26 outubro 2025

Estranho

 

N’A Metamorfose, Kafka descreve um sujeito que acorda transformado num inseto “monstruoso”, segundo algumas traduções. O personagem não vive, no choque da constatação, a experiência do estranhamento; pensa que está atrasado para o trabalho, pensa em pragmatismos que no início do século XX já eram imperativos categóricos de uma vida vivida em dias úteis e horário comercial.

Kafka, ele mesmo, um estranho. Um estranho que noivava e desnoivava por cartas, que criava mundos sem saída e sem solução no escuro de seu quarto, entre suas confissões: Kafka produzia ficção no meio de seus diários. Deixou poucos livros concluídos, mandou queimar tudo que escreveu antes de morrer.

Sei que é arriscado trabalhar com o “Se” (só Djavan fez isso muito bem), mas hoje, no intervalo entre as aulas do dia, fiquei pensando em Kafka no nosso mundinho desumanizante, em como descreveria máquinas que pensam e escrevem por nós; em como julgaria nossa necessidade estranha de nos expor, nos mostrar, exibir desde comida a lugares, de uma selfie sem sentido a festas sem sentido.

Tenho a impressão de que Kafka, como seu personagem, não viveria a experiência do estranhamento como choque: perscrutaria as redes sociais com um olhar quase científico, abriria sorrisos irônicos face a nossos textões cheios de certezas absolutas e monopólios da virtude.

Tenho a impressão também de que nós, desumanizados, como que inconscientemente abrimos mão da experiência do choque para normalizar o absurdo sem traumas, para nos adequarmos ao “todo mundo faz” sem nos sentirmos ridículos, para anestesiar o vazio preenchendo-o com time lines infinitas e repletas de falsificações. Ultimamente ando escrevendo muito sobre minhas impressões. Isso é um pouco clichê e desnecessário, eu sei, mas os tempos são tão estranhos que em nossa marcha para o progresso, muitos de nós estão desesperadamente buscando o retorno.

O retorno em experiências. Leio por aí que estamos voltando aos discos de vinil, às máquinas fotográficas analógicas, à escrita à mão. Soa estranho pensar que estamos voltando ao mundo de Kafka porque, tal como Gregor Samsa (o inseto gigante), fomos metamorfoseados em amontoados de dados utilizados por grandes corporações que nos manipulam e vendem. O retorno é uma forma de salvação.

E – ironia das ironias – o saudável é o antigo, o trabalhoso, o analógico: o (im)possível retorno a um tempo em que não éramos obrigados a saber e opinar sobre tudo e que, tornando-nos estranhos, alienados, o saudável é sermos limitados a uma quantidade de canções específicas e prestarmos atenção a todas elas, por exemplo.

Há um trecho n’A Metamorfose que é digno de nota: o grande inseto, ouvindo sua irmã tocar violino, fala por meio do discurso indireto livre algo assim: “Seria ele um animal, já que a música o emocionava tanto?”. Sensação de estranhamento. Fico muito feliz quando consigo questionar se sou mesmo esse consumidor de time line infinita enquanto há música, literatura e tanta coisa, tanta gente pronta a emocionar tanto.

E é uma vitória satisfatória: sou um estranho. Um pouco mais que o normal, talvez. Mas de um estranhamento salpicado de liberdade.

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