Desde o ET de Varginha que acho o brasileiro com um
certo fetiche por seres extraterrestres. No ano em que se completam trinta anos
do suposto encontro com o ET mineiro – que, como bom mineiro, evitou aparecer,
desconversou e sumiu – um outro caso agora toma conta do noticiário
tradicional, saindo do mundo etéreo das redes sociais: um influenciador (?) do
Paraná supostamente filmou um OVNI (O fláVio bolsoNaro Interditou-se) ou algo
parecido.
Fetiche. E como o do brasileiro também se estende às
questões inúteis, pelo que andei vendo aqui e ali, agora há uma verdadeira
cruzada sobre o caso do objeto não identificado – no caso o OVNI, não os outros
70 milhões que o Vorcaro prometeu ao Flávio. Tentam provar que ele mentiu – o influenciador,
o Flávio já é certeza – ele tenta provar que não mentiu, vídeos e mais vídeos
inundam a internet e a inutilidade toma conta de tudo.
“O brasileiro é um feriado”, já disse o Nelson
Rodrigues. Eu acho que o brasileiro é também um fetichista. Tanto, tanto que vai
além do OVNI: perpassa um talento nato que temos para alçar aos holofotes
qualquer um que filme luzes, faça cara de medo e divulgue no mundo etéreo das
redes sociais. O brasileiro, nesse sentido, é feriado, fetichista e cansativo
(não achei outra palavra com f).
Estamos num ano muito atribulado, gente. É Copa, é
Rock in Rio, é eleição, é vazamento do celular do Vorcaro. Não precisamos de OVNIS,
precisamos de idiotas.
Explico: estou lendo, pela primeira vez, “O idiota”,
de Dostoiévski. É um romance que conta uma história antiga e sempre inédita: a
de um homem puro num mundo corrompido. E fatalmente a pergunta surge, impávida
colosso: vale a pena ser puro e honesto num mundo de OVNIS sob suspeita e de
134 milhões para financiar um filme que é propaganda política?
Como ainda não cheguei ao final do romance, não sei a
resposta. A única coisa a fazer, então, é terminar de ler o romance. E enquanto
isso não acontece, há, eventualmente, outra coisa a se fazer: venha, me olhe
nos olhos, me dê sua mão, sente aqui comigo. Estamos numa América Latina ameaçada
e coagida pelo amigo do Epstein, estamos na República cuja elite estava na
carteira de um banqueiro, estamos sendo controlados e manipulados por empresas
de celerados – um deles, inclusive, que pensou que poderia ir para Marte, veja
só...
Sentou? Está confortável? Agora olhe pro céu: vê
algum OVNI? Eu não. Mas vejo uma epifania, uma revelação, uma imagem difusa que
coloca Dostoievski numa nave brilhando e emitindo um sinal que apenas comecei a
decifrar: somos todos idiotas.

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