26 fevereiro 2026

O jardineiro

 

Tomo café com um casal de amigos no templo capitalista que é o shopping da minha cidade. Conversamos amenidades até que a literatura e a escrita entram na roda. Livros que seriam interessantes para a leitura dos alunos, breves comentários sobre uma coisa ou outra até que meu amigo e eu caímos sobre modos de escrita ou, mais precisamente, os modos como nós escrevemos.

Comentei sobre o presente que ganhei de uma colega de trabalho, uma caneta tinteiro, e o hábito que já havia retomado de escrever à mão. Face a seu espanto, meu amigo disse que já estava no século XXI e o computador era sua principal ferramenta de trabalho. “O senhor é um jardineiro”, me disse ele, e desde então a frase fixou-se na memória.

A metáfora da jardinagem – creio – não diz respeito só ao vagar do tempo num ritmo não acelerado, não otimizado: tem a ver, sobretudo, com uma prática manual que, de maneira deliberada, não se troca por uma máquina. A frase é do cientista Miguel Nicolelis: “A conveniência está matando a agência”. Para muito além do ato de escrever – não vos recrimino, oh vós que escreveis em máquinas do século XXI – nós estamos sendo formados e educados para um mundo em que os jardineiros estão perdendo lugar para uma automação cada vez mais paralisante.

Sim, eu já falei desse assunto por aqui e sei que estou me repetindo – outro pecado capital para um mundo viciado em constantes novidades, que considera como pecado mortal a repetição, a reiteração, a revisão. Faço jus, assim, ao meu tão honrado título: minha jardinagem é esta, como diria o Nelson Rodrigues, “flor de obsessão”: repetir à exaustão e à mão que precisamos otimizar menos e plantar mais.

Como estamos no terreno pantanoso das metáforas, você escolhe sobre o que plantar. O importante é não fazer do tempo e da vida uma corrida cega em busca de ganhar tempo para não saber o que fazer com ele e desperdiçá-lo na frente de uma tela. É preciso, como disse o Vinicius de Moraes num polêmico poema, “Que haja / qualquer coisa de flor em tudo isso”. O mesmo Vinicius que nomeou um de seus livros como “Para uma menina com uma flor” e que fez canções como “Morena flor” e “O velho e a flor”.

Sim, eu sei, é muita flor para um só autor. Mas combina com este opúsculo o poeta que é o anti-digital por excelência, e que é o necessário para um tempo e uma cultura cada vez mais necessitados de jardins.


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