09 novembro 2025

Escrever à mão

 


Falei outro dia sobre retornos e citei o escrever à mão como um deles. Recebi alguns “poréms” no sentido de “Como assim? Escrevo à mão na escola, no trabalho...”. Há controvérsias. Escreve-se à mão na escola quase sempre apenas como exercício de cópia ou nas avaliações, quase nunca para sistematizar, por conta própria, informações enquanto se assiste a uma aula ou para resumir um conteúdo, ou para acompanhar a leitura de um texto.

José Miguel Wisnik sintetiza bem essa impressão ao comentar, num programa no Youtube, que há muito tempo não escrevia à mão e acha meio absurdo alguém fazer isso, escrever um livro ou um ensaio à mão quando a tela do computador é um recurso que mantém um texto sempre limpo e editável, sempre em sua melhor versão.

Acho que abandonar o hábito de escrever à mão tem muito a ver com essa disposição sempre limpa e editável que o digital exige de nós: precisamos estar sempre prontos a refazer e esconder os riscados, os erros, a letra feia, a frase torta, a palavra ou parágrafo abandonados.

Tudo que se revela quando escrevemos à mão. E essas revelações dão a noção de uma espécie de “laboratório” da escrita, uma ideia de bastidores que a mim, pelo menos, agrada muito: tenho sempre muita curiosidade em ver, na intimidade de um escritor, a primeira opção por uma palavra que foi abandonada; um parágrafo inteiro que, em formação, se mostrava promissor e que foi riscado; os esboços que prepararam a versão final, esses esboços que são a gênese de uma criação imaginativa ou técnica.

Parte disso o digital nos tomou. Escrever à mão é como assistir a um DVD, ouvir um CD, memorizar números de telefone: uma necessidade até bem pouco tempo atrás, hoje atitude saudosista, uma vez que os substitutos digitais são mais ágeis, limpos, editáveis – dando uma ideia de incrível eficiência.

Não meu caso, pelo menos, que agora, depois de anos dedicado à vida acadêmica em mestrado e doutorado repletos dessa escrita limpa e editável, resolvi ocupar o glorioso cargo de escritor não lido. Quando ressuscitei esse blog para publicar esses textos – todos escritos à mão –, me veio a vontade de voltar a escrever ficção. Sim, um dia já escrevi ficção e poesia, até os vinte e dois anos, mais ou menos, tudo devidamente enterrado numa gaveta trancada à chave – arquivista que sou, tenho pena de queimar.

Mas voltando ao ponto: ressuscitada a vontade de escrever literatura e não sobre literatura, mais velho e mais sem vergonha, me veio a necessidade de voltar a escrever à mão. Comprei cadernos, cadernetas, canetas azul, preta e vermelha, e comecei por aqui, escrevendo crônicas numa plataforma morta. Já rascunhei o esqueleto da narrativa numa caderneta e já separei o caderno.

Agora só me falta o tempo. Ou a coragem. Como todo trabalho manual, escrever à mão e escrever ficção, depois de muito tempo sem prática, enferruja. É nesse ponto em que estou: tirando a ferrugem. Até agora tem sido bom, tem sido curioso quando um ou outro comenta sobre um texto que saiu de um esforço físico, não só cognitivo.

Fernando Sabino dizia que o mais trágico no trabalho do escritor é que escrever é um ato solitário. Impossível discordar dele. Mas a solidão, acompanhada de uma técnica, no meu caso, imemorial, dói mais devagar.


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