N’A Metamorfose, Kafka descreve um sujeito que
acorda transformado num inseto “monstruoso”, segundo algumas traduções. O
personagem não vive, no choque da constatação, a experiência do estranhamento;
pensa que está atrasado para o trabalho, pensa em pragmatismos que no início do
século XX já eram imperativos categóricos de uma vida vivida em dias úteis e
horário comercial.
Kafka, ele mesmo, um estranho. Um estranho que
noivava e desnoivava por cartas, que criava mundos sem saída e sem solução no
escuro de seu quarto, entre suas confissões: Kafka produzia ficção no meio de
seus diários. Deixou poucos livros concluídos, mandou queimar tudo que escreveu
antes de morrer.
Sei que é arriscado trabalhar com o “Se” (só Djavan
fez isso muito bem), mas hoje, no intervalo entre as aulas do dia, fiquei
pensando em Kafka no nosso mundinho desumanizante, em como descreveria máquinas
que pensam e escrevem por nós; em como julgaria nossa necessidade estranha de
nos expor, nos mostrar, exibir desde comida a lugares, de uma selfie sem
sentido a festas sem sentido.
Tenho a impressão de que Kafka, como seu personagem,
não viveria a experiência do estranhamento como choque: perscrutaria as redes
sociais com um olhar quase científico, abriria sorrisos irônicos face a nossos
textões cheios de certezas absolutas e monopólios da virtude.
Tenho a impressão também de que nós, desumanizados,
como que inconscientemente abrimos mão da experiência do choque para normalizar
o absurdo sem traumas, para nos adequarmos ao “todo mundo faz” sem nos
sentirmos ridículos, para anestesiar o vazio preenchendo-o com time lines
infinitas e repletas de falsificações. Ultimamente ando escrevendo muito sobre
minhas impressões. Isso é um pouco clichê e desnecessário, eu sei, mas os
tempos são tão estranhos que em nossa marcha para o progresso, muitos de nós
estão desesperadamente buscando o retorno.
O retorno em experiências. Leio por aí que estamos voltando
aos discos de vinil, às máquinas fotográficas analógicas, à escrita à mão. Soa
estranho pensar que estamos voltando ao mundo de Kafka porque, tal como Gregor
Samsa (o inseto gigante), fomos metamorfoseados em amontoados de dados
utilizados por grandes corporações que nos manipulam e vendem. O retorno é uma
forma de salvação.
E – ironia das ironias – o saudável é o antigo, o
trabalhoso, o analógico: o (im)possível retorno a um tempo em que não éramos
obrigados a saber e opinar sobre tudo e que, tornando-nos estranhos, alienados,
o saudável é sermos limitados a uma quantidade de canções específicas e prestarmos
atenção a todas elas, por exemplo.
Há um trecho n’A Metamorfose que é digno de nota:
o grande inseto, ouvindo sua irmã tocar violino, fala por meio do discurso
indireto livre algo assim: “Seria ele um animal, já que a música o emocionava
tanto?”. Sensação de estranhamento. Fico muito feliz quando consigo questionar
se sou mesmo esse consumidor de time line infinita enquanto há música, literatura
e tanta coisa, tanta gente pronta a emocionar tanto.
E é uma vitória satisfatória: sou um estranho. Um
pouco mais que o normal, talvez. Mas de um estranhamento salpicado de
liberdade.



