16 abril 2026

Pai, moça, feijão

 


Chego mais cedo do trabalho, vou cozinhar. Como de costume, Alice lança mão de sua cadeirinha, anuncia que vai me “ajudar” e pega seus copos de plástico e suas duas colheres para cozinhar algo que até hoje ela não me disse o que é. Cenário pronto, só falta a trilha sonora, que hoje é o disco Poeta, moça e violão, registro do show de Clara Nunes, Toquinho e Vinicius de Moraes no Teatro Castro Alves, na Bahia, em 1973.

A primeira faixa é o poema Pátria Minha, recitado pela voz quase rouca do poeta. Enquanto Vinicius fala de sua pátria, Alice esquece dos copos e das colheres para brincar com a seringa do antibiótico ministrado de doze em doze horas. Alice, que saiu ontem do hospital depois de longos cinco dias em virtude de um pulmão que ainda está se acertando com o outono, ignora o poema porque encher e esvaziar a seringa parece bem mais interessante.

Tão interessante que me desligo do feijão que tempero para observar seus movimentos, que agora imitam o de uma exigente médica que aplica injeções na minha mão, barriga e batata da perna. Se eu não finjo dor, ela briga, então eu finjo – finjo mesmo, porque a alegria daquela mocinha na cozinha, bem, sorrindo, transborda tal qual a panela tampada do arroz. É uma alegria tão sincera que nem me desespera o fato de ela estar molhando tudo – isso sem contar o quarto, que já parece cenário de guerra.

O disco mistura gêneros e compositores, mescla poemas, poemas musicados, e as três vozes ecoam enquanto o alho dourando do feijão estala e cheira, enquanto o frango também cheira fritando, enquanto seco o chão que Alice pretende transformar numa espécie de piscinão de Ramos.

E aí eu entendo. Não é necessário muita coisa. Tenho pensado muito sobre as coisas e de repente enxergo o sublime na minha cozinha, com cheiro de alho dourando e uma criança que, liberta da prisão de um hospital, volta a demonstrar sua urgência de vida com água, grito e sorriso. Tudo isso, claro, ao som do poeta, da moça e do violão. E eu me sinto privilegiado nessa quarta-feira à noite, nessa cena improvisada de pai, moça e feijão.


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