.

A primeira faixa é o poema Pátria Minha, recitado pela voz quase rouca do poeta. Enquanto Vinicius fala de sua pátria, Alice esquece dos copos e das colheres para brincar com a seringa do antibiótico ministrado de doze em doze horas. Alice, que saiu ontem do hospital depois de longos cinco dias em virtude de um pulmão que ainda está se acertando com o outono, ignora o poema porque encher e esvaziar a seringa parece bem mais interessante.

Tão interessante que me desligo do feijão que tempero para observar seus movimentos, que agora imitam o de uma exigente médica que aplica injeções na minha mão, barriga e batata da perna. Se eu não finjo dor, ela briga, então eu finjo – finjo mesmo, porque a alegria daquela mocinha na cozinha, bem, sorrindo, transborda tal qual a panela tampada do arroz. É uma alegria tão sincera que nem me desespera o fato de ela estar molhando tudo – isso sem contar o quarto, que já parece cenário de guerra.

O disco mistura gêneros e compositores, mescla poemas, poemas musicados, e as três vozes ecoam enquanto o alho dourando do feijão estala e cheira, enquanto o frango também cheira fritando, enquanto seco o chão que Alice pretende transformar numa espécie de piscinão de Ramos.

E aí eu entendo. Não é necessário muita coisa. Tenho pensado muito sobre as coisas e de repente enxergo o sublime na minha cozinha, com cheiro de alho dourando e uma criança que, liberta da prisão de um hospital, volta a demonstrar sua urgência de vida com água, grito e sorriso. Tudo isso, claro, ao som do poeta, da moça e do violão. E eu me sinto privilegiado nessa quarta-feira à noite, nessa cena improvisada de pai, moça e feijão.


06 abril 2026

Em torno de Águas de Março

 


Já é abril, mas é sempre tempo de falar de Águas de Março, uma das dez melhores canções do século XX segundo o crítico americano Leonard Feather; o samba mais bonito do mundo, segundo Arthur Nestrovski. Não me lembro de um março em que a canção não seja citada em meio a uma chuva – ou, como é mais comum no Rio de Janeiro, tempestade.

Leio por aí que acaba de sair pela Editora 34 um livro com três ensaios sobre a canção, um deles assinado pelo já citado Nestrovski. Leio e penso no quanto essa canção, composta em 1971, ainda provoca reflexões ou inflexões. Não à toa: é uma canção de ruptura, de guinada, de fratura.

Leio na biografia de Tom, escrita por sua irmã, Helena Jobim, que a canção nasceu no sítio da família, em Poço Fundo, numa madrugada, num gesto, com a letra escrita em papel de pão. Tom estava trabalhando em outra música, Matita Perê, e, cansado do trabalho em andamento, sentiu “brotar” as águas. Tal como Ari Barroso ao compor Aquarela do Brasil, foi correndo à família mostrar: “Olha o que eu fiz!”.

Talvez pressentisse que as águas inundariam tudo, que ficariam mais famosas que sua companheira Matita, que percorreria o mundo em gravações e idiomas impossíveis de contar – já a ouvi até em hebraico.

Embora a versão clássica seja de 1974, do disco Elis & Tom, Águas de Março começou sua carreira bem modestamente: Tom a gravou em 1972 num compacto de duas músicas intitulado Um tom de Tom Jobim e um tal de João Bosco, no qual o já consagrado Jobim apresentava o iniciante Bosco, que gravou Agnus Dei em sua faixa. Depois apareceu em novo arranjo como a segunda faixa do LP Matita Perê, de 1973, até alcançar o sublime no badalado e documento disco com Elis Regina – com direito ao pio do Matita Perê na introdução.

Mas eu falava do livro Águas de Março – sobre a canção de Tom Jobim. Como reúne gente da pesada, não tenho dúvida sobre a qualidade e com certeza vou lê-lo. Queria só registrar que o livro é só mais um pau ou pedra que marca um caminho ainda muito, muito longe do fim.

Acho que Tom ficaria feliz de saber que muitos, muitos brasileiros lembram de seu refrão quando veem a natureza em plena potência. E quando uma canção se faz lembrar assim, na memória afetiva de um povo, é porque repete o que seu próprio refrão diz: é promessa de vida em cada coração.


Notícia de inventário

  Me dou conta – sim, com pronome oblíquo no início da frase, mesmo – de que posso dizer que tenho um livro publicado. Se intitula Em boa co...