25 junho 2026

O ET e o idiota

 


Desde o ET de Varginha que acho o brasileiro com um certo fetiche por seres extraterrestres. No ano em que se completam trinta anos do suposto encontro com o ET mineiro – que, como bom mineiro, evitou aparecer, desconversou e sumiu – um outro caso agora toma conta do noticiário tradicional, saindo do mundo etéreo das redes sociais: um influenciador (?) do Paraná supostamente filmou um OVNI (O fláVio bolsoNaro Interditou-se) ou algo parecido.

Fetiche. E como o do brasileiro também se estende às questões inúteis, pelo que andei vendo aqui e ali, agora há uma verdadeira cruzada sobre o caso do objeto não identificado – no caso o OVNI, não os outros 70 milhões que o Vorcaro prometeu ao Flávio. Tentam provar que ele mentiu – o influenciador, o Flávio já é certeza – ele tenta provar que não mentiu, vídeos e mais vídeos inundam a internet e a inutilidade toma conta de tudo.

“O brasileiro é um feriado”, já disse o Nelson Rodrigues. Eu acho que o brasileiro é também um fetichista. Tanto, tanto que vai além do OVNI: perpassa um talento nato que temos para alçar aos holofotes qualquer um que filme luzes, faça cara de medo e divulgue no mundo etéreo das redes sociais. O brasileiro, nesse sentido, é feriado, fetichista e cansativo (não achei outra palavra com f).

Estamos num ano muito atribulado, gente. É Copa, é Rock in Rio, é eleição, é vazamento do celular do Vorcaro. Não precisamos de OVNIS, precisamos de idiotas.

Explico: estou lendo, pela primeira vez, “O idiota”, de Dostoiévski. É um romance que conta uma história antiga e sempre inédita: a de um homem puro num mundo corrompido. E fatalmente a pergunta surge, impávida colosso: vale a pena ser puro e honesto num mundo de OVNIS sob suspeita e de 134 milhões para financiar um filme que é propaganda política?

Como ainda não cheguei ao final do romance, não sei a resposta. A única coisa a fazer, então, é terminar de ler o romance. E enquanto isso não acontece, há, eventualmente, outra coisa a se fazer: venha, me olhe nos olhos, me dê sua mão, sente aqui comigo. Estamos numa América Latina ameaçada e coagida pelo amigo do Epstein, estamos na República cuja elite estava na carteira de um banqueiro, estamos sendo controlados e manipulados por empresas de celerados – um deles, inclusive, que pensou que poderia ir para Marte, veja só...

Sentou? Está confortável? Agora olhe pro céu: vê algum OVNI? Eu não. Mas vejo uma epifania, uma revelação, uma imagem difusa que coloca Dostoievski numa nave brilhando e emitindo um sinal que apenas comecei a decifrar: somos todos idiotas.

O ET e o idiota

  Desde o ET de Varginha que acho o brasileiro com um certo fetiche por seres extraterrestres. No ano em que se completam trinta anos do sup...