Me dou conta – sim, com pronome oblíquo no início da
frase, mesmo – de que posso dizer que tenho um livro publicado. Se intitula Em
boa companhia, reúne poemas meus e de dois queridos amigos, saiu numa
tiragem considerável de quinze ou vinte exemplares e foi sequestrado na Bienal
do Livro de 2003.
A história desse sequestro fica para outro texto. Me
dou conta disso porque aproveito o feriado para remexer em papéis guardados,
inventário de mim mesmo, e acho um exemplar do livro que, além de atacar a
rinite, me fez ver que sou desobediente: não obedeci ao conselho de que se deve
rasgar os versos de juventude. Sobretudo de uma juventude tão tenra, como a dos
doze, treze anos. Pelo inventário também me dou conta de que não rasguei nem os
versos, nem o romance.
Desde que me entendo por gente sou um arquivista. E
esse hábito de tudo guardar é que me faz encontrar o menino de quatorze anos
que escreveu, à mão, duzentas e três páginas de um romance policial que imitava
Fernando Sabino e Agatha Christie (a tal da angústia da influência, leiam
sobre). Assim, no feriado de 23 de abril, dia do livro, do choro, de São Jorge
e de São Pixinguinha, confirmo que o inventário permanecerá para sempre na
gaveta – se não rasguei, pelo menos jamais trarei a público esses escritos de
formação.
Eles já cumpriram seu papel. Formaram e deram lugar
aos textos acadêmicos: das tentativas literárias da juventude passei aos
artigos, dissertação e tese do mestrado e do doutorado, e desde então
literatura foi só leitura, não mais produção.
Essas crônicas têm sido um ensaio de retorno, uma
retomada tímida, um teste pra ver se ainda tenho mão. E ao que parece – se é
que algum dia tive alguma –, perdi a mão para poesia, mas a prosa ainda é
tateada. O inventário me mostra isso, me dá sede e vontade de ir além do gênero
curto.
Guardo meus escritos na gaveta que é destino final.
No entanto, como disse o Drummond acerca de seu verso, meus escritos estão “cá
dentro”, inquietos, vivos. Cumpriram sua função de formação e de preparação
para o que viria depois. Um depois que, tardando a chegar, parece que deu seus
primeiros sinais de vida a partir dessa visita de feriado.

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