“Olha, quando chegar ‘Porto’ e ‘Alegre menina’, você
já considerem que é o bis porque minha capacidade de locomoção está um pouco prejudicada”,
ele disse no meio do show, bem ao estilo direto e objetivo da família. Família,
aliás, está no título da série de quatro shows que Dori Caymmi e seu histórico
bigode fizeram no projeto Terças no Ipanema.
“Por causa desses shows aqui no Rio estou me sentindo
um ‘star’”, disse ele ao teatro lotado. Lotado de gente que, como ouvi na fila,
estava indo ver um mito. Um mito de 82 anos, quase 83, cuja mão esquerda estava
“gelada”, como definiu, que não tocou violão durante a execução de “Desenredo” “para
não fazer merda”, como sinceramente admitiu. Um mito sobreposto ao palco com
toda a força de sua história.
E foi de lá, do palco e da história, que Dori Caymmi
mostrou mesmo que estava “Em Família”. Contou histórias do pai, Dorival, da
mãe, Stella, e dos irmãos, Nada e Danilo. Encarnou o espírito sincero e à
vontade que é marca da família Caymmi e divertiu a todos com a verborragia tão
potente quanto sua voz. (Em tempo: se você nunca ouviu nenhum Caymmi, comece
por alguma gravação de show da família, feche os olhos e ouça as vozes).
Eu precisei fechar os olhos várias vezes. Uma para
ouvir com mais apuro o bigodão cantar “Velho piano”, outras porque eles estavam
molhados e ardendo enquanto ouvia “Resposta ao tempo” e “Andança”, clássicos
máximos dos irmãos. Difícil mesmo foi “João Valentão” e a letra que Dori mudou
para “E assim adormece meu velho / Que nunca precisa dormir pra sonhar”. Não
sei se foi a lembrança do meu velho, que também adormece, ou a voz, ou o
violão, ou qualquer outra coisa inexplicável da arte: o fato é que saí desidratado.
Isso não se deve, claro, a pouca coisa: naquele palco
foram executadas canções como “Desenredo”, “Porto”, “Alegre menina”, “Delicadeza”
e “Rio amazonas”. As lágrimas, no entanto, também foram de rir nas partes em
que Dori fez comentários sobre certos políticos com palavrões tão imponentes
como seu bigode. “Estou falando essas coisas, com essa liberdade, porque amanhã
faço 83 anos”. E antes do número final, o clássico parabéns, as palmas, o bolo
simbólico. E de repente, quase sem sentir o tempo passar, aquelas quase duas
horas foram encerradas com a “Canção da partida”, do Caymmi pai, e Dori, com
ajuda, levantou-se para se despedir do público e do show, último da série.
Na porta do teatro, enquanto esperava o carro de
aplicativo, um velhinho chorava, acompanhado da esposa. Trocamos um olhar, um
sorriso e eu compreendi: só a música e a só a música de um mito pode unir
pessoas de gerações e classes sociais tão diferentes. Eu entrei no carro e
voltei para tão, tão distante pensando nisso: o show de Dori, de Dori e sua
família, de Dori e sua história, são como aquele verso de uma canção sua: “O
bem que uma esperança traz”. Eu vivenciei – e por isso chorei – quase duas
horas de bem e de esperança.

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