O domingo é, desde sempre, um dia algo injustiçado:
por anteceder a clichê segunda-feira, sua chegada – sobretudo seguida de um feriadão
– tem no Brasil um ar triste e quase mórbido de uma despedida. Por sua noite, -
antes sinônimo de um programa de uma TV com fetiches por cadeiras vazias em
debates – seu dia se torna quase ignorado e aborrecido. É preciso reparar essa
injustiça.
O domingo é, sobretudo, um marco político da semana.
É o dia mais excluído da escala 6x1, é o dia em que o trabalhador coloca em
prática o que por aí se chama de “hobbies”, mas que eu prefiro chamar de
prazer. Num mundo e num tempo em que se celebra a produtividade incessante,
separar um dia para o prazer é não só marco político como afirmei acima, mas também
um ato de resistência a quem quer usar máquinas para nos fazer de máquinas.
O domingo é, por isso, a entidade do acolhimento.
Nele cabe tudo o que todo ser humano considera prazer: feira, churrasco,
pastel, futebol, fórmula 1, pescaria, baralho, dominó, show, teatro, cinema,
leitura e macarrão. O domingo é a panaceia que nos faz seres humanos que guardam
tempo para o que é inútil, inclusive para o tão recriminado ócio – que, a
propósito, não precisa ser sempre criativo.
O domingo se torna, assim, um dia santo. Um dia de
todos os cultos, todas as religiões, todas as crenças: o domingo se propaga, se
dissemina pelos outros dias da semana, como nos versos de Tom Jobim: “Todo dia
é dia santo / todo santo dia”. E se todo dia é dia santo, todo dia é um dia de
domingo, todo dia ainda é cedo. Mas nem tanto.
O domingo, dia em que saímos de casa para eleger quem
nos representa e governa desde 1989, a partir de 2018 também se tornou dia de
uma trágica eleição, de manifestações golpistas nos anos seguintes, de gente
bandida querendo voltar a nos representar e governar.
“Porque hoje é sábado”, escreveu Vinicius de Moraes, “há
um alvorecer de esperanças”. Não só porque amanhã é domingo, mas porque amanhã
um operário nordestino pode, historicamente, ser eleito para nos representar e
governar – na última vez e nessa vencendo também o golpismo interno e estrangeiro.
O domingo, amanhã, 04
de outubro de 2026, é o futuro. Será mais um típico domingo brasileiro e
pode ser também um domingo histórico, em que um candidato que estava lá naquele
domingo de 1989 estará no domingo de amanhã, se tudo der certo, eleito para
presidir o país – pela quarta vez fazendo opção pelos pobres.
Mas o futuro só a Deus pertence, como diz o povo. A
mim, que sou parte do povo de um país democrático, portanto com direito a essa
opinião, só resta acreditar. A mim, que nasci naquele distante 1989, é dever
levar meu futuro, minha filha, como levei em 2022, amanhã, para mais uma vez
votar contra o golpismo e a ignorância.

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