As palavras têm um tempo. Como no Eclesiastes: tempo
de nascer e tempo de morrer, tempo de calar e tempo de falar, tempo de guerra e
tempo de paz. Em tempos de tantos juízes e tribunais autoproclamados, perdeu-se
o direito de dizer bobagens: dependendo de quem se é, essas bobagens são
amplificadas, jogadas aos quatro cantos do algoritmo e as sentenças se sucedem,
implacáveis, sem retorno, sem desculpas.
João Bosco é o mais novo exemplo. Falou o que não
devia ou falou da forma que não devia, e suas palavras reverberaram nos
tribunais mais exaltados dos mais impolutos juízes, detentores da moral e da
virtude mais inefáveis. Gol anulado, samba dele e de Aldir Blanc, fez o artista
conhecer o cancelamento que seu filho, Francisco Bosco, conhece bem.
Em termos de música popular dos nossos octogenários a polêmica não é nova. O outro Francisco, o Buarque, já havia sido bastante cancelado nos dois lados: pelo romantismo “antiquado” de Tua cantiga e mais ainda quando declarou que não cantaria mais Com açúcar, com afeto – canção que retrata a submissão da mulher, feita a pedido de uma outra mulher nada submissa: Nara Leão.
As palavras têm um tempo. E Bosco pai parece ter
esquecido disso e ficou à vontade demais em frente às câmeras. Ele tem razão,
em parte. As canções simplesmente não deixam de existir e podem, sim, ser
crônicas de um tempo que felizmente, hoje, pode ser debatido, questionado e
criticado. Aliás, uma boa canção é isso: provocadora de debates, retrato de um
tempo. E é possível defender um ponto de vista sem ofender a sensibilidade de ninguém,
sem patologizar o oponente de ideias.
Acredito, sinceramente, que ainda que João tivesse usado
palavras mais conciliadoras, cairia nos tribunais da internet. E o meu ponto é
justamente esse: é possível discordar e criticar, por mais idiota que se ache o
outro lado, sem chamar de idiota (a palavra ainda flutua na minha cabeça por
culpa do Dostoievski que acabei de ler hoje).
As palavras têm um tempo. Quando perdem a validade,
se tornam crônica. Quando bem utilizadas, se tornam argumento. Quando revestidas
de ódio e bílis, se tornam nada.

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