Há festa na cidade. Me disseram que a gente devia
ficar feliz: a maior de todos os tempos e etc. Eu tentei ficar feliz, mas
infelizmente tive um acesso de tosse devido à poeira, além de os artistas contratados
para os shows não terem sido escolhidos com base na diversidade da música
brasileira, mas apenas a modinha promovida pela indústria.
Me disseram que a gente devia ficar feliz: são cinco
dias de diversão. Mas o trânsito não deixa: os dois minutos que levo, de carro,
da minha casa ao centro, viraram vinte, as ruas são fechadas ou assaltadas
pelos coletes verdes que cobram vinte, trinta reais para deixar estacionar na
via pública, isso sem falar nos pobres portões de garagem obstruídos por gente
que tem o próprio umbigo como centro do universo.
Me disseram que a gente devia ficar feliz: ano
passado não teve festa, então é pra comemorar. Acontece que ano passado também
não teve teatro, não teve um grande evento dedicado à literatura, não teve show
de artista não industrial, não teve um documentário no nosso cinema. (Esse ano
e antes do ano passado, e antes de antes do ano passado também não teve teatro).
Me disseram que a gente devia ter um olhar otimista:
eleições cheias de fake News se aproximam, o super el niño se aproxima, o
laranjão quer subjugar a América Latina, mas temos festa na cidade. Eu tento,
juro que tento: penso nas exposições e no que de cultural pode ter na festa. O
problema é a poeira até chegar lá: o pó não faz feliz a minha rinite alérgica e
meu tênis preto.
Me deram motivos pelos quais a gente devia ficar
feliz. E eu tentei. Mas tenho amigos cujas vidas profissionais estão sendo
terrivelmente prejudicadas pela alegre festa que segue madrugada adentro
projetando as vozes dos cantores industriais.
Tudo somado, me sinto um casmurro: há festa na
cidade, mas é uma festa que não me faz feliz. Há festa na cidade, mas vejo
poucos motivos pra cidade festejar. Há festa na cidade, mas que serve de
anestesia.
Foi mal aí pela “bad vibes”, por “pesar o clima”,
pelo pessimismo da casmurrice. Ao fim e ao cabo desejo que a terra lhes seja
leve. Vamos à história triste dos subúrbios.

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