28 agosto 2026

Dori Caymmi e esperança

 


“Olha, quando chegar ‘Porto’ e ‘Alegre menina’, você já considerem que é o bis porque minha capacidade de locomoção está um pouco prejudicada”, ele disse no meio do show, bem ao estilo direto e objetivo da família. Família, aliás, está no título da série de quatro shows que Dori Caymmi e seu histórico bigode fizeram no projeto Terças no Ipanema.

“Por causa desses shows aqui no Rio estou me sentindo um ‘star’”, disse ele ao teatro lotado. Lotado de gente que, como ouvi na fila, estava indo ver um mito. Um mito de 82 anos, quase 83, cuja mão esquerda estava “gelada”, como definiu, que não tocou violão durante a execução de “Desenredo” “para não fazer merda”, como sinceramente admitiu. Um mito sobreposto ao palco com toda a força de sua história.

E foi de lá, do palco e da história, que Dori Caymmi mostrou mesmo que estava “Em Família”. Contou histórias do pai, Dorival, da mãe, Stella, e dos irmãos, Nada e Danilo. Encarnou o espírito sincero e à vontade que é marca da família Caymmi e divertiu a todos com a verborragia tão potente quanto sua voz. (Em tempo: se você nunca ouviu nenhum Caymmi, comece por alguma gravação de show da família, feche os olhos e ouça as vozes).

Eu precisei fechar os olhos várias vezes. Uma para ouvir com mais apuro o bigodão cantar “Velho piano”, outras porque eles estavam molhados e ardendo enquanto ouvia “Resposta ao tempo” e “Andança”, clássicos máximos dos irmãos. Difícil mesmo foi “João Valentão” e a letra que Dori mudou para “E assim adormece meu velho / Que nunca precisa dormir pra sonhar”. Não sei se foi a lembrança do meu velho, que também adormece, ou a voz, ou o violão, ou qualquer outra coisa inexplicável da arte: o fato é que saí desidratado.

Isso não se deve, claro, a pouca coisa: naquele palco foram executadas canções como “Desenredo”, “Porto”, “Alegre menina”, “Delicadeza” e “Rio amazonas”. As lágrimas, no entanto, também foram de rir nas partes em que Dori fez comentários sobre certos políticos com palavrões tão imponentes como seu bigode. “Estou falando essas coisas, com essa liberdade, porque amanhã faço 83 anos”. E antes do número final, o clássico parabéns, as palmas, o bolo simbólico. E de repente, quase sem sentir o tempo passar, aquelas quase duas horas foram encerradas com a “Canção da partida”, do Caymmi pai, e Dori, com ajuda, levantou-se para se despedir do público e do show, último da série.

Na porta do teatro, enquanto esperava o carro de aplicativo, um velhinho chorava, acompanhado da esposa. Trocamos um olhar, um sorriso e eu compreendi: só a música e a só a música de um mito pode unir pessoas de gerações e classes sociais tão diferentes. Eu entrei no carro e voltei para tão, tão distante pensando nisso: o show de Dori, de Dori e sua família, de Dori e sua história, são como aquele verso de uma canção sua: “O bem que uma esperança traz”. Eu vivenciei – e por isso chorei – quase duas horas de bem e de esperança.

22 agosto 2026

Apologia do botequim

 


Engana-se quem pensa que não existe diferença entre bar e botequim. As diferenças já começam etimologicamente: enquanto “bar” vem do inglês bar, que significa “barra” ou “obstáculo”, o termo “botequim” vem do grego apothéke, que quer dizer “depósito”, meio aparentada da palavra “botica”, nome antigo de farmácia. Há uma diferença fundamental entre obstáculo e farmácia, não?

Mas não acaba aí. O que distingue um botequim de um bar é sobretudo a originalidade: enquanto o bar busca atender as demandas da moda e da indústria, buscando cada vez mais ser “moderninho”, o botequim conserva a aparência e o ritmo lento, profundo e necessário de tempos imemoriais.

E há mais. É só no botequim que as mesas são do tamanho de mesas e congregam em torno de si pessoas sentadas – a única posição possível para quem quer, por algum tempo, esquecer que existem relógio, trânsito e extrema direita; para quem quer conversar com o outro como nos tempos imemoriais, sem a mediação do celular. Para essas pessoas, só uma cadeira e uma mesa tradicionais, de ferro ou de plástico, restando a abominação para as mesas altas que nos fazem ficar de pé, torres de ignorância e de separação.

A conversa, aliás, é o cerne, a razão de ser do botequim. É para a conversa e em tono da conversa que o botequim existe. Por isso esse quase templo realiza um feito que nenhuma revolução conseguiu: é o único lugar em que as classes sociais não entram, em que as armas são depostas, em que só há uma única e encardida bandeira: a da igualdade.

Por se constituir em torno do diálogo – ainda que molhado e embargado –, o botequim é o único lugar do mundo em que a boa música pode não ser ouvida, pode servir de pano de fundo para a verdadeira celebração que acontece ali: a arte do encontro em meio a tanto desencontro pela vida, como diria o Vinicius, autor em estado de botequim.

Entretanto, como é fácil concluir, ninguém vai ao botequim apenas para conversar, mas também para comer e beber, ou mais precisamente para beber e comer, porque até a sintaxe do botequim é única. Considerando esse fato, a temperatura é sempre mais importante que a estética – o gelado ao que é de gelado, o quente ao que é de quente – e as opções limitadas liberam mais tempo para o ato de parlar, além de nomes genuinamente brasileiros, de preferência no diminutivo – longa vida aos nossos caldos de quenga e bolinhos.

Mais não é necessário dizer. Só a etimologia bastava. O botequim é cura. O botequim é o microcosmo de um mundo que é forçado a deixar de existir, mas que resiste nesse espaço que nos faz mais brasileiros.

14 agosto 2026

Uma pergunta

 


Escrever é diferente de escrever. E espanta o fato de que no maravilhoso e distópico século XXI, em que máquinas já pensam e enfileiram palavras por nós, um ser humano ainda sente numa cadeira – ou que fique em pé mesmo, como Hemingway – e escreva, enfileire palavras num papel físico ou virtual, se disponha a organizar pensamentos, disciplinar ideias, compor distopias ainda mais absurdas que as nossas.

Ferreira Gullar disse que o Eliot disse que escrever é fugir da emoção. Considerando que não é por profissão, por dinheiro ou imposição, se um ser humano desse planetinha tão simpático senta para escrever – ou o faz em pé mesmo – pode estar fugindo ou domesticando sua emoção para melhor conviver com ela.

Fernando Sabino define como um ato extremamente solitário. E escritor, sozinho, é feito um demônio: ama apenas a si mesmo. Gosto da metáfora, embora eu ache que seja o contrário: o dilema do escritor é querer sair de si mesmo, ser outro(s), em outras terras, outros tempos, outros outros. A alteridade é o paradoxo do ser que, sozinho, escreve: só é possível alcançar o outro por meio de papel e palavras.

Eu me pus a pensar sobre essas platitudes quando, hoje, me perguntaram se eu escrevia poemas. E gostei de lembrar do tempo em que os escrevia e, pior, acreditava neles. Acreditava tanto que os dividia em livros, cujos títulos eu muito elaborava, e quando alcançavam várias folhas manuscritas, o suficiente para um magro volume, eu me sentia Vinicius de Moraes.

Muitos anos depois, lendo a biografia de Vinicius, descobri que ele também tinha esses arroubos, escrevia poemas aos quais atribuía enorme importância e chegou a organizar um volume com as suas poesias completas. Embora houvesse nessa descoberta um pequeno e humorístico lastro de semelhança, há só uma e colossal diferença: ele era Vinicius de Moraes.

Como eu não sou, a poesia abriu as portas do mundo da escrita para mim, mas logo foi embora, me inundando, mansamente, com a certeza de que poetas não são ordinários.

Mas eu sou. Tanto que sigo à risca o estereótipo: escrevo em minha mesa, à mão, no silêncio das oito horas da noite, numa cidade desimportante de um país tropical da América Latina, depois de um dia de trabalho, de pagar contas, de agendar com a oficina o reparo do carro, depois de evitar discutir política, depois de domesticar e subjugar a paixão.

Num mundo em que tudo passou a ser “hiperfoco”, eu escrevo por isso, pelo vocabulário que está deixando de existir, mas que só ele consegue dar conta de justificar esse feito: interesse, curiosidade, necessidade, paixão.


Fotografia

  Há uma fotografia minha – uma das poucas, bem verdade – de que gosto muito: estou parado, a seriedade disfarçando o orgulho do objeto que ...