14 março 2026

Gosto de sonho

Você tem um sonho. Você acorda, mas ainda dentro do sonho. E eu digo dentro não de maneira metafísica, mas psicossomática: o sonho deixa gosto, enche o quarto de cheiro. Você já acordou com gosto de sonho? Assim que acordei hoje. Fazia tempo já.

Aí você faz o café, lava o rosto. Abre a janela e, como ainda são cinco da manhã, não sente ou vê o sol, mas pelo menos parou de chover. Aí você pega a xícara de café, senta no sofá, acende a luz, tenta ler, mas os olhos ainda estão pesados. Então você toma o café e, contrário à sua expectativa, ele realça o sabor do sonho. Os olhos, assim, despertam: você lembra do sonho, agora com a boca quente e o estímulo da cafeína.

Agora, talvez, você já esteja preparado para o livro. É do Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas. Você e ele – o livro, não o Rubem – ainda estão sem intimidade, é o segundo dia de vocês dois juntos. (Aqui caberia um interlúdio sobre como o livro físico é importante para esse relacionamento de toque com o leitor, lembrando um namoro, com certa timidez no início e a intimidade crescente com o tempo, mas deixa pra lá).

Não, você não está preparado para o livro. As palavras dançam um pouco, as frases não formam sinapses. Você pode pensar, então, que talvez seja o sono antes das seis da manhã, pode sorver mais dois ou três goles de café e ainda que tome um banho frio é possível que não ajude muito: o problema não é o sono, o Rubem ou o livro, é o gosto.

O paladar humano é limitado a doce, salgado, azedo, amargo e umami. Assim aprendemos na escola. Mas é só depois de uma noite agitada, de “sonhos intranquilos”, como definiria o Kafka, é que você aprende que o paladar de sonho também marca sensações.

Aí, então, você desiste do livro. Levanta, come pão, tem vontade de beber vinho, mas como é inapropriado para as seis da manhã, toma banho e vai cuidar da vida. E como Guimarães Rosa está certo, “o correr da vida embrulha tudo”. E ao cuidar da vida você percebe que a vida não é sonho, mas que pode ter seu gosto.

 

05 março 2026

Futuros amantes, passados distantes

 


Dirijo numa terça-feira em direção ao trabalho quando o rádio do carro me relembra a novidade das coisas velhas. A velha introdução, sobressaindo o som do piano, anuncia “Futuros amantes”, do Chico Buarque. E uma canção de amor não me faz pensar em amor, me faz pensar no tempo.

“Não se afobe não, que nada é pra já”, aconselham os dois primeiros versos. Já é um primeiro conselho de difícil adesão: tudo agora deve ser pra já, esperar já nos é algo distante e frustrante,  a ansiedade o café da manhã e o chá antes de dormir. Difícil não se afobar, Chico. Difícil até de ouvir isso: a buzina do carro de trás me impulsiona a ver que o sinal abriu e minha filosofia de boteco não pode continuar a ser feita no meio da avenida.

Logo depois os versos sobre como o amor pode esperar em silêncio, num fundo de armário, por milênios. A imagem do fundo de armário me chama a atenção: ela ainda existe? Se sim, para que? Com certeza não para o que eu-lírico aponta escondido não apenas no fundo de armário, mas no fundo do mar: fragmentos de cartas, poemas, retratos. E a ironia da canção de fato se materializa: hoje, mesmo sem o decorrer de milênios,  já são vestígio de estranha civilização,  afinal, quem ainda guarda fragmentos de cartas? Alguém ainda escreve cartas? Alguém ainda lê poemas? Alguém ainda tem fotografias impressas? Óbvio que sim. E claro que não. Essas são linguagens que se perderam num passado que, pela voragem do advérbio “já”, foram moídas pelo que não tolera a ideia de ficar “milênios, milênios no ar”.

Aliás, é curioso como a ideia de milênios hoje parece tão absurda, tão inóspita, tão irreal para um tempo que tem por modus operandi tirar a materialidade das coisas – o que, de alguma forma, acaba tirando a realidade delas.

No carro  penso nas coisas, meio automático, submerso como o Rio na canção, literalmente ouvindo o eco de antigas palavras no rádio e no tempo. Por meio de “Futuros amantes” penso em Futuros distantes, e a perspectiva não parece muito boa.

Como na canção, a única alternativa talvez pareça contribuir para esse futuro em que sejam encontrados fragmentos de cartas, poemas, retratos e mentiras. A mentira ficcional é charmosa e necessária, não como esse modo de tirar a realidade das coisas. Assim, para um  futuro distante, materialidade. E uma canção em que um compositor consegue encaixar “escafandrista” em uma letra: materialidade de um passado distante e amante.

Pai, moça, feijão

  Chego mais cedo do trabalho, vou cozinhar. Como de costume, Alice lança mão de sua cadeirinha, anuncia que vai me “ajudar” e pega seus cop...