22 agosto 2026

Apologia do botequim

 


Engana-se quem pensa que não existe diferença entre bar e botequim. As diferenças já começam etimologicamente: enquanto “bar” vem do inglês bar, que significa “barra” ou “obstáculo”, o termo “botequim” vem do grego apothéke, que quer dizer “depósito”, meio aparentada da palavra “botica”, nome antigo de farmácia. Há uma diferença fundamental entre obstáculo e farmácia, não?

Mas não acaba aí. O que distingue um botequim de um bar é sobretudo a originalidade: enquanto o bar busca atender as demandas da moda e da indústria, buscando cada vez mais ser “moderninho”, o botequim conserva a aparência e o ritmo lento, profundo e necessário de tempos imemoriais.

E há mais. É só no botequim que as mesas são do tamanho de mesas e congregam em torno de si pessoas sentadas – a única posição possível para quem quer, por algum tempo, esquecer que existem relógio, trânsito e extrema direita; para quem quer conversar com o outro como nos tempos imemoriais, sem a mediação do celular. Para essas pessoas, só uma cadeira e uma mesa tradicionais, de ferro ou de plástico, restando a abominação para as mesas altas que nos fazem ficar de pé, torres de ignorância e de separação.

A conversa, aliás, é o cerne, a razão de ser do botequim. É para a conversa e em tono da conversa que o botequim existe. Por isso esse quase templo realiza um feito que nenhuma revolução conseguiu: é o único lugar em que as classes sociais não entram, em que as armas são depostas, em que só há uma única e encardida bandeira: a da igualdade.

Por se constituir em torno do diálogo – ainda que molhado e embargado –, o botequim é o único lugar do mundo em que a boa música pode não ser ouvida, pode servir de pano de fundo para a verdadeira celebração que acontece ali: a arte do encontro em meio a tanto desencontro pela vida, como diria o Vinicius, autor em estado de botequim.

Entretanto, como é fácil concluir, ninguém vai ao botequim apenas para conversar, mas também para comer e beber, ou mais precisamente para beber e comer, porque até a sintaxe do botequim é única. Considerando esse fato, a temperatura é sempre mais importante que a estética – o gelado ao que é de gelado, o quente ao que é de quente – e as opções limitadas liberam mais tempo para o ato de parlar, além de nomes genuinamente brasileiros, de preferência no diminutivo – longa vida aos nossos caldos de quenga e bolinhos.

Mais não é necessário dizer. Só a etimologia bastava. O botequim é cura. O botequim é o microcosmo de um mundo que é forçado a deixar de existir, mas que resiste nesse espaço que nos faz mais brasileiros.

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