Chego mais cedo do trabalho, vou cozinhar. Como de
costume, Alice lança mão de sua cadeirinha, anuncia que vai me “ajudar” e pega
seus copos de plástico e suas duas colheres para cozinhar algo que até hoje ela
não me disse o que é. Cenário pronto, só falta a trilha sonora, que hoje é o
disco Poeta, moça e violão, registro do show de Clara Nunes, Toquinho e
Vinicius de Moraes no Teatro Castro Alves, na Bahia, em 1973.
A primeira faixa é o poema Pátria Minha,
recitado pela voz quase rouca do poeta. Enquanto Vinicius fala de sua pátria,
Alice esquece dos copos e das colheres para brincar com a seringa do
antibiótico ministrado de doze em doze horas. Alice, que saiu ontem do hospital
depois de longos cinco dias em virtude de um pulmão que ainda está se acertando
com o outono, ignora o poema porque encher e esvaziar a seringa parece bem mais
interessante.
Tão interessante que me desligo do feijão que tempero
para observar seus movimentos, que agora imitam o de uma exigente médica que
aplica injeções na minha mão, barriga e batata da perna. Se eu não finjo dor,
ela briga, então eu finjo – finjo mesmo, porque a alegria daquela mocinha na
cozinha, bem, sorrindo, transborda tal qual a panela tampada do arroz. É uma
alegria tão sincera que nem me desespera o fato de ela estar molhando tudo –
isso sem contar o quarto, que já parece cenário de guerra.
O disco mistura gêneros e compositores, mescla
poemas, poemas musicados, e as três vozes ecoam enquanto o alho dourando do
feijão estala e cheira, enquanto o frango também cheira fritando, enquanto seco
o chão que Alice pretende transformar numa espécie de piscinão de Ramos.
E aí eu entendo. Não é necessário muita coisa. Tenho
pensado muito sobre as coisas e de repente enxergo o sublime na minha cozinha,
com cheiro de alho dourando e uma criança que, liberta da prisão de um
hospital, volta a demonstrar sua urgência de vida com água, grito e sorriso.
Tudo isso, claro, ao som do poeta, da moça e do violão. E eu me sinto
privilegiado nessa quarta-feira à noite, nessa cena improvisada de pai, moça e
feijão.

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