23 julho 2026

O tempo das palavras

 


As palavras têm um tempo. Como no Eclesiastes: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de calar e tempo de falar, tempo de guerra e tempo de paz. Em tempos de tantos juízes e tribunais autoproclamados, perdeu-se o direito de dizer bobagens: dependendo de quem se é, essas bobagens são amplificadas, jogadas aos quatro cantos do algoritmo e as sentenças se sucedem, implacáveis, sem retorno, sem desculpas.

João Bosco é o mais novo exemplo. Falou o que não devia ou falou da forma que não devia, e suas palavras reverberaram nos tribunais mais exaltados dos mais impolutos juízes, detentores da moral e da virtude mais inefáveis. Gol anulado, samba dele e de Aldir Blanc, fez o artista conhecer o cancelamento que seu filho, Francisco Bosco, conhece bem.

Em termos de música popular dos nossos octogenários a polêmica não é nova. O outro Francisco, o Buarque, já havia sido bastante cancelado nos dois lados: pelo romantismo “antiquado” de Tua cantiga e mais ainda quando declarou que não cantaria mais Com açúcar, com afeto – canção que retrata a submissão da mulher, feita a pedido de uma outra mulher nada submissa: Nara Leão.

As palavras têm um tempo. E Bosco pai parece ter esquecido disso e ficou à vontade demais em frente às câmeras. Ele tem razão, em parte. As canções simplesmente não deixam de existir e podem, sim, ser crônicas de um tempo que felizmente, hoje, pode ser debatido, questionado e criticado. Aliás, uma boa canção é isso: provocadora de debates, retrato de um tempo. E é possível defender um ponto de vista sem ofender a sensibilidade de ninguém, sem patologizar o oponente de ideias.

Acredito, sinceramente, que ainda que João tivesse usado palavras mais conciliadoras, cairia nos tribunais da internet. E o meu ponto é justamente esse: é possível discordar e criticar, por mais idiota que se ache o outro lado, sem chamar de idiota (a palavra ainda flutua na minha cabeça por culpa do Dostoievski que acabei de ler hoje).

As palavras têm um tempo. Quando perdem a validade, se tornam crônica. Quando bem utilizadas, se tornam argumento. Quando revestidas de ódio e bílis, se tornam nada.

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