23 outubro 2026

Por que Lula?

 

           

Por quê? Porque eu sei que artistas não vivem em função da Lei Rouanet, e os que recebem não o fazem “pra defender o PT”. Porque eu sei que professores estão tentando sobreviver num país que, além de não os valorizar, ainda os taxam de “doutrinadores”. Porque eu sei que católicos não são idólatras e têm tanto direito de professar sua fé quanto qualquer outra religião num país laico. Porque eu sei que trabalhadores precisam de direitos básicos e contribuem tanto quanto seus patrões para a construção de uma nação. Porque eu sei que as minorias não devem se curvar às maiorias, mas coexistir com direitos iguais e assegurados. Porque, por fim, sei que essas classes que citei são só uma pequena parcela dos apoios que Lula recebe: apoios não comprados nem ameaçados, mas conquistados à luz de uma identificação e de um reconhecimento.

Por quê? Porque eu sei que das duas opções possíveis, Lula é o único que tem não só o apreço pela democracia, mas o compromisso de conservar e ampliar os direitos até aqui conquistados.

Por quê? Porque eu sei que desde 1989, em todas as eleições que disputou, Lula respeitos a vontade dos eleitores, reconheceu derrotas, recebeu e passou a faixa, respeitou todo e qualquer processo legal – inclusive cumprindo a pena de um julgamento viciado.

Por quê? Porque eu sou fruto das políticas sociais dos governos dele, porque eu vi muito aluno meu só não passar fome por causa do Bolsa Família e do Pé de Meia, porque ele sempre foi um político que encara gasto como investimento.

Por quê? Porque eu ouvi um dia o Saramago declarar: “Não é a pornografia que é obscena. A fome é que é obscena.”. Porque eu nunca passei fome como Lula pra reconhecer que nós saímos do Mapa da Fome em seus governos, e que deixamos de nos preocupar com ela, a fome, para arrotar pautas morais e sem sentido face a uma necessidade humana básica que a hipocrisia político-religiosa não consegue satisfazer.

Por quê? Porque Lula está longe de ser perfeito. Gente perfeita é produto e só existe nas redes sociais, onde tudo é mentiroso. Porque só estamos tendo de escolher entre uma figura histórica, símbolo da nossa redemocratização, e um playboy miliciano manipulado por um coach psicopata por causa dessa hidra chamada de “Big techs”, chocadeiras do radicalismo e da burrice da extrema direita pelo mundo inteiro, e aqui no Brasil do congresso mais nefasto da história.

Por quê? Porque, no momento, é a única solução possível para quem quer um país, não um simulacro de algoritmo. Porque, enfim, é a civilidade em detrimento da barbárie, é a educação em detrimento da ignorância, é a cultura em detrimento da truculência, é a democracia em detrimento do golpismo.

Por quê? Pelo motivo mais pessoal e mais coletivo, mais importante: porque quero deixar registrado para minha filha que escolhi, com meu voto, o melhor pro futuro dela.

19 outubro 2026

O BOLSONARISMO NÃO É DE DIREITA

 


Há um equívoco não desfeito desde 2022 que esse 2º turno fez repensar – mesmo em meio ao burburinho incessante e massacrante das redes sociais: o bolsonarismo não é um movimento de direita. É um movimento que se apropriou de alguns ideais da direita – frise bem o alguns – se infiltrou nela, sugou o que conseguiu e, quando não mais servir como disfarce, vai jogar fora, como tem feito com uma infinidade de apoiadores.

O bolsonarismo não tem ideais, a não ser a autopromoção. O bolsonarismo não tem partidários, tem seguidores. O bolsonarismo não propõe, ameaça. O bolsonarismo não debate, impõe. O bolsonarismo não tem projeto, mas uma coleção de parentes sedentos por poder. O bolsonarismo, portanto, não se configura como um movimento democrático de direita, mas como uma hidra que não hesita em destruir um país para alimentar sua fome de grandeza.

Não é necessário muito para essa conclusão. A direita democrática, em 2020, teria ouvido cientistas, não bajuladores. A direita democrática faria de tudo para evitar mortes, não debochar delas. A direita democrática faria um sério debate sobre as medidas necessárias para atravessar uma pandemia, não se valido de fake News para invalidá-la como uma gripezinha. A direita democrática faria uma autocrítica sincera face às 700 mil mortes, não simplesmente as ignoraria. A direita democrática, por fim, ao perder uma eleição, teria feito o que se faz desde a redemocratização: reconheceria a derrota e passado a faixa, não teria planejado um golpe de estado.

Por exemplos públicos como esses, você, que é de direita, você que é de uma direita democrática, que respeita a Constituição, que acha saudável a alternância de poder, você não deveria se identificar com o bolsonarismo. Você deveria combatê-lo porque, por mais que você discorde de Lula e o classifique como outra péssima opção, ele é o único, nesse segundo turno, que pode garantir que você e sua ideologia, a direita democrática, continuem existindo em eleições futuras. O bolsonarismo é uma ameaça à existência da esquerda e da direita, o bolsonarismo é uma ameaça à democracia – lembre que seu líder máximo está preso por tentativa de golpe de estado.

Mas essa conversa toda é para quem é de direita. Da direita democrática. Se você é bolsonarista, e mesmo assim leu até aqui, há uma conclusão clara: você precisa se curar do seu bolsonarismo.

03 outubro 2026

Domingo

 




O domingo é, desde sempre, um dia algo injustiçado: por anteceder a clichê segunda-feira, sua chegada – sobretudo seguida de um feriadão – tem no Brasil um ar triste e quase mórbido de uma despedida. Por sua noite, - antes sinônimo de um programa de uma TV com fetiches por cadeiras vazias em debates – seu dia se torna quase ignorado e aborrecido. É preciso reparar essa injustiça.

O domingo é, sobretudo, um marco político da semana. É o dia mais excluído da escala 6x1, é o dia em que o trabalhador coloca em prática o que por aí se chama de “hobbies”, mas que eu prefiro chamar de prazer. Num mundo e num tempo em que se celebra a produtividade incessante, separar um dia para o prazer é não só marco político como afirmei acima, mas também um ato de resistência a quem quer usar máquinas para nos fazer de máquinas.

O domingo é, por isso, a entidade do acolhimento. Nele cabe tudo o que todo ser humano considera prazer: feira, churrasco, pastel, futebol, fórmula 1, pescaria, baralho, dominó, show, teatro, cinema, leitura e macarrão. O domingo é a panaceia que nos faz seres humanos que guardam tempo para o que é inútil, inclusive para o tão recriminado ócio – que, a propósito, não precisa ser sempre criativo.

O domingo se torna, assim, um dia santo. Um dia de todos os cultos, todas as religiões, todas as crenças: o domingo se propaga, se dissemina pelos outros dias da semana, como nos versos de Tom Jobim: “Todo dia é dia santo / todo santo dia”. E se todo dia é dia santo, todo dia é um dia de domingo, todo dia ainda é cedo. Mas nem tanto.

O domingo, dia em que saímos de casa para eleger quem nos representa e governa desde 1989, a partir de 2018 também se tornou dia de uma trágica eleição, de manifestações golpistas nos anos seguintes, de gente bandida querendo voltar a nos representar e governar.

“Porque hoje é sábado”, escreveu Vinicius de Moraes, “há um alvorecer de esperanças”. Não só porque amanhã é domingo, mas porque amanhã um operário nordestino pode, historicamente, ser eleito para nos representar e governar – na última vez e nessa vencendo também o golpismo interno e estrangeiro.

O domingo, amanhã, 04  de outubro de 2026, é o futuro. Será mais um típico domingo brasileiro e pode ser também um domingo histórico, em que um candidato que estava lá naquele domingo de 1989 estará no domingo de amanhã, se tudo der certo, eleito para presidir o país – pela quarta vez fazendo opção pelos pobres.

Mas o futuro só a Deus pertence, como diz o povo. A mim, que sou parte do povo de um país democrático, portanto com direito a essa opinião, só resta acreditar. A mim, que nasci naquele distante 1989, é dever levar meu futuro, minha filha, como levei em 2022, amanhã, para mais uma vez votar contra o golpismo e a ignorância.

19 setembro 2026

Fotografia

 


Há uma fotografia minha – uma das poucas, bem verdade – de que gosto muito: estou parado, a seriedade disfarçando o orgulho do objeto que eu ostentava: o livro Antonio Carlos Jobim – Um homem iluminado, biografia do maestro escrita por sua irmã, Helena Jobim. Era minha primeira Bienal do Livro, estava num passeio da escola e tinha vendido, no ônibus, salgadinhos que minha fizera para eu poder comprar aquele livro.

Se a memória não falha, o ano era 2003. E esse foi o livro zero da modesta biblioteca que comecei a formar desde então. Eu me lembrei dessa fotografia pelo livro mesmo: num tempo em que celulares só faziam ligações, fiz questão de gastar uma das fotos contadas que podíamos tirar para registrar aquele momento porque eu tinha mais ou menos noção de que seria importante pra mim.

E não estava errado. Aquela fotografia registra dois elementos que são basilares da minha formação humana e, mais tarde, profissional. O primeiro, não precisa dizer, são os livros. Estão no meu quarto e na minha vida desde que aprendi a fazer escolhas. O segundo é a música – e nesse caso específico, a música de Tom Jobim.

E é isso. O texto podia acabar aqui porque está tudo dito e resumido: a música de Antonio Carlos Jobim me acompanha desde os onze, doze anos de idade, pesou na minha decisão de fazer Letras, não cansa de aparecer nas minhas aulas e avaliações. E embora não seja da conta e do interesse de quase ninguém, a informação tem razão de ser: estamos a poucos meses de comemorar o centenário do maestro.

A biografia que Helena escreveu foi relembrada pela data próxima e ficou, então, desde sua primeira leitura ávida, em permanente estado de leitura. Tornou-se um livro importante não só pelo tom íntimo e afetuoso da escrita, mas por ser símbolo de um mundo que há muito começou a ruir. Acredito firmemente que, dentre os vários elementos que ajudam a conter essa erosão, está a música de Tom.

Por isso estou entre aqueles que concordam com o que Ruy Castro escreveu no livro A onda que se ergueu no mar: “Todas as vezes que Tom abriu o piano, o mundo melhorou.”. Aquela fotografia, pra mim, é isso: o registro de um mundo que começava a ficar melhor.

04 setembro 2026

LIVROS



Neste romance, António Nassi revisita a própria trajetória e transforma memórias em uma quase confissão. Entre encontros que se fizeram símbolos, amores que se feriram e desamores que permaneceram como passos de uma valsa, ele percorre os caminhos de uma existência feita de (não)escolhas, desejos, perdas e recomeços.
Mas sua história pessoal não acontece no vazio, está na moldura de um dos períodos mais sombrios da história brasileira: a ditadura militar. Enquanto o país experimenta o medo, o silêncio e a repressão, ele também enfrenta suas próprias lutas e resistências — inclusive contra a doença, que passa a ocupar um lugar cada vez mais profundo e marfim em sua vida. Uma vida atravessada pela história.







Resultado da minha dissertação de mestrado, este livro trata do problema de leitura formulado a partir da seguinte questão: buscando aumentar o repertório de leitura dos alunos do ensino fundamental, especialmente do 6º ano, aliado a uma melhora na qualidade do ato de ler, de que maneira teorias como o dialogismo e a interdiscursividade podem contribuir para que os alunos desenvolvam habilidades de leitura importantes para a construção de sentidos?
Para responder a essa questão, temos como hipótese a estruturação de uma proposta de intervenção em que os estudantes, ao terem contato com diferentes textos do mesmo gênero, dentro de uma perspectiva intertextual, interdiscursiva e dialógica, podem desenvolver as habilidades de leitura previstas para o segmento/série.




28 agosto 2026

Dori Caymmi e esperança

 


“Olha, quando chegar ‘Porto’ e ‘Alegre menina’, você já considerem que é o bis porque minha capacidade de locomoção está um pouco prejudicada”, ele disse no meio do show, bem ao estilo direto e objetivo da família. Família, aliás, está no título da série de quatro shows que Dori Caymmi e seu histórico bigode fizeram no projeto Terças no Ipanema.

“Por causa desses shows aqui no Rio estou me sentindo um ‘star’”, disse ele ao teatro lotado. Lotado de gente que, como ouvi na fila, estava indo ver um mito. Um mito de 82 anos, quase 83, cuja mão esquerda estava “gelada”, como definiu, que não tocou violão durante a execução de “Desenredo” “para não fazer merda”, como sinceramente admitiu. Um mito sobreposto ao palco com toda a força de sua história.

E foi de lá, do palco e da história, que Dori Caymmi mostrou mesmo que estava “Em Família”. Contou histórias do pai, Dorival, da mãe, Stella, e dos irmãos, Nada e Danilo. Encarnou o espírito sincero e à vontade que é marca da família Caymmi e divertiu a todos com a verborragia tão potente quanto sua voz. (Em tempo: se você nunca ouviu nenhum Caymmi, comece por alguma gravação de show da família, feche os olhos e ouça as vozes).

Eu precisei fechar os olhos várias vezes. Uma para ouvir com mais apuro o bigodão cantar “Velho piano”, outras porque eles estavam molhados e ardendo enquanto ouvia “Resposta ao tempo” e “Andança”, clássicos máximos dos irmãos. Difícil mesmo foi “João Valentão” e a letra que Dori mudou para “E assim adormece meu velho / Que nunca precisa dormir pra sonhar”. Não sei se foi a lembrança do meu velho, que também adormece, ou a voz, ou o violão, ou qualquer outra coisa inexplicável da arte: o fato é que saí desidratado.

Isso não se deve, claro, a pouca coisa: naquele palco foram executadas canções como “Desenredo”, “Porto”, “Alegre menina”, “Delicadeza” e “Rio amazonas”. As lágrimas, no entanto, também foram de rir nas partes em que Dori fez comentários sobre certos políticos com palavrões tão imponentes como seu bigode. “Estou falando essas coisas, com essa liberdade, porque amanhã faço 83 anos”. E antes do número final, o clássico parabéns, as palmas, o bolo simbólico. E de repente, quase sem sentir o tempo passar, aquelas quase duas horas foram encerradas com a “Canção da partida”, do Caymmi pai, e Dori, com ajuda, levantou-se para se despedir do público e do show, último da série.

Na porta do teatro, enquanto esperava o carro de aplicativo, um velhinho chorava, acompanhado da esposa. Trocamos um olhar, um sorriso e eu compreendi: só a música e a só a música de um mito pode unir pessoas de gerações e classes sociais tão diferentes. Eu entrei no carro e voltei para tão, tão distante pensando nisso: o show de Dori, de Dori e sua família, de Dori e sua história, são como aquele verso de uma canção sua: “O bem que uma esperança traz”. Eu vivenciei – e por isso chorei – quase duas horas de bem e de esperança.

22 agosto 2026

Apologia do botequim

 


Engana-se quem pensa que não existe diferença entre bar e botequim. As diferenças já começam etimologicamente: enquanto “bar” vem do inglês bar, que significa “barra” ou “obstáculo”, o termo “botequim” vem do grego apothéke, que quer dizer “depósito”, meio aparentada da palavra “botica”, nome antigo de farmácia. Há uma diferença fundamental entre obstáculo e farmácia, não?

Mas não acaba aí. O que distingue um botequim de um bar é sobretudo a originalidade: enquanto o bar busca atender as demandas da moda e da indústria, buscando cada vez mais ser “moderninho”, o botequim conserva a aparência e o ritmo lento, profundo e necessário de tempos imemoriais.

E há mais. É só no botequim que as mesas são do tamanho de mesas e congregam em torno de si pessoas sentadas – a única posição possível para quem quer, por algum tempo, esquecer que existem relógio, trânsito e extrema direita; para quem quer conversar com o outro como nos tempos imemoriais, sem a mediação do celular. Para essas pessoas, só uma cadeira e uma mesa tradicionais, de ferro ou de plástico, restando a abominação para as mesas altas que nos fazem ficar de pé, torres de ignorância e de separação.

A conversa, aliás, é o cerne, a razão de ser do botequim. É para a conversa e em tono da conversa que o botequim existe. Por isso esse quase templo realiza um feito que nenhuma revolução conseguiu: é o único lugar em que as classes sociais não entram, em que as armas são depostas, em que só há uma única e encardida bandeira: a da igualdade.

Por se constituir em torno do diálogo – ainda que molhado e embargado –, o botequim é o único lugar do mundo em que a boa música pode não ser ouvida, pode servir de pano de fundo para a verdadeira celebração que acontece ali: a arte do encontro em meio a tanto desencontro pela vida, como diria o Vinicius, autor em estado de botequim.

Entretanto, como é fácil concluir, ninguém vai ao botequim apenas para conversar, mas também para comer e beber, ou mais precisamente para beber e comer, porque até a sintaxe do botequim é única. Considerando esse fato, a temperatura é sempre mais importante que a estética – o gelado ao que é de gelado, o quente ao que é de quente – e as opções limitadas liberam mais tempo para o ato de parlar, além de nomes genuinamente brasileiros, de preferência no diminutivo – longa vida aos nossos caldos de quenga e bolinhos.

Mais não é necessário dizer. Só a etimologia bastava. O botequim é cura. O botequim é o microcosmo de um mundo que é forçado a deixar de existir, mas que resiste nesse espaço que nos faz mais brasileiros.

14 agosto 2026

Uma pergunta

 


Escrever é diferente de escrever. E espanta o fato de que no maravilhoso e distópico século XXI, em que máquinas já pensam e enfileiram palavras por nós, um ser humano ainda sente numa cadeira – ou que fique em pé mesmo, como Hemingway – e escreva, enfileire palavras num papel físico ou virtual, se disponha a organizar pensamentos, disciplinar ideias, compor distopias ainda mais absurdas que as nossas.

Ferreira Gullar disse que o Eliot disse que escrever é fugir da emoção. Considerando que não é por profissão, por dinheiro ou imposição, se um ser humano desse planetinha tão simpático senta para escrever – ou o faz em pé mesmo – pode estar fugindo ou domesticando sua emoção para melhor conviver com ela.

Fernando Sabino define como um ato extremamente solitário. E escritor, sozinho, é feito um demônio: ama apenas a si mesmo. Gosto da metáfora, embora eu ache que seja o contrário: o dilema do escritor é querer sair de si mesmo, ser outro(s), em outras terras, outros tempos, outros outros. A alteridade é o paradoxo do ser que, sozinho, escreve: só é possível alcançar o outro por meio de papel e palavras.

Eu me pus a pensar sobre essas platitudes quando, hoje, me perguntaram se eu escrevia poemas. E gostei de lembrar do tempo em que os escrevia e, pior, acreditava neles. Acreditava tanto que os dividia em livros, cujos títulos eu muito elaborava, e quando alcançavam várias folhas manuscritas, o suficiente para um magro volume, eu me sentia Vinicius de Moraes.

Muitos anos depois, lendo a biografia de Vinicius, descobri que ele também tinha esses arroubos, escrevia poemas aos quais atribuía enorme importância e chegou a organizar um volume com as suas poesias completas. Embora houvesse nessa descoberta um pequeno e humorístico lastro de semelhança, há só uma e colossal diferença: ele era Vinicius de Moraes.

Como eu não sou, a poesia abriu as portas do mundo da escrita para mim, mas logo foi embora, me inundando, mansamente, com a certeza de que poetas não são ordinários.

Mas eu sou. Tanto que sigo à risca o estereótipo: escrevo em minha mesa, à mão, no silêncio das oito horas da noite, numa cidade desimportante de um país tropical da América Latina, depois de um dia de trabalho, de pagar contas, de agendar com a oficina o reparo do carro, depois de evitar discutir política, depois de domesticar e subjugar a paixão.

Num mundo em que tudo passou a ser “hiperfoco”, eu escrevo por isso, pelo vocabulário que está deixando de existir, mas que só ele consegue dar conta de justificar esse feito: interesse, curiosidade, necessidade, paixão.


23 julho 2026

O tempo das palavras

 


As palavras têm um tempo. Como no Eclesiastes: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de calar e tempo de falar, tempo de guerra e tempo de paz. Em tempos de tantos juízes e tribunais autoproclamados, perdeu-se o direito de dizer bobagens: dependendo de quem se é, essas bobagens são amplificadas, jogadas aos quatro cantos do algoritmo e as sentenças se sucedem, implacáveis, sem retorno, sem desculpas.

João Bosco é o mais novo exemplo. Falou o que não devia ou falou da forma que não devia, e suas palavras reverberaram nos tribunais mais exaltados dos mais impolutos juízes, detentores da moral e da virtude mais inefáveis. Gol anulado, samba dele e de Aldir Blanc, fez o artista conhecer o cancelamento que seu filho, Francisco Bosco, conhece bem.

Em termos de música popular dos nossos octogenários a polêmica não é nova. O outro Francisco, o Buarque, já havia sido bastante cancelado nos dois lados: pelo romantismo “antiquado” de Tua cantiga e mais ainda quando declarou que não cantaria mais Com açúcar, com afeto – canção que retrata a submissão da mulher, feita a pedido de uma outra mulher nada submissa: Nara Leão.

As palavras têm um tempo. E Bosco pai parece ter esquecido disso e ficou à vontade demais em frente às câmeras. Ele tem razão, em parte. As canções simplesmente não deixam de existir e podem, sim, ser crônicas de um tempo que felizmente, hoje, pode ser debatido, questionado e criticado. Aliás, uma boa canção é isso: provocadora de debates, retrato de um tempo. E é possível defender um ponto de vista sem ofender a sensibilidade de ninguém, sem patologizar o oponente de ideias.

Acredito, sinceramente, que ainda que João tivesse usado palavras mais conciliadoras, cairia nos tribunais da internet. E o meu ponto é justamente esse: é possível discordar e criticar, por mais idiota que se ache o outro lado, sem chamar de idiota (a palavra ainda flutua na minha cabeça por culpa do Dostoievski que acabei de ler hoje).

As palavras têm um tempo. Quando perdem a validade, se tornam crônica. Quando bem utilizadas, se tornam argumento. Quando revestidas de ódio e bílis, se tornam nada.

03 julho 2026

A festa e o casmurro


Há festa na cidade. Me disseram que a gente devia ficar feliz: a maior de todos os tempos e etc. Eu tentei ficar feliz, mas infelizmente tive um acesso de tosse devido à poeira, além de os artistas contratados para os shows não terem sido escolhidos com base na diversidade da música brasileira, mas apenas a modinha promovida pela indústria.

Me disseram que a gente devia ficar feliz: são cinco dias de diversão. Mas o trânsito não deixa: os dois minutos que levo, de carro, da minha casa ao centro, viraram vinte, as ruas são fechadas ou assaltadas pelos coletes verdes que cobram vinte, trinta reais para deixar estacionar na via pública, isso sem falar nos pobres portões de garagem obstruídos por gente que tem o próprio umbigo como centro do universo.

Me disseram que a gente devia ficar feliz: ano passado não teve festa, então é pra comemorar. Acontece que ano passado também não teve teatro, não teve um grande evento dedicado à literatura, não teve show de artista não industrial, não teve um documentário no nosso cinema. (Esse ano e antes do ano passado, e antes de antes do ano passado também não teve teatro).

Me disseram que a gente devia ter um olhar otimista: eleições cheias de fake News se aproximam, o super el niño se aproxima, o laranjão quer subjugar a América Latina, mas temos festa na cidade. Eu tento, juro que tento: penso nas exposições e no que de cultural pode ter na festa. O problema é a poeira até chegar lá: o pó não faz feliz a minha rinite alérgica e meu tênis preto.

Me deram motivos pelos quais a gente devia ficar feliz. E eu tentei. Mas tenho amigos cujas vidas profissionais estão sendo terrivelmente prejudicadas pela alegre festa que segue madrugada adentro projetando as vozes dos cantores industriais.

Tudo somado, me sinto um casmurro: há festa na cidade, mas é uma festa que não me faz feliz. Há festa na cidade, mas vejo poucos motivos pra cidade festejar. Há festa na cidade, mas que serve de anestesia.

Foi mal aí pela “bad vibes”, por “pesar o clima”, pelo pessimismo da casmurrice. Ao fim e ao cabo desejo que a terra lhes seja leve. Vamos à história triste dos subúrbios.

 

25 junho 2026

O ET e o idiota

 


Desde o ET de Varginha que acho o brasileiro com um certo fetiche por seres extraterrestres. No ano em que se completam trinta anos do suposto encontro com o ET mineiro – que, como bom mineiro, evitou aparecer, desconversou e sumiu – um outro caso agora toma conta do noticiário tradicional, saindo do mundo etéreo das redes sociais: um influenciador (?) do Paraná supostamente filmou um OVNI (O fláVio bolsoNaro Interditou-se) ou algo parecido.

Fetiche. E como o do brasileiro também se estende às questões inúteis, pelo que andei vendo aqui e ali, agora há uma verdadeira cruzada sobre o caso do objeto não identificado – no caso o OVNI, não os outros 70 milhões que o Vorcaro prometeu ao Flávio. Tentam provar que ele mentiu – o influenciador, o Flávio já é certeza – ele tenta provar que não mentiu, vídeos e mais vídeos inundam a internet e a inutilidade toma conta de tudo.

“O brasileiro é um feriado”, já disse o Nelson Rodrigues. Eu acho que o brasileiro é também um fetichista. Tanto, tanto que vai além do OVNI: perpassa um talento nato que temos para alçar aos holofotes qualquer um que filme luzes, faça cara de medo e divulgue no mundo etéreo das redes sociais. O brasileiro, nesse sentido, é feriado, fetichista e cansativo (não achei outra palavra com f).

Estamos num ano muito atribulado, gente. É Copa, é Rock in Rio, é eleição, é vazamento do celular do Vorcaro. Não precisamos de OVNIS, precisamos de idiotas.

Explico: estou lendo, pela primeira vez, “O idiota”, de Dostoiévski. É um romance que conta uma história antiga e sempre inédita: a de um homem puro num mundo corrompido. E fatalmente a pergunta surge, impávida colosso: vale a pena ser puro e honesto num mundo de OVNIS sob suspeita e de 134 milhões para financiar um filme que é propaganda política?

Como ainda não cheguei ao final do romance, não sei a resposta. A única coisa a fazer, então, é terminar de ler o romance. E enquanto isso não acontece, há, eventualmente, outra coisa a se fazer: venha, me olhe nos olhos, me dê sua mão, sente aqui comigo. Estamos numa América Latina ameaçada e coagida pelo amigo do Epstein, estamos na República cuja elite estava na carteira de um banqueiro, estamos sendo controlados e manipulados por empresas de celerados – um deles, inclusive, que pensou que poderia ir para Marte, veja só...

Sentou? Está confortável? Agora olhe pro céu: vê algum OVNI? Eu não. Mas vejo uma epifania, uma revelação, uma imagem difusa que coloca Dostoievski numa nave brilhando e emitindo um sinal que apenas comecei a decifrar: somos todos idiotas.

24 abril 2026

Notícia de inventário

 


Me dou conta – sim, com pronome oblíquo no início da frase, mesmo – de que posso dizer que tenho um livro publicado. Se intitula Em boa companhia, reúne poemas meus e de dois queridos amigos, saiu numa tiragem considerável de quinze ou vinte exemplares e foi sequestrado na Bienal do Livro de 2003.

A história desse sequestro fica para outro texto. Me dou conta disso porque aproveito o feriado para remexer em papéis guardados, inventário de mim mesmo, e acho um exemplar do livro que, além de atacar a rinite, me fez ver que sou desobediente: não obedeci ao conselho de que se deve rasgar os versos de juventude. Sobretudo de uma juventude tão tenra, como a dos doze, treze anos. Pelo inventário também me dou conta de que não rasguei nem os versos, nem o romance.

Desde que me entendo por gente sou um arquivista. E esse hábito de tudo guardar é que me faz encontrar o menino de quatorze anos que escreveu, à mão, duzentas e três páginas de um romance policial que imitava Fernando Sabino e Agatha Christie (a tal da angústia da influência, leiam sobre). Assim, no feriado de 23 de abril, dia do livro, do choro, de São Jorge e de São Pixinguinha, confirmo que o inventário permanecerá para sempre na gaveta – se não rasguei, pelo menos jamais trarei a público esses escritos de formação.

Eles já cumpriram seu papel. Formaram e deram lugar aos textos acadêmicos: das tentativas literárias da juventude passei aos artigos, dissertação e tese do mestrado e do doutorado, e desde então literatura foi só leitura, não mais produção.

Essas crônicas têm sido um ensaio de retorno, uma retomada tímida, um teste pra ver se ainda tenho mão. E ao que parece – se é que algum dia tive alguma –, perdi a mão para poesia, mas a prosa ainda é tateada. O inventário me mostra isso, me dá sede e vontade de ir além do gênero curto.

Guardo meus escritos na gaveta que é destino final. No entanto, como disse o Drummond acerca de seu verso, meus escritos estão “cá dentro”, inquietos, vivos. Cumpriram sua função de formação e de preparação para o que viria depois. Um depois que, tardando a chegar, parece que deu seus primeiros sinais de vida a partir dessa visita de feriado.

16 abril 2026

Pai, moça, feijão

 


Chego mais cedo do trabalho, vou cozinhar. Como de costume, Alice lança mão de sua cadeirinha, anuncia que vai me “ajudar” e pega seus copos de plástico e suas duas colheres para cozinhar algo que até hoje ela não me disse o que é. Cenário pronto, só falta a trilha sonora, que hoje é o disco Poeta, moça e violão, registro do show de Clara Nunes, Toquinho e Vinicius de Moraes no Teatro Castro Alves, na Bahia, em 1973.

A primeira faixa é o poema Pátria Minha, recitado pela voz quase rouca do poeta. Enquanto Vinicius fala de sua pátria, Alice esquece dos copos e das colheres para brincar com a seringa do antibiótico ministrado de doze em doze horas. Alice, que saiu ontem do hospital depois de longos cinco dias em virtude de um pulmão que ainda está se acertando com o outono, ignora o poema porque encher e esvaziar a seringa parece bem mais interessante.

Tão interessante que me desligo do feijão que tempero para observar seus movimentos, que agora imitam o de uma exigente médica que aplica injeções na minha mão, barriga e batata da perna. Se eu não finjo dor, ela briga, então eu finjo – finjo mesmo, porque a alegria daquela mocinha na cozinha, bem, sorrindo, transborda tal qual a panela tampada do arroz. É uma alegria tão sincera que nem me desespera o fato de ela estar molhando tudo – isso sem contar o quarto, que já parece cenário de guerra.

O disco mistura gêneros e compositores, mescla poemas, poemas musicados, e as três vozes ecoam enquanto o alho dourando do feijão estala e cheira, enquanto o frango também cheira fritando, enquanto seco o chão que Alice pretende transformar numa espécie de piscinão de Ramos.

E aí eu entendo. Não é necessário muita coisa. Tenho pensado muito sobre as coisas e de repente enxergo o sublime na minha cozinha, com cheiro de alho dourando e uma criança que, liberta da prisão de um hospital, volta a demonstrar sua urgência de vida com água, grito e sorriso. Tudo isso, claro, ao som do poeta, da moça e do violão. E eu me sinto privilegiado nessa quarta-feira à noite, nessa cena improvisada de pai, moça e feijão.


06 abril 2026

Em torno de Águas de Março

 


Já é abril, mas é sempre tempo de falar de Águas de Março, uma das dez melhores canções do século XX segundo o crítico americano Leonard Feather; o samba mais bonito do mundo, segundo Arthur Nestrovski. Não me lembro de um março em que a canção não seja citada em meio a uma chuva – ou, como é mais comum no Rio de Janeiro, tempestade.

Leio por aí que acaba de sair pela Editora 34 um livro com três ensaios sobre a canção, um deles assinado pelo já citado Nestrovski. Leio e penso no quanto essa canção, composta em 1971, ainda provoca reflexões ou inflexões. Não à toa: é uma canção de ruptura, de guinada, de fratura.

Leio na biografia de Tom, escrita por sua irmã, Helena Jobim, que a canção nasceu no sítio da família, em Poço Fundo, numa madrugada, num gesto, com a letra escrita em papel de pão. Tom estava trabalhando em outra música, Matita Perê, e, cansado do trabalho em andamento, sentiu “brotar” as águas. Tal como Ari Barroso ao compor Aquarela do Brasil, foi correndo à família mostrar: “Olha o que eu fiz!”.

Talvez pressentisse que as águas inundariam tudo, que ficariam mais famosas que sua companheira Matita, que percorreria o mundo em gravações e idiomas impossíveis de contar – já a ouvi até em hebraico.

Embora a versão clássica seja de 1974, do disco Elis & Tom, Águas de Março começou sua carreira bem modestamente: Tom a gravou em 1972 num compacto de duas músicas intitulado Um tom de Tom Jobim e um tal de João Bosco, no qual o já consagrado Jobim apresentava o iniciante Bosco, que gravou Agnus Dei em sua faixa. Depois apareceu em novo arranjo como a segunda faixa do LP Matita Perê, de 1973, até alcançar o sublime no badalado e documento disco com Elis Regina – com direito ao pio do Matita Perê na introdução.

Mas eu falava do livro Águas de Março – sobre a canção de Tom Jobim. Como reúne gente da pesada, não tenho dúvida sobre a qualidade e com certeza vou lê-lo. Queria só registrar que o livro é só mais um pau ou pedra que marca um caminho ainda muito, muito longe do fim.

Acho que Tom ficaria feliz de saber que muitos, muitos brasileiros lembram de seu refrão quando veem a natureza em plena potência. E quando uma canção se faz lembrar assim, na memória afetiva de um povo, é porque repete o que seu próprio refrão diz: é promessa de vida em cada coração.


14 março 2026

Gosto de sonho

Você tem um sonho. Você acorda, mas ainda dentro do sonho. E eu digo dentro não de maneira metafísica, mas psicossomática: o sonho deixa gosto, enche o quarto de cheiro. Você já acordou com gosto de sonho? Assim que acordei hoje. Fazia tempo já.

Aí você faz o café, lava o rosto. Abre a janela e, como ainda são cinco da manhã, não sente ou vê o sol, mas pelo menos parou de chover. Aí você pega a xícara de café, senta no sofá, acende a luz, tenta ler, mas os olhos ainda estão pesados. Então você toma o café e, contrário à sua expectativa, ele realça o sabor do sonho. Os olhos, assim, despertam: você lembra do sonho, agora com a boca quente e o estímulo da cafeína.

Agora, talvez, você já esteja preparado para o livro. É do Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas. Você e ele – o livro, não o Rubem – ainda estão sem intimidade, é o segundo dia de vocês dois juntos. (Aqui caberia um interlúdio sobre como o livro físico é importante para esse relacionamento de toque com o leitor, lembrando um namoro, com certa timidez no início e a intimidade crescente com o tempo, mas deixa pra lá).

Não, você não está preparado para o livro. As palavras dançam um pouco, as frases não formam sinapses. Você pode pensar, então, que talvez seja o sono antes das seis da manhã, pode sorver mais dois ou três goles de café e ainda que tome um banho frio é possível que não ajude muito: o problema não é o sono, o Rubem ou o livro, é o gosto.

O paladar humano é limitado a doce, salgado, azedo, amargo e umami. Assim aprendemos na escola. Mas é só depois de uma noite agitada, de “sonhos intranquilos”, como definiria o Kafka, é que você aprende que o paladar de sonho também marca sensações.

Aí, então, você desiste do livro. Levanta, come pão, tem vontade de beber vinho, mas como é inapropriado para as seis da manhã, toma banho e vai cuidar da vida. E como Guimarães Rosa está certo, “o correr da vida embrulha tudo”. E ao cuidar da vida você percebe que a vida não é sonho, mas que pode ter seu gosto.

 

05 março 2026

Futuros amantes, passados distantes

 


Dirijo numa terça-feira em direção ao trabalho quando o rádio do carro me relembra a novidade das coisas velhas. A velha introdução, sobressaindo o som do piano, anuncia “Futuros amantes”, do Chico Buarque. E uma canção de amor não me faz pensar em amor, me faz pensar no tempo.

“Não se afobe não, que nada é pra já”, aconselham os dois primeiros versos. Já é um primeiro conselho de difícil adesão: tudo agora deve ser pra já, esperar já nos é algo distante e frustrante,  a ansiedade o café da manhã e o chá antes de dormir. Difícil não se afobar, Chico. Difícil até de ouvir isso: a buzina do carro de trás me impulsiona a ver que o sinal abriu e minha filosofia de boteco não pode continuar a ser feita no meio da avenida.

Logo depois os versos sobre como o amor pode esperar em silêncio, num fundo de armário, por milênios. A imagem do fundo de armário me chama a atenção: ela ainda existe? Se sim, para que? Com certeza não para o que eu-lírico aponta escondido não apenas no fundo de armário, mas no fundo do mar: fragmentos de cartas, poemas, retratos. E a ironia da canção de fato se materializa: hoje, mesmo sem o decorrer de milênios,  já são vestígio de estranha civilização,  afinal, quem ainda guarda fragmentos de cartas? Alguém ainda escreve cartas? Alguém ainda lê poemas? Alguém ainda tem fotografias impressas? Óbvio que sim. E claro que não. Essas são linguagens que se perderam num passado que, pela voragem do advérbio “já”, foram moídas pelo que não tolera a ideia de ficar “milênios, milênios no ar”.

Aliás, é curioso como a ideia de milênios hoje parece tão absurda, tão inóspita, tão irreal para um tempo que tem por modus operandi tirar a materialidade das coisas – o que, de alguma forma, acaba tirando a realidade delas.

No carro  penso nas coisas, meio automático, submerso como o Rio na canção, literalmente ouvindo o eco de antigas palavras no rádio e no tempo. Por meio de “Futuros amantes” penso em Futuros distantes, e a perspectiva não parece muito boa.

Como na canção, a única alternativa talvez pareça contribuir para esse futuro em que sejam encontrados fragmentos de cartas, poemas, retratos e mentiras. A mentira ficcional é charmosa e necessária, não como esse modo de tirar a realidade das coisas. Assim, para um  futuro distante, materialidade. E uma canção em que um compositor consegue encaixar “escafandrista” em uma letra: materialidade de um passado distante e amante.

26 fevereiro 2026

O jardineiro

 

Tomo café com um casal de amigos no templo capitalista que é o shopping da minha cidade. Conversamos amenidades até que a literatura e a escrita entram na roda. Livros que seriam interessantes para a leitura dos alunos, breves comentários sobre uma coisa ou outra até que meu amigo e eu caímos sobre modos de escrita ou, mais precisamente, os modos como nós escrevemos.

Comentei sobre o presente que ganhei de uma colega de trabalho, uma caneta tinteiro, e o hábito que já havia retomado de escrever à mão. Face a seu espanto, meu amigo disse que já estava no século XXI e o computador era sua principal ferramenta de trabalho. “O senhor é um jardineiro”, me disse ele, e desde então a frase fixou-se na memória.

A metáfora da jardinagem – creio – não diz respeito só ao vagar do tempo num ritmo não acelerado, não otimizado: tem a ver, sobretudo, com uma prática manual que, de maneira deliberada, não se troca por uma máquina. A frase é do cientista Miguel Nicolelis: “A conveniência está matando a agência”. Para muito além do ato de escrever – não vos recrimino, oh vós que escreveis em máquinas do século XXI – nós estamos sendo formados e educados para um mundo em que os jardineiros estão perdendo lugar para uma automação cada vez mais paralisante.

Sim, eu já falei desse assunto por aqui e sei que estou me repetindo – outro pecado capital para um mundo viciado em constantes novidades, que considera como pecado mortal a repetição, a reiteração, a revisão. Faço jus, assim, ao meu tão honrado título: minha jardinagem é esta, como diria o Nelson Rodrigues, “flor de obsessão”: repetir à exaustão e à mão que precisamos otimizar menos e plantar mais.

Como estamos no terreno pantanoso das metáforas, você escolhe sobre o que plantar. O importante é não fazer do tempo e da vida uma corrida cega em busca de ganhar tempo para não saber o que fazer com ele e desperdiçá-lo na frente de uma tela. É preciso, como disse o Vinicius de Moraes num polêmico poema, “Que haja / qualquer coisa de flor em tudo isso”. O mesmo Vinicius que nomeou um de seus livros como “Para uma menina com uma flor” e que fez canções como “Morena flor” e “O velho e a flor”.

Sim, eu sei, é muita flor para um só autor. Mas combina com este opúsculo o poeta que é o anti-digital por excelência, e que é o necessário para um tempo e uma cultura cada vez mais necessitados de jardins.


12 fevereiro 2026

“Do que eu falo quando eu falo de corrida”, de Haruki Murakami: a arte de não dar conselhos

 

Sim, eu queria ler um livro sobre exercícios físicos – esse vitupério a que todos nós estamos condenados se quisermos ter uma vida minimamente ativa e saudável. Mas não queria ler um livro de coach, livro de gente que legisla em causa própria, de vendedores de passos ou métodos. Nem mesmo um livro científico sobre os benefícios porque, como é óbvio, todo mundo sabe os benefícios – inclusive aqueles que, como eu, não são fãs desse tipo de atividade.

Sim, como vi o Cortella dizer uma vez sobre exercícios físicos, não gosto, não aprecio, não admiro. Por isso que ao me deparar com o livro de Murakami, logo nos capítulos um e dois me dei conta de que era o que eu precisava: não era um livro de nenhum tipo descrito no parágrafo anterior, o que me animou a concluir a leitura.

E assim ele se tornou o primeiro lido de 2026: um livro que fala sobre exercícios físicos sem dar conselhos. Murakami deve saber que seus leitores, inclusive os sedentários como eu, não precisam de mais um coach dando conselhos ou vendendo métodos milagrosos, mas se sentem satisfeitos ao ler um relato sincero de alguém que conseguiu incluir esse método moderno de tortura em sua rotina.

Aqui precisamente está o primeiro aspecto do livro: não sei se é preciso classificá-lo apenas como relato. A leitura dá um tom de ensaio/relato à medida que Murakami, ao longo de nove partes/capítulos, todos datados, à moda de um diário, disserta sobre sua relação com a corrida sem deixar de fazer um paralelo e justificar as duas atividades. Há um trecho interessante em que essa relação fica explicada de maneira curiosa:

“Basicamente eu concordo com a opinião de escrever romances seja um estilo de vida pouco saudável. Quando paramos para escrever um romance, quando usamos a escrita para criar uma história, queiramos ou não, um tipo de toxina que jaz nas profundezas de toda a humanidade sobe à superfície. Todo escritor precisa ficar cara a cara com essa toxina e, consciente do perigo envolvido, descobrir um jeito de lidar com ela, pois de outro modo nenhuma atividade criativa no sentido real pode ter lugar.” (Capítulo 5). Logo no capítulo seguinte há o complemento: “Para lidar com algo insalubre, a pessoa tem de ser o mais saudável possível.”

Murakami se denomina “escritor profissional” e deixa transparecer uma disciplina de escrita profissional mesmo, quase burocrática. Nesse sentido, não deixa de ser curioso notar como associa essa atividade a algo tão metafísico como um encontro com a “toxina nas profundezas da humanidade”, tudo para justificar a escrita como algo não saudável. Seu colega brasileiro, Fernando Sabino, afirmou que a tragédia do ato de escrever é que é um ato solitário. Além de tudo é sedentário, já que se faz sentado, curvado – embora já tenha visto por aí que algum escritor, se não me engano Hemingway, escrevia em pé.

Enfim, o texto não é sobre escrita, mas o texto de Murakami. Um texto que afirma a corrida como solução para sua atividade insalubre de escrever romances. Uma solução que se revelou algo que passou a integrar sua vida, a ponto de ser, paradoxalmente, motivo de uma atividade insalubre: um livro sobre corrida.

Um livro bom, afinal. Primeiramente porque, conforme já afirmei, não é autoajuda. Segundo porque revela, de modo metalinguístico, o processo mesmo da criação do hábito da corrida.

Explico. A escrita de Murakami – neste livro, pelo menos, não li os outros dele – repete o processo de uma atividade física: é circular, repetitiva, consistente, pessoal e universal ao mesmo tempo. Não faço essas afirmações como crítica negativa necessariamente, mas como consequência mesma do tema. Você há de concordar comigo que escrever um livro inteiro sobre sua vivência com um esporte como esse não é tarefa fácil, assim, ao fazer de um livro algo que caberia num artigo, Murakami conseguiu, sem “encher linguiça”, como se diz, um resultado positivo.

Positivo por fazer o leitor correr com ele. A metalinguagem de leitura proporciona esse prazer: ao tomar conhecimento das vivências do autor, escritas de forma não linear, descritas detalhadamente, em uma linguagem quase referencial, ensaística mesmo, faz com que o leitor participe do início, da criação do hábito, da maratona corrida no berço da maratona, do cansaço recorrentemente narrado, dos desafios autoimpostos cada vez maiores, do triatlo que foi a etapa seguinte a uma vida esportiva bem sucedida e, sobretudo, dos fracassos, do que não conseguiu, do que falhou. O que faz do livro de Murakami um livro que não pretende dar conselhos é que, colocando o leitor no esforço da leitura, normaliza a falha, o não conseguir, o tentar novamente como modus operandi – da corrida, da leitura e, por que não, da escrita.

Ao longo do livro eu achei que ia falhar em concluí-lo. E Murakami me compreenderia por isso. Precisei retomar algumas vezes e cheguei ao final. Para alguém como eu, que precisa retomar uma vida saudável e a toxina de escrever romances, valeu a pena.

Leia Murakami. É uma maratona que vale a pena.


10 janeiro 2026

“Os miseráveis”, de Victor Hugo: o Romantismo em choque

 

Quem lembra das aulas sobre Romantismo no ensino médio, possivelmente deve, vagamente, pensar na Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, e em alguma descrição exagerada e açucarada de José de Alencar. Nada que falte à montanha que escalei há pouco tempo: Os miseráveis, do francês Victor Hugo, em edição da Penguin Companhia das Letras, com suas 1.890 páginas divididas em dois volumes.

O romance, publicado pela primeira vez em 1862, narra a história de Jean Valjean, de Fantine, de Cosette, de Marius, de Javert, de uma verdadeira compilação de tipos franceses do século XIX, de suas classes sociais, de seus conflitos morais, de suas misérias e exageros econômicos. Os miseráveis, que levou dezessete anos para ser escrito, já foi chamado de “obra mundo” por abarcar o universo francês de sua época sem, claro, perder sua reverberação universal.

Considerando um livro de mais de cem anos, não há “spoiler” de nenhuma natureza. Ainda assim, leia sem medo: vou te poupar das surpresas e reviravoltas do enredo, te contando apenas a espinha dorsal da história, com alguns poucos comentários para justificar o gênero resenha que geralmente se atribui a um texto como esse.

Jean Valjean, condenado por roubar pão para alimentar os sobrinhos famintos, é liberto da prisão depois de 19 anos. Marcado como um “ex-grilheta”, um ex condenado a trabalhos forçados, não consegue abrigo em nenhum lugar, mesmo pagando. É acolhido por Dom Bienvenu, um bispo católico piedoso, que embora roubado pelo recém liberto, o inocenta para a polícia. Essa atitude de desapego e renúncia muda Jean Valjean para sempre, e o protagonista reconstrói sua vida tornando-se um homem rico e influente que muda de nome e esconde seu passado.

O destino dele cruza com o de outra miserável: Fantine, grávida e abandonada pelo namorado, precisa deixar a filha com o casal Thernádier e suas filhas, uma família que cada vez mais explora a mãe em nome do conforto e da saúde da pequena Cosette, na verdade maltratada e explorada pela família adotiva.

Fantine vai trabalhar na fábrica de Jean Valjean e, como se torna comum no romance (veja que não há nada de novo debaixo do céu), quando a vida da personagem principia a melhorar, a marreta do destino entra em ação: uma funcionária da fábrica, ao descobrir o passado de Fantine, consegue sua demissão. Tem início, então, sua degradação física e econômica, a ponto de precisar cortar e vender seus cabelos (e outras partes de seu corpo) para mandar dinheiro para a filha – dinheiro que cada vez mais se torna urgente e em maior quantidade.

Mais não digo porque suprimiria parte das surpresas e reviravoltas da história. Só registro que vale a pena porque Jena Valjean vai tentar corrigir a injustiça contra Fantine, Cosette vai crescer e seus caminhos vão se cruzar com os do ex condenado, vai ter romance, aventura, morte e suspense, todas fórmulas de uma boa história. Assim, vale a pena ainda comentar dois aspectos do romance: seu vínculo com o real a partir de uma profunda contextualização histórica e sua técnica narrativa intrigante.

“História” é uma palavra fundamental para Os miseráveis. O enredo é datado, começa em 1815, percorre fatos históricos importantes, cita figuras reais da época. É digno de nota, por exemplo, a descrição excessivamente detalhada da famosa batalha de Waterloo, de 1815, e o modo como esse fato histórico está atrelado a personagens, constituindo um ponto chave do enredo.

Além disso, acontecimentos determinantes da narrativa se dão numa barricada montada durante a Rebelião de junho de 1832, em Paris. É realmente interessante o modo como a ficção se ancora na realidade ao longo da leitura, e isso é muito mais fácil de acompanhar na edição da Penguin, recheada de notas explicativas.

Nesse primeiro aspecto é que reside um dos choques do Romantismo: há um compromisso explícito com a realidade histórica, que é romanceada no sentindo invulgar do termo, com uma precisão que, pretendendo se fazer registro histórico, alcança a mais alta condição literária/ficcional. Tudo que se passa na barricada é um exemplo disso: Gavroche parece não um personagem, mas um ente plenamente possível num livro de ciência histórica. Tudo que se fala sobre o catolicismo também: há uma discussão memorável entre o bispo e um revolucionário à beira da morte.

O segundo choque do Romantismo se dá numa narração que, por óbvio, idealiza o amor e a relação amorosa, descreve personalidades quase deificadas de tão heróicas, mas também descreve com chocante realidade situações humilhantes e abjetas a que alguns personagens são sujeitos.

A narração, que se pretende “imparcial”, é por vezes invadida não por um narrador personagem, mas pelo próprio Victor Hugo – acabando com os alicerces do que você também aprendeu na escola sobre a diferença entre narrador e autor. Ele declara ter visitado o lugar da batalha de Waterloo e em alguns trechos registra que “o autor deste livro” viu, ouviu, não queria dizer... É uma narração que mescla aspectos românticos e realistas na técnica e no enredo, muito também pelo compromisso parcial com a história com H maiúsculo.

O romance é atravessado por trechos que poderiam ser classificados como registros históricos e ensaísticos. Há uma longa digressão sobre os esgotos de Paris, por exemplo, desde  a sua construção até suas características, antes de uma cena crucial que se passa ali. Outro exemplo é uma longa análise dos conventos antes de um ser cenário importante do enredo.

Por tudo isso, não é um monte, é uma montanha: a escalada é difícil, leva tempo, é um desafio físico e intelectual, mas é preciso, porque a vista de cima vale a pena. Então, para encerrar, nada melhor que citar o próprio Victor Hugo: “... enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis.”.


30 dezembro 2025

No dia de ano bom

 


Confesso que sempre tive um pouquinho de aversão à palavra “réveillon”, principalmente depois que ouvi a primeira vez sua equivalente e tão brasileira “dia de ano bom”. Em que pese a infame rima, a segunda expressão é muito melhor que a primeira em prosa e prosódia.

Preferências linguísticas à parte, este texto é só para encerrar 2025 e iniciar 2026 sem essa coisa de pé direito, mas de forma inteira, sem estilhaços. Assim, como não sou uma pessoa apta a dar conselhos para ninguém, limito-me a desejar.

E o meu primeiro desejo é que você seja. Seja mesmo, por inteiro, em tudo que viver. E que esse tudo não seja “instagramável” nem tenha como principal finalidade um desejo burro de fotografar, editar e postar. Esses verbos, nesse tempo, têm sido contra a vida e contra os vínculos, desejo que você os abandone se hoje te controlam.

Desejo também que você (re)encontre graça em ler. Para além de todo aquele blábláblá do quanto faz bem, ler é uma oportunidade cada vez mais rara de estar sozinho, em silêncio, desconectado, em rebelião contra o grande controle que as empresas têm do nosso tempo, da nossa atenção, dos nossos desejos. Para isso é fundamental que você leia livros físicos, que você sinta o cheiro do papel, o peso do livro, o virar e o rabiscar de páginas de verdade.

E, claro, atrelado ao que acabei de dizer, desejo que você escreva à mão, em papel, estudando ou registrando o caos da sua cabeça, mas escreva. Recomendo caneta tinteiro – ganhei uma de presente de uma querida colega e ela, a caneta tinteiro, que passa a dar forma a essas palavras, tem um outro toque, um outro visual, um outro compasso de espera.

Desejo também muito: Chico Buarque, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Teresa Cristina, Roberta Sá, Djavan, Nilze Carvalho, Carminho, Mônica Salmaso, Francis Hime, Ivan Lins, Milton Nascimento. Só para falar dos vivos. Se eu for falar dos mortos, precisaríamos de uma infinidade de anos novos.

Desejo, como não podia deixar de ser, que em 2026 você não vote em golpistas, fascistas, autoritários, truculentos e combinadores de política e religião. Só com isso já se inclui uma sociedade e um país melhor na lista de desejos.

E para que esses desejos não se acumulem demais – afinal, você também precisa desejar – desejo, nesse dia de ano bom, que a vida seja leve, que o clima nos ajude, que não falte o pão, a prosa, a poesia, o abraço e o afeto.


Por que Lula?

              Por quê? Porque eu sei que artistas não vivem em função da Lei Rouanet, e os que recebem não o fazem “pra defender o PT”. Porq...