Confesso que sempre tive um pouquinho de aversão à
palavra “réveillon”, principalmente depois que ouvi a primeira vez sua
equivalente e tão brasileira “dia de ano bom”. Em que pese a infame rima, a
segunda expressão é muito melhor que a primeira em prosa e prosódia.
Preferências linguísticas à parte, este texto é só
para encerrar 2025 e iniciar 2026 sem essa coisa de pé direito, mas de forma
inteira, sem estilhaços. Assim, como não sou uma pessoa apta a dar conselhos
para ninguém, limito-me a desejar.
E o meu primeiro desejo é que você seja. Seja mesmo,
por inteiro, em tudo que viver. E que esse tudo não seja “instagramável” nem
tenha como principal finalidade um desejo burro de fotografar, editar e postar.
Esses verbos, nesse tempo, têm sido contra a vida e contra os vínculos, desejo
que você os abandone se hoje te controlam.
Desejo também que você (re)encontre graça em ler.
Para além de todo aquele blábláblá do quanto faz bem, ler é uma oportunidade
cada vez mais rara de estar sozinho, em silêncio, desconectado, em rebelião
contra o grande controle que as empresas têm do nosso tempo, da nossa atenção,
dos nossos desejos. Para isso é fundamental que você leia livros físicos, que
você sinta o cheiro do papel, o peso do livro, o virar e o rabiscar de páginas
de verdade.
E, claro, atrelado ao que acabei de dizer, desejo que
você escreva à mão, em papel, estudando ou registrando o caos da sua cabeça,
mas escreva. Recomendo caneta tinteiro – ganhei uma de presente de uma querida
colega e ela, a caneta tinteiro, que passa a dar forma a essas palavras, tem um
outro toque, um outro visual, um outro compasso de espera.
Desejo também muito: Chico Buarque, Maria Bethânia,
Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Teresa Cristina, Roberta Sá, Djavan, Nilze
Carvalho, Carminho, Mônica Salmaso, Francis Hime, Ivan Lins, Milton Nascimento.
Só para falar dos vivos. Se eu for falar dos mortos, precisaríamos de uma
infinidade de anos novos.
Desejo, como não podia deixar de ser, que em 2026
você não vote em golpistas, fascistas, autoritários, truculentos e combinadores
de política e religião. Só com isso já se inclui uma sociedade e um país melhor
na lista de desejos.
E para que esses desejos não se acumulem demais –
afinal, você também precisa desejar – desejo, nesse dia de ano bom, que a vida
seja leve, que o clima nos ajude, que não falte o pão, a prosa, a poesia, o
abraço e o afeto.
