Já é abril, mas é sempre tempo de falar de Águas
de Março, uma das dez melhores canções do século XX segundo o crítico
americano Leonard Feather; o samba mais bonito do mundo, segundo Arthur Nestrovski.
Não me lembro de um março em que a canção não seja citada em meio a uma chuva –
ou, como é mais comum no Rio de Janeiro, tempestade.
Leio por aí que acaba de sair pela Editora 34 um
livro com três ensaios sobre a canção, um deles assinado pelo já citado
Nestrovski. Leio e penso no quanto essa canção, composta em 1971, ainda provoca
reflexões ou inflexões. Não à toa: é uma canção de ruptura, de guinada, de
fratura.
Leio na biografia de Tom, escrita por sua irmã,
Helena Jobim, que a canção nasceu no sítio da família, em Poço Fundo, numa
madrugada, num gesto, com a letra escrita em papel de pão. Tom estava
trabalhando em outra música, Matita Perê, e, cansado do trabalho em
andamento, sentiu “brotar” as águas. Tal como Ari Barroso ao compor Aquarela
do Brasil, foi correndo à família mostrar: “Olha o que eu fiz!”.
Talvez pressentisse que as águas inundariam tudo, que
ficariam mais famosas que sua companheira Matita, que percorreria o
mundo em gravações e idiomas impossíveis de contar – já a ouvi até em hebraico.
Embora a versão clássica seja de 1974, do disco Elis
& Tom, Águas de Março começou sua carreira bem modestamente: Tom
a gravou em 1972 num compacto de duas músicas intitulado Um tom de Tom Jobim
e um tal de João Bosco, no qual o já consagrado Jobim apresentava o
iniciante Bosco, que gravou Agnus Dei em sua faixa. Depois apareceu em
novo arranjo como a segunda faixa do LP Matita Perê, de 1973, até
alcançar o sublime no badalado e documento disco com Elis Regina – com direito
ao pio do Matita Perê na introdução.
Mas eu falava do livro Águas de Março – sobre a
canção de Tom Jobim. Como reúne gente da pesada, não tenho dúvida sobre a qualidade
e com certeza vou lê-lo. Queria só registrar que o livro é só mais um pau ou
pedra que marca um caminho ainda muito, muito longe do fim.
Acho que Tom ficaria feliz de saber que muitos,
muitos brasileiros lembram de seu refrão quando veem a natureza em plena
potência. E quando uma canção se faz lembrar assim, na memória afetiva de um
povo, é porque repete o que seu próprio refrão diz: é promessa de vida em cada
coração.

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