Você tem um sonho. Você acorda, mas ainda dentro do
sonho. E eu digo dentro não de maneira metafísica, mas psicossomática: o sonho
deixa gosto, enche o quarto de cheiro. Você já acordou com gosto de sonho?
Assim que acordei hoje. Fazia tempo já.
Aí você faz o café, lava o rosto. Abre a janela e,
como ainda são cinco da manhã, não sente ou vê o sol, mas pelo menos parou de
chover. Aí você pega a xícara de café, senta no sofá, acende a luz, tenta ler,
mas os olhos ainda estão pesados. Então você toma o café e, contrário à sua
expectativa, ele realça o sabor do sonho. Os olhos, assim, despertam: você
lembra do sonho, agora com a boca quente e o estímulo da cafeína.
Agora, talvez, você já esteja preparado para o livro.
É do Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas. Você e ele – o livro, não o
Rubem – ainda estão sem intimidade, é o segundo dia de vocês dois juntos. (Aqui
caberia um interlúdio sobre como o livro físico é importante para esse
relacionamento de toque com o leitor, lembrando um namoro, com certa timidez no
início e a intimidade crescente com o tempo, mas deixa pra lá).
Não, você não está preparado para o livro. As
palavras dançam um pouco, as frases não formam sinapses. Você pode pensar,
então, que talvez seja o sono antes das seis da manhã, pode sorver mais dois ou
três goles de café e ainda que tome um banho frio é possível que não ajude
muito: o problema não é o sono, o Rubem ou o livro, é o gosto.
O paladar humano é limitado a doce, salgado, azedo,
amargo e umami. Assim aprendemos na escola. Mas é só depois de uma noite
agitada, de “sonhos intranquilos”, como definiria o Kafka, é que você aprende
que o paladar de sonho também marca sensações.
Aí, então, você desiste do livro. Levanta, come pão,
tem vontade de beber vinho, mas como é inapropriado para as seis da manhã, toma
banho e vai cuidar da vida. E como Guimarães Rosa está certo, “o correr da vida
embrulha tudo”. E ao cuidar da vida você percebe que a vida não é sonho, mas
que pode ter seu gosto.

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