14 agosto 2026

Uma pergunta

 


Escrever é diferente de escrever. E espanta o fato de que no maravilhoso e distópico século XXI, em que máquinas já pensam e enfileiram palavras por nós, um ser humano ainda sente numa cadeira – ou que fique em pé mesmo, como Hemingway – e escreva, enfileire palavras num papel físico ou virtual, se disponha a organizar pensamentos, disciplinar ideias, compor distopias ainda mais absurdas que as nossas.

Ferreira Gullar disse que o Eliot disse que escrever é fugir da emoção. Considerando que não é por profissão, por dinheiro ou imposição, se um ser humano desse planetinha tão simpático senta para escrever – ou o faz em pé mesmo – pode estar fugindo ou domesticando sua emoção para melhor conviver com ela.

Fernando Sabino define como um ato extremamente solitário. E escritor, sozinho, é feito um demônio: ama apenas a si mesmo. Gosto da metáfora, embora eu ache que seja o contrário: o dilema do escritor é querer sair de si mesmo, ser outro(s), em outras terras, outros tempos, outros outros. A alteridade é o paradoxo do ser que, sozinho, escreve: só é possível alcançar o outro por meio de papel e palavras.

Eu me pus a pensar sobre essas platitudes quando, hoje, me perguntaram se eu escrevia poemas. E gostei de lembrar do tempo em que os escrevia e, pior, acreditava neles. Acreditava tanto que os dividia em livros, cujos títulos eu muito elaborava, e quando alcançavam várias folhas manuscritas, o suficiente para um magro volume, eu me sentia Vinicius de Moraes.

Muitos anos depois, lendo a biografia de Vinicius, descobri que ele também tinha esses arroubos, escrevia poemas aos quais atribuía enorme importância e chegou a organizar um volume com as suas poesias completas. Embora houvesse nessa descoberta um pequeno e humorístico lastro de semelhança, há só uma e colossal diferença: ele era Vinicius de Moraes.

Como eu não sou, a poesia abriu as portas do mundo da escrita para mim, mas logo foi embora, me inundando, mansamente, com a certeza de que poetas não são ordinários.

Mas eu sou. Tanto que sigo à risca o estereótipo: escrevo em minha mesa, à mão, no silêncio das oito horas da noite, numa cidade desimportante de um país tropical da América Latina, depois de um dia de trabalho, de pagar contas, de agendar com a oficina o reparo do carro, depois de evitar discutir política, depois de domesticar e subjugar a paixão.

Num mundo em que tudo passou a ser “hiperfoco”, eu escrevo por isso, pelo vocabulário que está deixando de existir, mas que só ele consegue dar conta de justificar esse feito: interesse, curiosidade, necessidade, paixão.


Uma pergunta

  Escrever é diferente de escrever. E espanta o fato de que no maravilhoso e distópico século XXI, em que máquinas já pensam e enfileiram pa...