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19 setembro 2026

Fotografia

 


Há uma fotografia minha – uma das poucas, bem verdade – de que gosto muito: estou parado, a seriedade disfarçando o orgulho do objeto que eu ostentava: o livro Antonio Carlos Jobim – Um homem iluminado, biografia do maestro escrita por sua irmã, Helena Jobim. Era minha primeira Bienal do Livro, estava num passeio da escola e tinha vendido, no ônibus, salgadinhos que minha fizera para eu poder comprar aquele livro.

Se a memória não falha, o ano era 2003. E esse foi o livro zero da modesta biblioteca que comecei a formar desde então. Eu me lembrei dessa fotografia pelo livro mesmo: num tempo em que celulares só faziam ligações, fiz questão de gastar uma das fotos contadas que podíamos tirar para registrar aquele momento porque eu tinha mais ou menos noção de que seria importante pra mim.

E não estava errado. Aquela fotografia registra dois elementos que são basilares da minha formação humana e, mais tarde, profissional. O primeiro, não precisa dizer, são os livros. Estão no meu quarto e na minha vida desde que aprendi a fazer escolhas. O segundo é a música – e nesse caso específico, a música de Tom Jobim.

E é isso. O texto podia acabar aqui porque está tudo dito e resumido: a música de Antonio Carlos Jobim me acompanha desde os onze, doze anos de idade, pesou na minha decisão de fazer Letras, não cansa de aparecer nas minhas aulas e avaliações. E embora não seja da conta e do interesse de quase ninguém, a informação tem razão de ser: estamos a poucos meses de comemorar o centenário do maestro.

A biografia que Helena escreveu foi relembrada pela data próxima e ficou, então, desde sua primeira leitura ávida, em permanente estado de leitura. Tornou-se um livro importante não só pelo tom íntimo e afetuoso da escrita, mas por ser símbolo de um mundo que há muito começou a ruir. Acredito firmemente que, dentre os vários elementos que ajudam a conter essa erosão, está a música de Tom.

Por isso estou entre aqueles que concordam com o que Ruy Castro escreveu no livro A onda que se ergueu no mar: “Todas as vezes que Tom abriu o piano, o mundo melhorou.”. Aquela fotografia, pra mim, é isso: o registro de um mundo que começava a ficar melhor.

28 agosto 2026

Dori Caymmi e esperança

 


“Olha, quando chegar ‘Porto’ e ‘Alegre menina’, você já considerem que é o bis porque minha capacidade de locomoção está um pouco prejudicada”, ele disse no meio do show, bem ao estilo direto e objetivo da família. Família, aliás, está no título da série de quatro shows que Dori Caymmi e seu histórico bigode fizeram no projeto Terças no Ipanema.

“Por causa desses shows aqui no Rio estou me sentindo um ‘star’”, disse ele ao teatro lotado. Lotado de gente que, como ouvi na fila, estava indo ver um mito. Um mito de 82 anos, quase 83, cuja mão esquerda estava “gelada”, como definiu, que não tocou violão durante a execução de “Desenredo” “para não fazer merda”, como sinceramente admitiu. Um mito sobreposto ao palco com toda a força de sua história.

E foi de lá, do palco e da história, que Dori Caymmi mostrou mesmo que estava “Em Família”. Contou histórias do pai, Dorival, da mãe, Stella, e dos irmãos, Nada e Danilo. Encarnou o espírito sincero e à vontade que é marca da família Caymmi e divertiu a todos com a verborragia tão potente quanto sua voz. (Em tempo: se você nunca ouviu nenhum Caymmi, comece por alguma gravação de show da família, feche os olhos e ouça as vozes).

Eu precisei fechar os olhos várias vezes. Uma para ouvir com mais apuro o bigodão cantar “Velho piano”, outras porque eles estavam molhados e ardendo enquanto ouvia “Resposta ao tempo” e “Andança”, clássicos máximos dos irmãos. Difícil mesmo foi “João Valentão” e a letra que Dori mudou para “E assim adormece meu velho / Que nunca precisa dormir pra sonhar”. Não sei se foi a lembrança do meu velho, que também adormece, ou a voz, ou o violão, ou qualquer outra coisa inexplicável da arte: o fato é que saí desidratado.

Isso não se deve, claro, a pouca coisa: naquele palco foram executadas canções como “Desenredo”, “Porto”, “Alegre menina”, “Delicadeza” e “Rio amazonas”. As lágrimas, no entanto, também foram de rir nas partes em que Dori fez comentários sobre certos políticos com palavrões tão imponentes como seu bigode. “Estou falando essas coisas, com essa liberdade, porque amanhã faço 83 anos”. E antes do número final, o clássico parabéns, as palmas, o bolo simbólico. E de repente, quase sem sentir o tempo passar, aquelas quase duas horas foram encerradas com a “Canção da partida”, do Caymmi pai, e Dori, com ajuda, levantou-se para se despedir do público e do show, último da série.

Na porta do teatro, enquanto esperava o carro de aplicativo, um velhinho chorava, acompanhado da esposa. Trocamos um olhar, um sorriso e eu compreendi: só a música e a só a música de um mito pode unir pessoas de gerações e classes sociais tão diferentes. Eu entrei no carro e voltei para tão, tão distante pensando nisso: o show de Dori, de Dori e sua família, de Dori e sua história, são como aquele verso de uma canção sua: “O bem que uma esperança traz”. Eu vivenciei – e por isso chorei – quase duas horas de bem e de esperança.

22 agosto 2026

Apologia do botequim

 


Engana-se quem pensa que não existe diferença entre bar e botequim. As diferenças já começam etimologicamente: enquanto “bar” vem do inglês bar, que significa “barra” ou “obstáculo”, o termo “botequim” vem do grego apothéke, que quer dizer “depósito”, meio aparentada da palavra “botica”, nome antigo de farmácia. Há uma diferença fundamental entre obstáculo e farmácia, não?

Mas não acaba aí. O que distingue um botequim de um bar é sobretudo a originalidade: enquanto o bar busca atender as demandas da moda e da indústria, buscando cada vez mais ser “moderninho”, o botequim conserva a aparência e o ritmo lento, profundo e necessário de tempos imemoriais.

E há mais. É só no botequim que as mesas são do tamanho de mesas e congregam em torno de si pessoas sentadas – a única posição possível para quem quer, por algum tempo, esquecer que existem relógio, trânsito e extrema direita; para quem quer conversar com o outro como nos tempos imemoriais, sem a mediação do celular. Para essas pessoas, só uma cadeira e uma mesa tradicionais, de ferro ou de plástico, restando a abominação para as mesas altas que nos fazem ficar de pé, torres de ignorância e de separação.

A conversa, aliás, é o cerne, a razão de ser do botequim. É para a conversa e em tono da conversa que o botequim existe. Por isso esse quase templo realiza um feito que nenhuma revolução conseguiu: é o único lugar em que as classes sociais não entram, em que as armas são depostas, em que só há uma única e encardida bandeira: a da igualdade.

Por se constituir em torno do diálogo – ainda que molhado e embargado –, o botequim é o único lugar do mundo em que a boa música pode não ser ouvida, pode servir de pano de fundo para a verdadeira celebração que acontece ali: a arte do encontro em meio a tanto desencontro pela vida, como diria o Vinicius, autor em estado de botequim.

Entretanto, como é fácil concluir, ninguém vai ao botequim apenas para conversar, mas também para comer e beber, ou mais precisamente para beber e comer, porque até a sintaxe do botequim é única. Considerando esse fato, a temperatura é sempre mais importante que a estética – o gelado ao que é de gelado, o quente ao que é de quente – e as opções limitadas liberam mais tempo para o ato de parlar, além de nomes genuinamente brasileiros, de preferência no diminutivo – longa vida aos nossos caldos de quenga e bolinhos.

Mais não é necessário dizer. Só a etimologia bastava. O botequim é cura. O botequim é o microcosmo de um mundo que é forçado a deixar de existir, mas que resiste nesse espaço que nos faz mais brasileiros.

14 agosto 2026

Uma pergunta

 


Escrever é diferente de escrever. E espanta o fato de que no maravilhoso e distópico século XXI, em que máquinas já pensam e enfileiram palavras por nós, um ser humano ainda sente numa cadeira – ou que fique em pé mesmo, como Hemingway – e escreva, enfileire palavras num papel físico ou virtual, se disponha a organizar pensamentos, disciplinar ideias, compor distopias ainda mais absurdas que as nossas.

Ferreira Gullar disse que o Eliot disse que escrever é fugir da emoção. Considerando que não é por profissão, por dinheiro ou imposição, se um ser humano desse planetinha tão simpático senta para escrever – ou o faz em pé mesmo – pode estar fugindo ou domesticando sua emoção para melhor conviver com ela.

Fernando Sabino define como um ato extremamente solitário. E escritor, sozinho, é feito um demônio: ama apenas a si mesmo. Gosto da metáfora, embora eu ache que seja o contrário: o dilema do escritor é querer sair de si mesmo, ser outro(s), em outras terras, outros tempos, outros outros. A alteridade é o paradoxo do ser que, sozinho, escreve: só é possível alcançar o outro por meio de papel e palavras.

Eu me pus a pensar sobre essas platitudes quando, hoje, me perguntaram se eu escrevia poemas. E gostei de lembrar do tempo em que os escrevia e, pior, acreditava neles. Acreditava tanto que os dividia em livros, cujos títulos eu muito elaborava, e quando alcançavam várias folhas manuscritas, o suficiente para um magro volume, eu me sentia Vinicius de Moraes.

Muitos anos depois, lendo a biografia de Vinicius, descobri que ele também tinha esses arroubos, escrevia poemas aos quais atribuía enorme importância e chegou a organizar um volume com as suas poesias completas. Embora houvesse nessa descoberta um pequeno e humorístico lastro de semelhança, há só uma e colossal diferença: ele era Vinicius de Moraes.

Como eu não sou, a poesia abriu as portas do mundo da escrita para mim, mas logo foi embora, me inundando, mansamente, com a certeza de que poetas não são ordinários.

Mas eu sou. Tanto que sigo à risca o estereótipo: escrevo em minha mesa, à mão, no silêncio das oito horas da noite, numa cidade desimportante de um país tropical da América Latina, depois de um dia de trabalho, de pagar contas, de agendar com a oficina o reparo do carro, depois de evitar discutir política, depois de domesticar e subjugar a paixão.

Num mundo em que tudo passou a ser “hiperfoco”, eu escrevo por isso, pelo vocabulário que está deixando de existir, mas que só ele consegue dar conta de justificar esse feito: interesse, curiosidade, necessidade, paixão.


23 julho 2026

O tempo das palavras

 


As palavras têm um tempo. Como no Eclesiastes: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de calar e tempo de falar, tempo de guerra e tempo de paz. Em tempos de tantos juízes e tribunais autoproclamados, perdeu-se o direito de dizer bobagens: dependendo de quem se é, essas bobagens são amplificadas, jogadas aos quatro cantos do algoritmo e as sentenças se sucedem, implacáveis, sem retorno, sem desculpas.

João Bosco é o mais novo exemplo. Falou o que não devia ou falou da forma que não devia, e suas palavras reverberaram nos tribunais mais exaltados dos mais impolutos juízes, detentores da moral e da virtude mais inefáveis. Gol anulado, samba dele e de Aldir Blanc, fez o artista conhecer o cancelamento que seu filho, Francisco Bosco, conhece bem.

Em termos de música popular dos nossos octogenários a polêmica não é nova. O outro Francisco, o Buarque, já havia sido bastante cancelado nos dois lados: pelo romantismo “antiquado” de Tua cantiga e mais ainda quando declarou que não cantaria mais Com açúcar, com afeto – canção que retrata a submissão da mulher, feita a pedido de uma outra mulher nada submissa: Nara Leão.

As palavras têm um tempo. E Bosco pai parece ter esquecido disso e ficou à vontade demais em frente às câmeras. Ele tem razão, em parte. As canções simplesmente não deixam de existir e podem, sim, ser crônicas de um tempo que felizmente, hoje, pode ser debatido, questionado e criticado. Aliás, uma boa canção é isso: provocadora de debates, retrato de um tempo. E é possível defender um ponto de vista sem ofender a sensibilidade de ninguém, sem patologizar o oponente de ideias.

Acredito, sinceramente, que ainda que João tivesse usado palavras mais conciliadoras, cairia nos tribunais da internet. E o meu ponto é justamente esse: é possível discordar e criticar, por mais idiota que se ache o outro lado, sem chamar de idiota (a palavra ainda flutua na minha cabeça por culpa do Dostoievski que acabei de ler hoje).

As palavras têm um tempo. Quando perdem a validade, se tornam crônica. Quando bem utilizadas, se tornam argumento. Quando revestidas de ódio e bílis, se tornam nada.

03 julho 2026

A festa e o casmurro


Há festa na cidade. Me disseram que a gente devia ficar feliz: a maior de todos os tempos e etc. Eu tentei ficar feliz, mas infelizmente tive um acesso de tosse devido à poeira, além de os artistas contratados para os shows não terem sido escolhidos com base na diversidade da música brasileira, mas apenas a modinha promovida pela indústria.

Me disseram que a gente devia ficar feliz: são cinco dias de diversão. Mas o trânsito não deixa: os dois minutos que levo, de carro, da minha casa ao centro, viraram vinte, as ruas são fechadas ou assaltadas pelos coletes verdes que cobram vinte, trinta reais para deixar estacionar na via pública, isso sem falar nos pobres portões de garagem obstruídos por gente que tem o próprio umbigo como centro do universo.

Me disseram que a gente devia ficar feliz: ano passado não teve festa, então é pra comemorar. Acontece que ano passado também não teve teatro, não teve um grande evento dedicado à literatura, não teve show de artista não industrial, não teve um documentário no nosso cinema. (Esse ano e antes do ano passado, e antes de antes do ano passado também não teve teatro).

Me disseram que a gente devia ter um olhar otimista: eleições cheias de fake News se aproximam, o super el niño se aproxima, o laranjão quer subjugar a América Latina, mas temos festa na cidade. Eu tento, juro que tento: penso nas exposições e no que de cultural pode ter na festa. O problema é a poeira até chegar lá: o pó não faz feliz a minha rinite alérgica e meu tênis preto.

Me deram motivos pelos quais a gente devia ficar feliz. E eu tentei. Mas tenho amigos cujas vidas profissionais estão sendo terrivelmente prejudicadas pela alegre festa que segue madrugada adentro projetando as vozes dos cantores industriais.

Tudo somado, me sinto um casmurro: há festa na cidade, mas é uma festa que não me faz feliz. Há festa na cidade, mas vejo poucos motivos pra cidade festejar. Há festa na cidade, mas que serve de anestesia.

Foi mal aí pela “bad vibes”, por “pesar o clima”, pelo pessimismo da casmurrice. Ao fim e ao cabo desejo que a terra lhes seja leve. Vamos à história triste dos subúrbios.

 

25 junho 2026

O ET e o idiota

 


Desde o ET de Varginha que acho o brasileiro com um certo fetiche por seres extraterrestres. No ano em que se completam trinta anos do suposto encontro com o ET mineiro – que, como bom mineiro, evitou aparecer, desconversou e sumiu – um outro caso agora toma conta do noticiário tradicional, saindo do mundo etéreo das redes sociais: um influenciador (?) do Paraná supostamente filmou um OVNI (O fláVio bolsoNaro Interditou-se) ou algo parecido.

Fetiche. E como o do brasileiro também se estende às questões inúteis, pelo que andei vendo aqui e ali, agora há uma verdadeira cruzada sobre o caso do objeto não identificado – no caso o OVNI, não os outros 70 milhões que o Vorcaro prometeu ao Flávio. Tentam provar que ele mentiu – o influenciador, o Flávio já é certeza – ele tenta provar que não mentiu, vídeos e mais vídeos inundam a internet e a inutilidade toma conta de tudo.

“O brasileiro é um feriado”, já disse o Nelson Rodrigues. Eu acho que o brasileiro é também um fetichista. Tanto, tanto que vai além do OVNI: perpassa um talento nato que temos para alçar aos holofotes qualquer um que filme luzes, faça cara de medo e divulgue no mundo etéreo das redes sociais. O brasileiro, nesse sentido, é feriado, fetichista e cansativo (não achei outra palavra com f).

Estamos num ano muito atribulado, gente. É Copa, é Rock in Rio, é eleição, é vazamento do celular do Vorcaro. Não precisamos de OVNIS, precisamos de idiotas.

Explico: estou lendo, pela primeira vez, “O idiota”, de Dostoiévski. É um romance que conta uma história antiga e sempre inédita: a de um homem puro num mundo corrompido. E fatalmente a pergunta surge, impávida colosso: vale a pena ser puro e honesto num mundo de OVNIS sob suspeita e de 134 milhões para financiar um filme que é propaganda política?

Como ainda não cheguei ao final do romance, não sei a resposta. A única coisa a fazer, então, é terminar de ler o romance. E enquanto isso não acontece, há, eventualmente, outra coisa a se fazer: venha, me olhe nos olhos, me dê sua mão, sente aqui comigo. Estamos numa América Latina ameaçada e coagida pelo amigo do Epstein, estamos na República cuja elite estava na carteira de um banqueiro, estamos sendo controlados e manipulados por empresas de celerados – um deles, inclusive, que pensou que poderia ir para Marte, veja só...

Sentou? Está confortável? Agora olhe pro céu: vê algum OVNI? Eu não. Mas vejo uma epifania, uma revelação, uma imagem difusa que coloca Dostoievski numa nave brilhando e emitindo um sinal que apenas comecei a decifrar: somos todos idiotas.

24 abril 2026

Notícia de inventário

 


Me dou conta – sim, com pronome oblíquo no início da frase, mesmo – de que posso dizer que tenho um livro publicado. Se intitula Em boa companhia, reúne poemas meus e de dois queridos amigos, saiu numa tiragem considerável de quinze ou vinte exemplares e foi sequestrado na Bienal do Livro de 2003.

A história desse sequestro fica para outro texto. Me dou conta disso porque aproveito o feriado para remexer em papéis guardados, inventário de mim mesmo, e acho um exemplar do livro que, além de atacar a rinite, me fez ver que sou desobediente: não obedeci ao conselho de que se deve rasgar os versos de juventude. Sobretudo de uma juventude tão tenra, como a dos doze, treze anos. Pelo inventário também me dou conta de que não rasguei nem os versos, nem o romance.

Desde que me entendo por gente sou um arquivista. E esse hábito de tudo guardar é que me faz encontrar o menino de quatorze anos que escreveu, à mão, duzentas e três páginas de um romance policial que imitava Fernando Sabino e Agatha Christie (a tal da angústia da influência, leiam sobre). Assim, no feriado de 23 de abril, dia do livro, do choro, de São Jorge e de São Pixinguinha, confirmo que o inventário permanecerá para sempre na gaveta – se não rasguei, pelo menos jamais trarei a público esses escritos de formação.

Eles já cumpriram seu papel. Formaram e deram lugar aos textos acadêmicos: das tentativas literárias da juventude passei aos artigos, dissertação e tese do mestrado e do doutorado, e desde então literatura foi só leitura, não mais produção.

Essas crônicas têm sido um ensaio de retorno, uma retomada tímida, um teste pra ver se ainda tenho mão. E ao que parece – se é que algum dia tive alguma –, perdi a mão para poesia, mas a prosa ainda é tateada. O inventário me mostra isso, me dá sede e vontade de ir além do gênero curto.

Guardo meus escritos na gaveta que é destino final. No entanto, como disse o Drummond acerca de seu verso, meus escritos estão “cá dentro”, inquietos, vivos. Cumpriram sua função de formação e de preparação para o que viria depois. Um depois que, tardando a chegar, parece que deu seus primeiros sinais de vida a partir dessa visita de feriado.

16 abril 2026

Pai, moça, feijão

 


Chego mais cedo do trabalho, vou cozinhar. Como de costume, Alice lança mão de sua cadeirinha, anuncia que vai me “ajudar” e pega seus copos de plástico e suas duas colheres para cozinhar algo que até hoje ela não me disse o que é. Cenário pronto, só falta a trilha sonora, que hoje é o disco Poeta, moça e violão, registro do show de Clara Nunes, Toquinho e Vinicius de Moraes no Teatro Castro Alves, na Bahia, em 1973.

A primeira faixa é o poema Pátria Minha, recitado pela voz quase rouca do poeta. Enquanto Vinicius fala de sua pátria, Alice esquece dos copos e das colheres para brincar com a seringa do antibiótico ministrado de doze em doze horas. Alice, que saiu ontem do hospital depois de longos cinco dias em virtude de um pulmão que ainda está se acertando com o outono, ignora o poema porque encher e esvaziar a seringa parece bem mais interessante.

Tão interessante que me desligo do feijão que tempero para observar seus movimentos, que agora imitam o de uma exigente médica que aplica injeções na minha mão, barriga e batata da perna. Se eu não finjo dor, ela briga, então eu finjo – finjo mesmo, porque a alegria daquela mocinha na cozinha, bem, sorrindo, transborda tal qual a panela tampada do arroz. É uma alegria tão sincera que nem me desespera o fato de ela estar molhando tudo – isso sem contar o quarto, que já parece cenário de guerra.

O disco mistura gêneros e compositores, mescla poemas, poemas musicados, e as três vozes ecoam enquanto o alho dourando do feijão estala e cheira, enquanto o frango também cheira fritando, enquanto seco o chão que Alice pretende transformar numa espécie de piscinão de Ramos.

E aí eu entendo. Não é necessário muita coisa. Tenho pensado muito sobre as coisas e de repente enxergo o sublime na minha cozinha, com cheiro de alho dourando e uma criança que, liberta da prisão de um hospital, volta a demonstrar sua urgência de vida com água, grito e sorriso. Tudo isso, claro, ao som do poeta, da moça e do violão. E eu me sinto privilegiado nessa quarta-feira à noite, nessa cena improvisada de pai, moça e feijão.


06 abril 2026

Em torno de Águas de Março

 


Já é abril, mas é sempre tempo de falar de Águas de Março, uma das dez melhores canções do século XX segundo o crítico americano Leonard Feather; o samba mais bonito do mundo, segundo Arthur Nestrovski. Não me lembro de um março em que a canção não seja citada em meio a uma chuva – ou, como é mais comum no Rio de Janeiro, tempestade.

Leio por aí que acaba de sair pela Editora 34 um livro com três ensaios sobre a canção, um deles assinado pelo já citado Nestrovski. Leio e penso no quanto essa canção, composta em 1971, ainda provoca reflexões ou inflexões. Não à toa: é uma canção de ruptura, de guinada, de fratura.

Leio na biografia de Tom, escrita por sua irmã, Helena Jobim, que a canção nasceu no sítio da família, em Poço Fundo, numa madrugada, num gesto, com a letra escrita em papel de pão. Tom estava trabalhando em outra música, Matita Perê, e, cansado do trabalho em andamento, sentiu “brotar” as águas. Tal como Ari Barroso ao compor Aquarela do Brasil, foi correndo à família mostrar: “Olha o que eu fiz!”.

Talvez pressentisse que as águas inundariam tudo, que ficariam mais famosas que sua companheira Matita, que percorreria o mundo em gravações e idiomas impossíveis de contar – já a ouvi até em hebraico.

Embora a versão clássica seja de 1974, do disco Elis & Tom, Águas de Março começou sua carreira bem modestamente: Tom a gravou em 1972 num compacto de duas músicas intitulado Um tom de Tom Jobim e um tal de João Bosco, no qual o já consagrado Jobim apresentava o iniciante Bosco, que gravou Agnus Dei em sua faixa. Depois apareceu em novo arranjo como a segunda faixa do LP Matita Perê, de 1973, até alcançar o sublime no badalado e documento disco com Elis Regina – com direito ao pio do Matita Perê na introdução.

Mas eu falava do livro Águas de Março – sobre a canção de Tom Jobim. Como reúne gente da pesada, não tenho dúvida sobre a qualidade e com certeza vou lê-lo. Queria só registrar que o livro é só mais um pau ou pedra que marca um caminho ainda muito, muito longe do fim.

Acho que Tom ficaria feliz de saber que muitos, muitos brasileiros lembram de seu refrão quando veem a natureza em plena potência. E quando uma canção se faz lembrar assim, na memória afetiva de um povo, é porque repete o que seu próprio refrão diz: é promessa de vida em cada coração.


14 março 2026

Gosto de sonho

Você tem um sonho. Você acorda, mas ainda dentro do sonho. E eu digo dentro não de maneira metafísica, mas psicossomática: o sonho deixa gosto, enche o quarto de cheiro. Você já acordou com gosto de sonho? Assim que acordei hoje. Fazia tempo já.

Aí você faz o café, lava o rosto. Abre a janela e, como ainda são cinco da manhã, não sente ou vê o sol, mas pelo menos parou de chover. Aí você pega a xícara de café, senta no sofá, acende a luz, tenta ler, mas os olhos ainda estão pesados. Então você toma o café e, contrário à sua expectativa, ele realça o sabor do sonho. Os olhos, assim, despertam: você lembra do sonho, agora com a boca quente e o estímulo da cafeína.

Agora, talvez, você já esteja preparado para o livro. É do Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas. Você e ele – o livro, não o Rubem – ainda estão sem intimidade, é o segundo dia de vocês dois juntos. (Aqui caberia um interlúdio sobre como o livro físico é importante para esse relacionamento de toque com o leitor, lembrando um namoro, com certa timidez no início e a intimidade crescente com o tempo, mas deixa pra lá).

Não, você não está preparado para o livro. As palavras dançam um pouco, as frases não formam sinapses. Você pode pensar, então, que talvez seja o sono antes das seis da manhã, pode sorver mais dois ou três goles de café e ainda que tome um banho frio é possível que não ajude muito: o problema não é o sono, o Rubem ou o livro, é o gosto.

O paladar humano é limitado a doce, salgado, azedo, amargo e umami. Assim aprendemos na escola. Mas é só depois de uma noite agitada, de “sonhos intranquilos”, como definiria o Kafka, é que você aprende que o paladar de sonho também marca sensações.

Aí, então, você desiste do livro. Levanta, come pão, tem vontade de beber vinho, mas como é inapropriado para as seis da manhã, toma banho e vai cuidar da vida. E como Guimarães Rosa está certo, “o correr da vida embrulha tudo”. E ao cuidar da vida você percebe que a vida não é sonho, mas que pode ter seu gosto.

 

05 março 2026

Futuros amantes, passados distantes

 


Dirijo numa terça-feira em direção ao trabalho quando o rádio do carro me relembra a novidade das coisas velhas. A velha introdução, sobressaindo o som do piano, anuncia “Futuros amantes”, do Chico Buarque. E uma canção de amor não me faz pensar em amor, me faz pensar no tempo.

“Não se afobe não, que nada é pra já”, aconselham os dois primeiros versos. Já é um primeiro conselho de difícil adesão: tudo agora deve ser pra já, esperar já nos é algo distante e frustrante,  a ansiedade o café da manhã e o chá antes de dormir. Difícil não se afobar, Chico. Difícil até de ouvir isso: a buzina do carro de trás me impulsiona a ver que o sinal abriu e minha filosofia de boteco não pode continuar a ser feita no meio da avenida.

Logo depois os versos sobre como o amor pode esperar em silêncio, num fundo de armário, por milênios. A imagem do fundo de armário me chama a atenção: ela ainda existe? Se sim, para que? Com certeza não para o que eu-lírico aponta escondido não apenas no fundo de armário, mas no fundo do mar: fragmentos de cartas, poemas, retratos. E a ironia da canção de fato se materializa: hoje, mesmo sem o decorrer de milênios,  já são vestígio de estranha civilização,  afinal, quem ainda guarda fragmentos de cartas? Alguém ainda escreve cartas? Alguém ainda lê poemas? Alguém ainda tem fotografias impressas? Óbvio que sim. E claro que não. Essas são linguagens que se perderam num passado que, pela voragem do advérbio “já”, foram moídas pelo que não tolera a ideia de ficar “milênios, milênios no ar”.

Aliás, é curioso como a ideia de milênios hoje parece tão absurda, tão inóspita, tão irreal para um tempo que tem por modus operandi tirar a materialidade das coisas – o que, de alguma forma, acaba tirando a realidade delas.

No carro  penso nas coisas, meio automático, submerso como o Rio na canção, literalmente ouvindo o eco de antigas palavras no rádio e no tempo. Por meio de “Futuros amantes” penso em Futuros distantes, e a perspectiva não parece muito boa.

Como na canção, a única alternativa talvez pareça contribuir para esse futuro em que sejam encontrados fragmentos de cartas, poemas, retratos e mentiras. A mentira ficcional é charmosa e necessária, não como esse modo de tirar a realidade das coisas. Assim, para um  futuro distante, materialidade. E uma canção em que um compositor consegue encaixar “escafandrista” em uma letra: materialidade de um passado distante e amante.

26 fevereiro 2026

O jardineiro

 

Tomo café com um casal de amigos no templo capitalista que é o shopping da minha cidade. Conversamos amenidades até que a literatura e a escrita entram na roda. Livros que seriam interessantes para a leitura dos alunos, breves comentários sobre uma coisa ou outra até que meu amigo e eu caímos sobre modos de escrita ou, mais precisamente, os modos como nós escrevemos.

Comentei sobre o presente que ganhei de uma colega de trabalho, uma caneta tinteiro, e o hábito que já havia retomado de escrever à mão. Face a seu espanto, meu amigo disse que já estava no século XXI e o computador era sua principal ferramenta de trabalho. “O senhor é um jardineiro”, me disse ele, e desde então a frase fixou-se na memória.

A metáfora da jardinagem – creio – não diz respeito só ao vagar do tempo num ritmo não acelerado, não otimizado: tem a ver, sobretudo, com uma prática manual que, de maneira deliberada, não se troca por uma máquina. A frase é do cientista Miguel Nicolelis: “A conveniência está matando a agência”. Para muito além do ato de escrever – não vos recrimino, oh vós que escreveis em máquinas do século XXI – nós estamos sendo formados e educados para um mundo em que os jardineiros estão perdendo lugar para uma automação cada vez mais paralisante.

Sim, eu já falei desse assunto por aqui e sei que estou me repetindo – outro pecado capital para um mundo viciado em constantes novidades, que considera como pecado mortal a repetição, a reiteração, a revisão. Faço jus, assim, ao meu tão honrado título: minha jardinagem é esta, como diria o Nelson Rodrigues, “flor de obsessão”: repetir à exaustão e à mão que precisamos otimizar menos e plantar mais.

Como estamos no terreno pantanoso das metáforas, você escolhe sobre o que plantar. O importante é não fazer do tempo e da vida uma corrida cega em busca de ganhar tempo para não saber o que fazer com ele e desperdiçá-lo na frente de uma tela. É preciso, como disse o Vinicius de Moraes num polêmico poema, “Que haja / qualquer coisa de flor em tudo isso”. O mesmo Vinicius que nomeou um de seus livros como “Para uma menina com uma flor” e que fez canções como “Morena flor” e “O velho e a flor”.

Sim, eu sei, é muita flor para um só autor. Mas combina com este opúsculo o poeta que é o anti-digital por excelência, e que é o necessário para um tempo e uma cultura cada vez mais necessitados de jardins.


30 dezembro 2025

No dia de ano bom

 


Confesso que sempre tive um pouquinho de aversão à palavra “réveillon”, principalmente depois que ouvi a primeira vez sua equivalente e tão brasileira “dia de ano bom”. Em que pese a infame rima, a segunda expressão é muito melhor que a primeira em prosa e prosódia.

Preferências linguísticas à parte, este texto é só para encerrar 2025 e iniciar 2026 sem essa coisa de pé direito, mas de forma inteira, sem estilhaços. Assim, como não sou uma pessoa apta a dar conselhos para ninguém, limito-me a desejar.

E o meu primeiro desejo é que você seja. Seja mesmo, por inteiro, em tudo que viver. E que esse tudo não seja “instagramável” nem tenha como principal finalidade um desejo burro de fotografar, editar e postar. Esses verbos, nesse tempo, têm sido contra a vida e contra os vínculos, desejo que você os abandone se hoje te controlam.

Desejo também que você (re)encontre graça em ler. Para além de todo aquele blábláblá do quanto faz bem, ler é uma oportunidade cada vez mais rara de estar sozinho, em silêncio, desconectado, em rebelião contra o grande controle que as empresas têm do nosso tempo, da nossa atenção, dos nossos desejos. Para isso é fundamental que você leia livros físicos, que você sinta o cheiro do papel, o peso do livro, o virar e o rabiscar de páginas de verdade.

E, claro, atrelado ao que acabei de dizer, desejo que você escreva à mão, em papel, estudando ou registrando o caos da sua cabeça, mas escreva. Recomendo caneta tinteiro – ganhei uma de presente de uma querida colega e ela, a caneta tinteiro, que passa a dar forma a essas palavras, tem um outro toque, um outro visual, um outro compasso de espera.

Desejo também muito: Chico Buarque, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Teresa Cristina, Roberta Sá, Djavan, Nilze Carvalho, Carminho, Mônica Salmaso, Francis Hime, Ivan Lins, Milton Nascimento. Só para falar dos vivos. Se eu for falar dos mortos, precisaríamos de uma infinidade de anos novos.

Desejo, como não podia deixar de ser, que em 2026 você não vote em golpistas, fascistas, autoritários, truculentos e combinadores de política e religião. Só com isso já se inclui uma sociedade e um país melhor na lista de desejos.

E para que esses desejos não se acumulem demais – afinal, você também precisa desejar – desejo, nesse dia de ano bom, que a vida seja leve, que o clima nos ajude, que não falte o pão, a prosa, a poesia, o abraço e o afeto.


09 novembro 2025

Escrever à mão

 


Falei outro dia sobre retornos e citei o escrever à mão como um deles. Recebi alguns “poréms” no sentido de “Como assim? Escrevo à mão na escola, no trabalho...”. Há controvérsias. Escreve-se à mão na escola quase sempre apenas como exercício de cópia ou nas avaliações, quase nunca para sistematizar, por conta própria, informações enquanto se assiste a uma aula ou para resumir um conteúdo, ou para acompanhar a leitura de um texto.

José Miguel Wisnik sintetiza bem essa impressão ao comentar, num programa no Youtube, que há muito tempo não escrevia à mão e acha meio absurdo alguém fazer isso, escrever um livro ou um ensaio à mão quando a tela do computador é um recurso que mantém um texto sempre limpo e editável, sempre em sua melhor versão.

Acho que abandonar o hábito de escrever à mão tem muito a ver com essa disposição sempre limpa e editável que o digital exige de nós: precisamos estar sempre prontos a refazer e esconder os riscados, os erros, a letra feia, a frase torta, a palavra ou parágrafo abandonados.

Tudo que se revela quando escrevemos à mão. E essas revelações dão a noção de uma espécie de “laboratório” da escrita, uma ideia de bastidores que a mim, pelo menos, agrada muito: tenho sempre muita curiosidade em ver, na intimidade de um escritor, a primeira opção por uma palavra que foi abandonada; um parágrafo inteiro que, em formação, se mostrava promissor e que foi riscado; os esboços que prepararam a versão final, esses esboços que são a gênese de uma criação imaginativa ou técnica.

Parte disso o digital nos tomou. Escrever à mão é como assistir a um DVD, ouvir um CD, memorizar números de telefone: uma necessidade até bem pouco tempo atrás, hoje atitude saudosista, uma vez que os substitutos digitais são mais ágeis, limpos, editáveis – dando uma ideia de incrível eficiência.

Não meu caso, pelo menos, que agora, depois de anos dedicado à vida acadêmica em mestrado e doutorado repletos dessa escrita limpa e editável, resolvi ocupar o glorioso cargo de escritor não lido. Quando ressuscitei esse blog para publicar esses textos – todos escritos à mão –, me veio a vontade de voltar a escrever ficção. Sim, um dia já escrevi ficção e poesia, até os vinte e dois anos, mais ou menos, tudo devidamente enterrado numa gaveta trancada à chave – arquivista que sou, tenho pena de queimar.

Mas voltando ao ponto: ressuscitada a vontade de escrever literatura e não sobre literatura, mais velho e mais sem vergonha, me veio a necessidade de voltar a escrever à mão. Comprei cadernos, cadernetas, canetas azul, preta e vermelha, e comecei por aqui, escrevendo crônicas numa plataforma morta. Já rascunhei o esqueleto da narrativa numa caderneta e já separei o caderno.

Agora só me falta o tempo. Ou a coragem. Como todo trabalho manual, escrever à mão e escrever ficção, depois de muito tempo sem prática, enferruja. É nesse ponto em que estou: tirando a ferrugem. Até agora tem sido bom, tem sido curioso quando um ou outro comenta sobre um texto que saiu de um esforço físico, não só cognitivo.

Fernando Sabino dizia que o mais trágico no trabalho do escritor é que escrever é um ato solitário. Impossível discordar dele. Mas a solidão, acompanhada de uma técnica, no meu caso, imemorial, dói mais devagar.


26 outubro 2025

Estranho

 

N’A Metamorfose, Kafka descreve um sujeito que acorda transformado num inseto “monstruoso”, segundo algumas traduções. O personagem não vive, no choque da constatação, a experiência do estranhamento; pensa que está atrasado para o trabalho, pensa em pragmatismos que no início do século XX já eram imperativos categóricos de uma vida vivida em dias úteis e horário comercial.

Kafka, ele mesmo, um estranho. Um estranho que noivava e desnoivava por cartas, que criava mundos sem saída e sem solução no escuro de seu quarto, entre suas confissões: Kafka produzia ficção no meio de seus diários. Deixou poucos livros concluídos, mandou queimar tudo que escreveu antes de morrer.

Sei que é arriscado trabalhar com o “Se” (só Djavan fez isso muito bem), mas hoje, no intervalo entre as aulas do dia, fiquei pensando em Kafka no nosso mundinho desumanizante, em como descreveria máquinas que pensam e escrevem por nós; em como julgaria nossa necessidade estranha de nos expor, nos mostrar, exibir desde comida a lugares, de uma selfie sem sentido a festas sem sentido.

Tenho a impressão de que Kafka, como seu personagem, não viveria a experiência do estranhamento como choque: perscrutaria as redes sociais com um olhar quase científico, abriria sorrisos irônicos face a nossos textões cheios de certezas absolutas e monopólios da virtude.

Tenho a impressão também de que nós, desumanizados, como que inconscientemente abrimos mão da experiência do choque para normalizar o absurdo sem traumas, para nos adequarmos ao “todo mundo faz” sem nos sentirmos ridículos, para anestesiar o vazio preenchendo-o com time lines infinitas e repletas de falsificações. Ultimamente ando escrevendo muito sobre minhas impressões. Isso é um pouco clichê e desnecessário, eu sei, mas os tempos são tão estranhos que em nossa marcha para o progresso, muitos de nós estão desesperadamente buscando o retorno.

O retorno em experiências. Leio por aí que estamos voltando aos discos de vinil, às máquinas fotográficas analógicas, à escrita à mão. Soa estranho pensar que estamos voltando ao mundo de Kafka porque, tal como Gregor Samsa (o inseto gigante), fomos metamorfoseados em amontoados de dados utilizados por grandes corporações que nos manipulam e vendem. O retorno é uma forma de salvação.

E – ironia das ironias – o saudável é o antigo, o trabalhoso, o analógico: o (im)possível retorno a um tempo em que não éramos obrigados a saber e opinar sobre tudo e que, tornando-nos estranhos, alienados, o saudável é sermos limitados a uma quantidade de canções específicas e prestarmos atenção a todas elas, por exemplo.

Há um trecho n’A Metamorfose que é digno de nota: o grande inseto, ouvindo sua irmã tocar violino, fala por meio do discurso indireto livre algo assim: “Seria ele um animal, já que a música o emocionava tanto?”. Sensação de estranhamento. Fico muito feliz quando consigo questionar se sou mesmo esse consumidor de time line infinita enquanto há música, literatura e tanta coisa, tanta gente pronta a emocionar tanto.

E é uma vitória satisfatória: sou um estranho. Um pouco mais que o normal, talvez. Mas de um estranhamento salpicado de liberdade.

19 outubro 2025

Professorado e quarta de cinzas

 


Sem romantismos para quarta-feira: no dia quinze de outubro o Brasil comemora o dia dos professores, e nos dá até um ponto facultativo de presente. Entretanto, sem romantismos, é preciso dizer, ainda que apontando um sujeito gramatical genérico:  o Brasil torna cada vez mais difícil comemorar o dia dos professores.

Os motivos são múltiplos e conhecidos. Podemos falar de salários, condições de trabalho, adoecimento mental e físico e mais uma miríade de causas. Todas importantes, todas dignas de um debate profundo e sério. Mas o que destaco é outra coisa.

O professorado trabalha com conhecimento. E o conhecimento, como a autoajuda já popularizou, não é a mesma coisa que informação. Então, voltando ao ponto: o professorado trabalha com conhecimento, que diferente da informação, é constituído por meio da reflexão, do diálogo, da pesquisa e da comparação. O conhecimento, na lógica capitalista, é a mercadoria que o professorado tenta vender em sala de aula e falha miseravelmente.

As razões do fracasso são quase sempre atribuídas a nós, o professorado. E como uma boa dose de autocrítica é sempre bem vinda, em parte é nossa culpa, mesmo. Mas uma parte ínfima, muito pequena, e em muitos casos uma culpa que se origina na necessidade de pagar contas cada vez mais caras e que exigem mil escolas e mil aulas por semana.

A principal razão é outra, mais grave, porque genérica; mais preocupante, porque nos damos conta e nada parecemos fazer: nós, como sociedade, estamos cada vez mais refratários ao conhecimento como prática de informação aliada ao diálogo, à reflexão e à pesquisa. E generalizo mais: me refiro à humanidade, bem generalizado mesmo. Eu sei, muitos dirão que uma impressão pessoal não é um argumento válido – e é verdade, digo isso sempre aos meus alunos. No entanto, como este texto não é uma reação do ENEM nem um artigo científico, me dou a licença de registrar aquilo que vejo todos os dias, no cotidiano mais habitual e nas salas de aula: cada vez menos queremos ler, refletir, produzir.

E se nos tornarmos caçadores de culpa, podemos pulverizá-la em celulares, redes sociais, na inteligência artificial, na informação cada vez mais fácil – e por isso mesmo – mais falseada. Estaremos certos se fizermos isso, mas trago mais um todavia: o problema está em nós mesmos.

No anestesiamento a que nos permitimos por causa de tudo que foi mencionado, na promoção dessa paralisação e das facilidades desumanizantes, no cada vez mais comum construir de opiniões abdicando dos fatos. Nesse sentido, os fatos, o observar e analisar dos fatos, o formular de abstrações e teorias, passos iniciais e básicos do conhecimento, são cada vez mais ignorados e delegados a algoritmos.

Sim, há pouco o que comemorar. “E no entanto é preciso cantar”, disse o Vinicius na Marcha da quarta-feira de cinzas. Esse ano o dia dos professores é uma quarta, ponto facultativo no meio da semana, uma quarta de cinzas que se segue ao esgotamento, não à festa.

“Há tão grandes promessas de luz”, diz a mesma canção. É preciso acreditar nisso. É preciso alegrar a cidade. Conhecimento é gerado por dor, mas depois traz alegria. Na quarta de cinzas do professorado, em meio a tantos todavias, penso sempre nos porquês. Os porquês fazem cantar.

10 outubro 2025

Milton e memória

 


Leio nos jornais que Milton Nascimento foi diagnosticado com um tipo de demência de nome complicado que o choque e a tristeza da notícia não deixaram memorizar. Leio também, nas redes sociais do filho, o relato preciso e dolorido de que ele está nos deixando aos poucos, de suas dificuldades para comer e se comunicar.

Leio, leio, leio sobre o assunto até sentir algo que não sei definir bem, mas tem a ver com um certo inconformismo junto a uma tristeza e um adiantado e indevido pesar. Às perguntas que sucedem um diagnóstico trágico, não respondi nada; pensei em enunciá-las aqui, mas não combina com Milton essas indagações filosóficas de tristeza e revolta.

Então troquei o verbo. No lugar de ler, ouvir. Uma das minhas primeiras memórias musicais é de minha mãe cantarolando e me dizendo que amava Travessia. E foi justamente a essa canção que recorri para reafirmar quem é Milton Nascimento e tudo que aquele sorriso de oitenta e dois anos parece querer dizer, mesmo em meio a um diagnóstico cruel: soltar a voz nas estradas, não querer parar, ter muito o que viver.

A limitação física e cognitiva torna-se muito pequena diante de uma boa obra. E isso talvez seja um consolo: por tudo que vai nos legar, o Milton Nascimento que se perpetuará na memória coletiva de seu país e de seu povo é aquele da voz que leva à transcendência, das palavras que levam a um lugar que só se pode acessar por meio do que não é comezinho, não é ordinário, não é cotidiano.

A memória de Milton Nascimento, no fim das contas, talvez tenha de mais valioso exatamente isto: a capacidade de utilizar nosso cotidiano para nos levar além dele mesmo, abrir nossos olhos para enxergar Marias que têm fé na vida, ver o valor de forjar no trigo o milagre do pão.

Em meio ao caos de tudo o que de ruim traz uma notícia como essa, a voz de Milton continua sendo o nosso alento, nossa esperança, nossa dose certa de afeto em meio a máquinas, juros e diagnósticos ruins.

Há muito mais o eu escrever, mas além de eu não conseguir, não é necessário. É preciso, mais do que escrever, viver nossa consternação e lembrar que um grande artista está na sua limitação física e cognitiva mas, paradoxalmente, mais do que nunca na plenitude de sua memória: de tudo fazendo canção, faz resistir na boca da noite um gosto de sol.


03 outubro 2025

O sono e o tempo

 


Em semiótica, a teoria das representações, que estuda os signos em todas as suas formas e manifestações, um símbolo é um signo que se refere ao seu objeto, dentre outras coisas, por meio de uma relação culturalmente estabelecida. Ver um berço virar cama é, independente da relação culturalmente estabelecida, algo que irrompe em símbolo do tempo.

Aprendi que o tempo se mede mais ternamente nos filhos. Ver a minha engatinhar, andar, correr, falar, já era, intrinsecamente, uma sonante medida de tempo, melodiosa mesmo em seus ruídos conhecidos e inusitados, não contabilizados, mas sentidos – de uma forma quase medrosa sentidos.

Pensei muito sobre isso quando vi outra medida de tempo se formar pelas mãos do marceneiro: o berço sobre o qual me debrucei algumas noites para ver se ela respirava, se estava acordando, o quão profundamente dormia, reparar nos traços em que me reconhecia, estranhar aquele fruto da natureza humana a suspender o tempo e criar silêncio enquanto dormia. De repente, esse mesmo berço se transmutou em cama.

A metamorfose, acompanhada discretamente por mim na soleira da porta, revela muito sobre o tempo e sobre o quão desigualmente passa. O tempo, vale lembrar, nas palavras de Caetano, “um senhor tão bonito / como a cara do meu filho”, por meio daquelas madeiras em curiosa combinação me informava que não só a cara da minha filha, bonita sempre, havia mudado, mas também seu sono.

Alguém já havia me falado sobre os discretos abandonos – sim, não há outra palavra – que pais e mães são obrigados a fazer ao longo da vida: o desmame, o primeiro dia de aula, a primeira coleta de sangue para exames... tudo com muito choro. A primeira noite sozinha no quarto, já numa cama, é mais um abandono que se impõe: eu pensava nisso enquanto via aquela cama tomar forma, a empolgação de Alice, os últimos traços de bebê guardados para sempre junto àquelas peças do berço, já não mais necessárias para a cama.

E aí compreendi o gênesis, como tudo tomou forma, como uma nova realidade se fez pelo poder da chave de fenda, do martelo e da palavra. E aí o quarto já não mais o mesmo, a vida se metamorfoseia junto: há um novo símbolo pulsando na casa.

O símbolo do berço transformado em cama: o sono, o tempo e o afeto.


26 setembro 2025

Domingo em Copacabana

 

Não quero lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos. Por entre fotos e nomes, os olhos cheios de cores, o peito cheio de amores vãos é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte.

Quero lhe contar como eu vivi e tudo que aconteceu comigo. Atenção, precisa ter olhos pra este sol, para esta escuridão. Tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim um grande amor: mentira. Por isso, cuidado, meu bem, há perigo na esquina. Atenção para as janelas no alto, atenção ao pisar o asfalto, o mangue, atenção para o sangue sobre o chão.

O sol nas bancas de revista me enche de alegria e preguiça. Quem lê tanta notícia? Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos... ainda somos os mesmos. Gente jovem reunida na parede da memória: divino maravilhoso.

Enquanto todo mundo espera a cura do mal e a loucura finge que isso é normal, eu finjo ter paciência. Se você vier até onde a gente chegar, numa praça, na beira do mar, o Rio de Janeiro continua lindo, sem fome, sem telefone, no coração do Brasil. O sol é tão bonito, eu vou, nada no bolso ou nas mãos, eu quero seguir vivendo...

Como beber dessa bebida amarga? Quero lançar um grito desumano, que é uma maneira de ser escutado. Por que não? Você me pergunta pela minha paixão, digo que estou encantado como uma nova invenção. Eu vou ficar nesta cidade: cheiro de nova estação.

Já faz tempo, eu vi você na rua: num pedaço de qualquer lugar. E nesse dia branco não apareceu mais ninguém. Ah, coração leviano, não sabe o que fez do meu: este pobre navegante enfrentou a tempestade, foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar.

Se um dia meu coração for consultado, eu quero seguir vivendo, amor. Amanhã vai ser outro dia, eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia. Esse silêncio todo me atordoa, atordoado eu permaneço atento. Se você vier, pro que der e vier: na arquibancada, pra qualquer momento, ver emergir o monstro da lagoa.

Em caras de presidentes, e buzinando a moça e comandando a massa: meu caminho pelo mundo eu mesmo faço. Todo o povo brasileiro, aquele abraço. Pra você que me esqueceu, aquele abraço: apesar de você amanhã há de ser outro dia.

Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. Mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados do centro da cidade. Quando o grito do prazer açoitar o ar, réveillon, até gerar o som como querer Caetanear: o que há de bom. Estamos crescidos, estamos atentos, estamos mais vivos, estamos na luta pra sobreviver.

Um novo tempo. Quiçá, um dia, a fúria desse front. Talvez o mundo não seja pequeno, nem seja a vida um fato consumado: sempre um caminho que se deixa herança. O samba não vai morrer, veja, o dia ainda não raiou. Alô, moça da favela, todo mundo da Portela: quero sua risada mais gostosa, se você vier, eu lhe prometo o sol.

Nossos ídolos ainda são os mesmos, o novo sempre vem. Eu vou. Por que não? Atenção para o samba exaltação, pro palavrão, para a palavra de ordem: anistia é o caralho.


Fotografia

  Há uma fotografia minha – uma das poucas, bem verdade – de que gosto muito: estou parado, a seriedade disfarçando o orgulho do objeto que ...