Engana-se quem pensa que não existe diferença entre
bar e botequim. As diferenças já começam etimologicamente: enquanto “bar” vem
do inglês bar, que significa “barra” ou “obstáculo”, o termo “botequim” vem
do grego apothéke, que quer dizer “depósito”, meio aparentada da palavra
“botica”, nome antigo de farmácia. Há uma diferença fundamental entre obstáculo
e farmácia, não?
Mas não acaba aí. O que distingue um botequim de um
bar é sobretudo a originalidade: enquanto o bar busca atender as demandas da
moda e da indústria, buscando cada vez mais ser “moderninho”, o botequim
conserva a aparência e o ritmo lento, profundo e necessário de tempos
imemoriais.
E há mais. É só no botequim que as mesas são do
tamanho de mesas e congregam em torno de si pessoas sentadas – a única posição
possível para quem quer, por algum tempo, esquecer que existem relógio,
trânsito e extrema direita; para quem quer conversar com o outro como nos
tempos imemoriais, sem a mediação do celular. Para essas pessoas, só uma
cadeira e uma mesa tradicionais, de ferro ou de plástico, restando a abominação
para as mesas altas que nos fazem ficar de pé, torres de ignorância e de
separação.
A conversa, aliás, é o cerne, a razão de ser do botequim.
É para a conversa e em tono da conversa que o botequim existe. Por isso esse quase
templo realiza um feito que nenhuma revolução conseguiu: é o único lugar em que
as classes sociais não entram, em que as armas são depostas, em que só há uma
única e encardida bandeira: a da igualdade.
Por se constituir em torno do diálogo – ainda que
molhado e embargado –, o botequim é o único lugar do mundo em que a boa música
pode não ser ouvida, pode servir de pano de fundo para a verdadeira celebração
que acontece ali: a arte do encontro em meio a tanto desencontro pela vida,
como diria o Vinicius, autor em estado de botequim.
Entretanto, como é fácil concluir, ninguém vai ao
botequim apenas para conversar, mas também para comer e beber, ou mais
precisamente para beber e comer, porque até a sintaxe do botequim é única.
Considerando esse fato, a temperatura é sempre mais importante que a estética –
o gelado ao que é de gelado, o quente ao que é de quente – e as opções
limitadas liberam mais tempo para o ato de parlar, além de nomes genuinamente
brasileiros, de preferência no diminutivo – longa vida aos nossos caldos de
quenga e bolinhos.
Mais não é necessário dizer. Só a etimologia bastava.
O botequim é cura. O botequim é o microcosmo de um mundo que é forçado a deixar
de existir, mas que resiste nesse espaço que nos faz mais brasileiros.

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